E d u c A ç ã o

20/09/2009

O professor como produtor: o caso da leitura em sala de aula

Filed under: Cidadania,Educação,Formação de Leitores,Leitura,Professores — jspimenta @ 20:42

Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0229.html
 
Juliana Carvalho 

Você já parou para pensar que todo professor é também um produtor? Nossas aulas, os textos e exemplos escolhidos são a nossa produção cultural. O professor é produtor de um discurso que, segundo Walter Benjamin, pode ser aurático ou alegórico.

Discurso aurático é o discurso da continuação, da manutenção da ordem e das relações de poder; o discurso alegórico seria o discurso dos dominados se tivessem voz na sociedade. Para Benjamin, o professor-produtor está inserido em um contexto cultural que será determinante para definir a forma que o produto vai ter e a quem ele vai servir em um sentido ideológico.

O professor-produtor, além de conhecer as teorias existentes sobre aprendizagem, utiliza também conhecimentos e recursos disponíveis na Informação e Comunicação e utiliza esses conhecimentos tanto na construção do seu conhecimento, como ao contribuir para a construção do conhecimento dos alunos.

Nós, professores, devemos oferecer ferramentas que permitam ao sujeito resistir à dominação e reverter a ordem. A aquisição dos elementos da cultura letrada dá ao sujeito informações sobre outras formas de cultura diferentes da sua, e permite que decida se quer participar delas ou não. O sujeito deve, ao menos, ter conhecimento suficiente para exercer a cidadania sem negar sua cultura – que, em geral, não é reconhecida ou legitimada pela escola.

Prosseguir com o mesmo modelo ou preparar aulas que estejam além do que é oferecido pela escola hoje em dia é uma escolha nossa. Para Walter Benjamin, uma produção cultural só pode ser considerada justa se seguir a tendência correta e, por outro lado, se for de boa qualidade.

A literatura, por exemplo, pode ser usada na escola além do quadro histórico e da mera exposição das características principais de autores consagrados pelo cânone. Usamos sempre os mesmos textos e autores, esquecendo que a literatura pode ser usada como um veículo capaz de fomentar discussões sobre diversos assuntos, auxiliando na formação e na construção da cidadania. Além disso, é importante desenvolver com os alunos um amplo trabalho para estimular a leitura.

Saussure entendia a linguagem como uma faculdade mental. O desenvolvimento dessa faculdade é que possibilita a leitura em qualquer código. Segundo ele, a faculdade da linguagem tem como funções a comunicação e a autorreferenciação.

Nossa leitura é um ato solitário; no entanto, quando compartilhada com a leitura de outras pessoas, ampliam-se as possibilidades de interpretação e surgem novas ou diferentes versões do mesmo texto. Nós, professores, devemos não só possibilitar como estimular esse momento – que pode ser associado à zona de desenvolvimento proximal proposta por Vygotsky:

as estruturas da fala dominadas pela criança tornam-se estruturas básicas de seu pensamento. Isto nos leva a outro fato inquestionável e de grande importância: o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos elementos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança. Basicamente, o desenvolvimento da fala interior depende de fatores externos: como os estudos de Piaget demonstram, o desenvolvimento da lógica na criança é uma função direta de sua fala socializada. O crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem.

Já que o desenvolvimento da linguagem é um elemento essencial ao crescimento intelectual da criança, a leitura transforma-se em um fator que interfere diretamente no pensamento, tornando-se um fator determinante do bom desempenho na escola.

Podemos perceber quatro momentos na leitura:

  1. Decodificação: conhecer o código, pelo menos o mínimo de núcleo comum para que a comunicação seja efetiva.
  2. Atribuição de significado para cada significante: signo + sequência fônica + imagem mental.
  3. Geração de sentido: depois das duas primeiras etapas, a leitura já se consolidou e o leitor mergulha nas lacunas.
  4. Consolidação: o leitor apresenta marcas, indícios de uma leitura profunda e da compreensão. Ele reconhece o que o texto tem de próprio, junta com o seu capital cultural e produz um novo texto.

Quase sempre o trabalho com a leitura na escola termina na segunda etapa. Cabe a nós, professores, decidir se seguimos mantendo essa ordem ou se produzimos uma aula diferente, na qual o trabalho com a leitura não siga os moldes definidos há anos, mas seja capaz de seguir adiante e alcançar as etapas 3 e 4. Conversas livres, debates, associações com outros textos ou com textos multimodais ajudam na geração de sentido e na consolidação.

Agora, é com você, professor. Que tal assumir o papel de produtor da sua aula?

Publicado em 15 de setembro de 2009.

18/06/2009

Os professores e o ensino

Filed under: Educação,Professores — jspimenta @ 23:43

Opinião – publicado no jornal Correio Popular de Campinas, 16/06, pág.03.

EDISON LINS
edison.c.lins@gmail.com 

Nas sucessivas avaliações sobre a qualidade da nossa educação, em especial
a educação básica pública, o papel do professor, invariavelmente, é
colocado em evidência. E não faltam manifestações no sentido de tentar
culpar a este importante profissional pelos resultados negativos. Isso,
além de ser injusto em si, é uma assertiva que provoca generalizações,
reforçando a injustiça e, pior de tudo, desvia o olhar de questões que
fazem parte do complexo e abrangente universo da educação e determinantes do seu quadro atual, retirando ou diminuindo responsabilidades decisivas, ou seja, da falta de maior investimento, as políticas educacionais traçadas e as medidas complementares que as regulamentam, o papel dos demais componentes da rede educacional, inclusive supervisores, diretores, coordenadores, a falta de estrutura e ainda a ausência da família no acompanhamento da vida escolar de seus filhos ou dependentes, muito raramente são abordadas à altura de suas responsabilidades nos resultados.

É preciso objetivamente dizer que os professores, em sua absoluta maioria,
estão compromissados com a qualidade do ensino público. Isso se dá no
cotidiano de uma ação profissional que precisa sempre estar atualizada,
interativa e motivadora para que seja paradigma aos alunos. É indubitável
gesto de compromisso com a qualidade da educação, o fato de milhares de
professores paulistas, certamente há exemplos em outros estados, que por
muitos sábados abriram mão de momentos de descanso e convívio familiar
para participar dos cursos de formação continuada, oferecidos pelo chamado programa Teia do Saber, disponibilizado pelo governo estadual. Outras centenas de professores, da rede citada, já obtiveram ou buscam o título acadêmico de mestrado ou doutorado ou outras especializações sem que todo este esforço seja plenamente reconhecido, até mesmo pelo incentivo de discutir ou aplicar a pesquisa realizada no cotidiano da rede, ou numa carreira truncada e que requer urgente revisão.

Revisão que aponte para mecanismos de efetiva possibilidade de progressão
funcional sem que isso signifique a morosidade de uma tramitação
extremamente burocratizada. O apontamento das causas, sem limitar-se
preponderantemente a um único ponto sendo este ainda bastante discutível,
que permita colocar em discussão boa parte dos fatos que determinam o
preocupante quadro atual da nossa educação básica pública, além de não
considerar que a família também tem imensa responsabilidade nos resultados educacionais. Haja vista a baixa presença dos pais em reuniões convocadas pelas escolas públicas, um componente que interfere diretamente na melhoria dos espaços educacionais.

Se o professor tem papel decisivo no processo educacional, é preciso
reconhecer na prática tal importância, a começar pela interrupção de
abordagens simplistas que atribuem a este profissional a quase exclusiva
responsabilidade pelas mazelas educacionais do sistema público.

Um outro ponto a ser discutido: está somente na educação pública o
universo de problemas da escola básica brasileira?

Valorizar o professor implica em reconhecer seu trabalho em vários
aspectos. Pesquisas apontam que mais de 80% dos professores se sentem
desvalorizados pela sociedade. O cenário não muda nem dentro do contexto
de sua atuação, pois 75% dos professores sentem que a administração da
escola ou os gestores externos não reconhecem a importância da categoria.
A constatação é da pesquisa A Qualidade da Educação sob o Olhar do
Professor, da Fundação SM e da Organização dos Estados Ibero-americanos,
que alcançou, em 2007, mais de 8 mil professores em 19 estados
participaram do estudo.

Tal sentimento de desvalorização, a falta de perspectiva de bons salários
ou de uma carreira que efetivamente o desenvolva profissionalmente,
impacta as novas gerações uma vez que se constata, em escala crescente,
que os jovens não procuram o magistério como alternativa profissional, o
que traz projeções sombrias para o futuro educacional. Reiteramos que a
absoluta maioria dos professores da escola básica está compromissada com
uma educação de qualidade e formadora de cidadãos. E da importância do seu papel no processo educacional. Que isto seja reconhecido pelos governos e pela sociedade.

Edison Cardoso Lins é mestre em Educação, funcionário da Unicamp e
professor da rede pública estadual.

Blog no WordPress.com.