E d u c A ç ã o

20/09/2009

O professor como produtor: o caso da leitura em sala de aula

Filed under: Cidadania,Educação,Formação de Leitores,Leitura,Professores — jspimenta @ 20:42

Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0229.html
 
Juliana Carvalho 

Você já parou para pensar que todo professor é também um produtor? Nossas aulas, os textos e exemplos escolhidos são a nossa produção cultural. O professor é produtor de um discurso que, segundo Walter Benjamin, pode ser aurático ou alegórico.

Discurso aurático é o discurso da continuação, da manutenção da ordem e das relações de poder; o discurso alegórico seria o discurso dos dominados se tivessem voz na sociedade. Para Benjamin, o professor-produtor está inserido em um contexto cultural que será determinante para definir a forma que o produto vai ter e a quem ele vai servir em um sentido ideológico.

O professor-produtor, além de conhecer as teorias existentes sobre aprendizagem, utiliza também conhecimentos e recursos disponíveis na Informação e Comunicação e utiliza esses conhecimentos tanto na construção do seu conhecimento, como ao contribuir para a construção do conhecimento dos alunos.

Nós, professores, devemos oferecer ferramentas que permitam ao sujeito resistir à dominação e reverter a ordem. A aquisição dos elementos da cultura letrada dá ao sujeito informações sobre outras formas de cultura diferentes da sua, e permite que decida se quer participar delas ou não. O sujeito deve, ao menos, ter conhecimento suficiente para exercer a cidadania sem negar sua cultura – que, em geral, não é reconhecida ou legitimada pela escola.

Prosseguir com o mesmo modelo ou preparar aulas que estejam além do que é oferecido pela escola hoje em dia é uma escolha nossa. Para Walter Benjamin, uma produção cultural só pode ser considerada justa se seguir a tendência correta e, por outro lado, se for de boa qualidade.

A literatura, por exemplo, pode ser usada na escola além do quadro histórico e da mera exposição das características principais de autores consagrados pelo cânone. Usamos sempre os mesmos textos e autores, esquecendo que a literatura pode ser usada como um veículo capaz de fomentar discussões sobre diversos assuntos, auxiliando na formação e na construção da cidadania. Além disso, é importante desenvolver com os alunos um amplo trabalho para estimular a leitura.

Saussure entendia a linguagem como uma faculdade mental. O desenvolvimento dessa faculdade é que possibilita a leitura em qualquer código. Segundo ele, a faculdade da linguagem tem como funções a comunicação e a autorreferenciação.

Nossa leitura é um ato solitário; no entanto, quando compartilhada com a leitura de outras pessoas, ampliam-se as possibilidades de interpretação e surgem novas ou diferentes versões do mesmo texto. Nós, professores, devemos não só possibilitar como estimular esse momento – que pode ser associado à zona de desenvolvimento proximal proposta por Vygotsky:

as estruturas da fala dominadas pela criança tornam-se estruturas básicas de seu pensamento. Isto nos leva a outro fato inquestionável e de grande importância: o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos elementos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança. Basicamente, o desenvolvimento da fala interior depende de fatores externos: como os estudos de Piaget demonstram, o desenvolvimento da lógica na criança é uma função direta de sua fala socializada. O crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem.

Já que o desenvolvimento da linguagem é um elemento essencial ao crescimento intelectual da criança, a leitura transforma-se em um fator que interfere diretamente no pensamento, tornando-se um fator determinante do bom desempenho na escola.

Podemos perceber quatro momentos na leitura:

  1. Decodificação: conhecer o código, pelo menos o mínimo de núcleo comum para que a comunicação seja efetiva.
  2. Atribuição de significado para cada significante: signo + sequência fônica + imagem mental.
  3. Geração de sentido: depois das duas primeiras etapas, a leitura já se consolidou e o leitor mergulha nas lacunas.
  4. Consolidação: o leitor apresenta marcas, indícios de uma leitura profunda e da compreensão. Ele reconhece o que o texto tem de próprio, junta com o seu capital cultural e produz um novo texto.

Quase sempre o trabalho com a leitura na escola termina na segunda etapa. Cabe a nós, professores, decidir se seguimos mantendo essa ordem ou se produzimos uma aula diferente, na qual o trabalho com a leitura não siga os moldes definidos há anos, mas seja capaz de seguir adiante e alcançar as etapas 3 e 4. Conversas livres, debates, associações com outros textos ou com textos multimodais ajudam na geração de sentido e na consolidação.

Agora, é com você, professor. Que tal assumir o papel de produtor da sua aula?

Publicado em 15 de setembro de 2009.

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25/04/2009

Direitos imprescritíveis do leitor – Daniel Penac

Filed under: Leitura,Livros — jspimenta @ 20:34

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17/04/2009

Os saberes, as bibliotecas universitárias e a edição no ciberespaço

Filed under: Bibliotecas,Educação,Leitura,Livros — jspimenta @ 15:15

(inédito)

Por ROBERT DARNTON *

O apagamento das Luzes no início do século XIX coincide com a irrupção do profissionalismo. Pode examinar-se este processo comparando a obra L’Encyclopédie (A Enciclopédia) de Denis Diderot, que encarava o saber como um todo orgânico guiado pela razão, com uma outra, L’Encyclopédie méthodique (Enciclopédia Metódica) de Charles-Joseph Panckoucke, que dividia o saber em campos autónomos e bem delimitados, semelhantes aos que hoje conhecemos: química, física, história, matemáticas, etc.

biblioteca

No século XIX, estes campos tornam-se profissões, certificadas por diplomas e enquadradas por academias. Durante o século XX, a reorganização do saber materializa-se através da divisão das universidades em departamentos: a química aqui, a física ali, a história um pouco mais longe e, no meio deste território fragmentado, uma biblioteca, geralmente com o aspecto imponente apropriado a um templo do saber.

A subdivisão de cada domínio em especialidades e subespecialidades, cada vez mais exíguas, gera uma multiplicação das revistas profissionais, produzidas pelos universitários e compradas pelas bibliotecas. Este sistema funciona muito bem durante cerca de um século, até ao dia em que os grandes editores se apercebem de que poderem ganhar muito dinheiro vendendo as assinaturas destas publicações confidenciais. As bibliotecas universitárias voltaram uma vez mais a proporcionar uma clientela de qualidade. Por cada assinatura, professores e estudantes passam a receber um fluxo incessante de exemplares.

Pelo caminho, os editores podem aumentar os preços à vontade, pois quem paga é a administração e não os leitores. Além disso, os colaboradores destas revistas, na maioria professores, trabalham gratuitamente ou quase. Escrevem artigos, recenseiam obras dos colegas e participam na comissão editorial. Por vezes, fazem-no para difundir o seu saber, à semelhança das Luzes; mais frequentemente, fazem-no para assegurar a sua própria carreira.

Qual é o resultado? O orçamento atribuído em cada biblioteca universitária à aquisição destas revistas atinge níveis estrondosos. A assinatura anual do Journal of Comparative Neurology custa agora 25 910 dólares. Para receber a revista Tetrahedron, especializada em química bioorgânica, paga-se 17 969 dólares (ou 39 739 dólares na versão completa, que inclui os números especiais). O preço médio de uma assinatura anual de uma revista de química ascende a 3490 dólares. Estes preços astronómicos têm um efeito desastroso na vida intelectual.

As bibliotecas, que reservavam metade do seu orçamento de compras para as monografias (livros especializados não periódicos), passam, devido ao aumento exponencial dos preços das assinaturas, a destinar apenas 25 por cento do mesmo a essas aquisições. As edições universitárias, cujas vendas dependem quase exclusivamente das bibliotecas, deixam de poder amortizar o custo das suas monografias, razão pela qual as publicam cada vez menos. Os jovens investigadores são os primeiros prejudicados com isso.

Felizmente, este quadro está já a esbater-se. Biólogos, químicos ou físicos, mas também historiadores, antropólogos ou especialistas em literatura, já não vivem em mundos separados. Em muitos locais, os fios da interdisciplinaridade estão a estreitar-se e a formar uma estrutura sólida. A biblioteca continua a estar no centro das coisas, mas agora vai buscar os seus elementos nutritivos fora da universidade, muitas vezes nos confins do ciberespaço, através das redes electrónicas.

* Historiador, professor na Universidade Carl H. Pforzheimer e director da Biblioteca de Harvard.

Disponível em: http://pt.mondediplo.com/spip.php?article481

08/04/2009

O especialista em história da leitura

Pesquisador francês estuda os significados sociais dados aos textos pelo autor e pelo leitor.

Roger Chartier

(Márcio Ferrari)

A história da cultura e dos livros tem uma longa tradição, mas só há pouco tempo ela ampliou seu âmbito para compreender também a trajetória da leitura e da escrita como práticas sociais. Um dos responsáveis por isso é o francês Roger Chartier, 63 anos (leia a biografia no quadro abaixo). “Ele fez uma revolução ao demonstrar que é possível estudar a humanidade pela evolução do escrito”, diz Mary Del Priore, sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. “Se a história cultural sempre foi baseada em fundamentos estatísticos ou sociológicos, Chartier a direcionou para as significações sociais dos textos.”

Para o campo do ensino da leitura e da escrita, a obra do pesquisador traz grandes contribuições, na medida em que ilumina os diferentes interesses e usos que aproximam leitores, autores, missivistas, escribas etc. de gêneros e formatos de textos também variados. A atenção a essas questões contribuiu muito para dar apoio à base teórica dos trabalhos de educadores como as argentinas Emilia Ferreiro e Delia Lerner, em particular à noção de que a leitura implica uma elaboração de significados que não estão apenas nas palavras escritas, mas precisam ser construídos pelo leitor. Não por acaso, os primeiros estudos de Chartier – em parceria com o historiador francês Dominique Julia – foram sobre a história da Educação, com enfoque principal nas comunidades de estudantes e nas instituições. Essa reflexão levou Chartier a questionar o papel da circulação e apropriação dos textos.

Na história da leitura, Chartier enfatiza a distância entre o sentido atribuído pelo autor e por seus leitores. Para o historiador, o mesmo material escrito, encenado ou lido não tem significado coincidente para as diferentes pessoas que dele se apropriam. Uma só obra tem inúmeras possibilidades de interpretação, dependendo, entre outras coisas, do suporte, da época e da comunidade em que circula. “Chartier escolheu concentrar-se nos estudos das práticas culturais, sem postular a existência de uma ‘cultura’ geral”, diz Mary Del Priore.

O historiador se detém em realidades as mais inesperadas e específicas em torno dos livros, da leitura e da escrita ao longo dos tempos. Vai das variações tipográficas às formas primitivas de comércio, das primeiras bibliotecas itinerantes às omissões, traduções e acréscimos sofridos por obras famosas – e dá especial atenção ao aspecto gestual da leitura.

Por isso, considera que a primeira grande revolução da história do livro foi o salto do rolo de papel para o códice, ou seja, o volume encadernado, com páginas e capítulos. Maior ainda, segundo ele, está sendo o salto para o suporte eletrônico, no qual é a mesma superfície (uma tela) que exibe todos os tipos de obra já escritos. Essa é, na opinião dele, a mais radical transformação na técnica de produção e reprodução de textos e na forma como são disponibilizados. As mudanças de relação entre o leitor e o material escrito determinadas pela tecnologia alteram também o próprio modo de significação – antes do códice, por exemplo, era impossível ler e escrever num mesmo momento porque as duas mãos estavam ocupadas em segurar e mover o rolo.

As formas de apresentação do texto interferem no sentido

“Chartier compreendeu que um texto não é uma simples abstração e que ele só existe graças à maneira como é transmitido”, afirma Mary Del Priore. O pesquisador francês costuma combater a ideia do material escrito como um objeto fixo, impossível de ser modificado e alterado pelas pessoas que o utilizam e interagem com ele. As novas tecnologias lhe dão razão – a leitura na internet costuma ser descontínua e fragmentária, e o leitor raramente percebe o sentido do todo e da contiguidade, que, por exemplo, o simples manuseio de um jornal já gera.

Essa diferença fundamental, que torna a leitura dos livros mais profunda e duradoura, faz com que ele preveja a sobrevivência do formato impresso, apesar da disseminação dos meios eletrônicos. “O trabalho que fazemos como historiadores do livro é mostrar que o sentido de um texto depende também da forma material como ele se apresentou a seus leitores originais e por seu autor”, diz Chartier. “Por meio dela, podemos compreender como e por que foi editado, a maneira como foi manuseado, lido e interpretado por aqueles de seu tempo.” O suporte, portanto, influencia o sentido do texto construído pelo leitor.

Ele gosta de enfatizar duas outras mudanças importantes nos padrões predominantes de leitura. A primeira: feita em voz alta à frente de plateias, foi para a silenciosa na Idade Média. A segunda: da leitura intensiva para a extensiva, no século 18 – quando os hábitos de retorno sistemático às mesmas e poucas obras escolhidas como essenciais foram substituídos por uma relação mais informativa e ampla com o material escrito.

Os caminhos de Chartier

Por uma história cultural dos indivíduos

 

Roger Chartier pertence à geração de historiadores que rompeu, nos anos 1980, com a tradição hegemônica francesa, constituída desde 1929 por nomes como March Bloch (1886-1944) em torno da revista Annales d’Histoire Économique et Sociale. Mesmo assim, ele concorda com postulados básicos dos antecessores, como a multiplicação das fontes de pesquisa. Para ele, o trabalho com fontes primárias é fundamental.Por outro lado, sua trajetória se forjou sob o impacto da obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), que, segundo Mary Del Priore, “recusa uma história ‘global'”. Nasceu assim a Nova História Cultural, que se preocupa com a singularidade dos objetos. “Para Chartier, o movimento representa o estudo não das continuidades, como para a primeira geração dos Annales, que analisava os fenômenos em sua longa duração, mas das diferenças e descontinuidades”, explica ela.

Biografia

Intelectual de grande influência no Brasil

Roger Chartier nasceu em 1945, em Lyon, a terceira cidade da França, filho de uma família operária. Formou-se professor e historiador simultaneamente pela Escola Normal Superior de Saint Cloud, nos arredores de Paris, e pela Universidade Sorbonne, na capital francesa. Em 1978, tornou-se mestre conferencista da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e, depois, diretor de pesquisas da instituição. Em 2006, foi nomeado professor-titular de Escrita e Cultura da Europa Moderna do Collège de France. É membro do Centro de Estudos Europeus da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e recebeu o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras do governo francês. Também leciona na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, e viaja pelo mundo proferindo palestras. Veio várias vezes ao Brasil, onde é, depois do antropólogo Claude Lévi Strauss, o intelectual francês contemporâneo que mais influencia estudantes de ciências humanas.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

Formas e Sentido – Cultura Escrita: Entre Distinção e Apropriação, Roger Chartier, 168 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 24 reais
Inscrever & Apagar, Roger Chartier, 336 págs., Ed. Unesp, tel. (11) 3242-7171, 37 reais.
Leituras e Leitores na França do Antigo Regime, Roger Chartier, 395 págs., Ed. Unesp, 46 reais.
Práticas da Leitura, Roger Chartier, 268 págs., Ed. Estação Liberdade, tel. (11) 3661-2881 (edição esgotada) .

Disponível em: http://revistaescola.abril.uol.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/especialista-historia-leitura-427323.shtml

Vale mais que um trocado

Filed under: Cidadania,Educação,Leitura,Literatura,Livros — jspimenta @ 7:39

Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi.

Rodrigo Ratier

“Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?” Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse – e conferiria as reações.

Para começar, acomodei 45 obras variadas – do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier – em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.

Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:

– Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.

Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro – “Esse do castelo, que deve ser de mistério” – para presentear a mulher que o esperava na calçada.

Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:

– Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:

– Sabe ler?, perguntei.

– Não…, disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:

– Sim. Sei, sim.

– Em que ano você está?

– Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.

Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.

Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro…

– Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.

Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria. 

*os nomes foram trocados para preservar os personagens.

Disponível em: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml

31/03/2009

Livra Livros – Não deixe seu livro mofar na prateleira

Filed under: Leitura,Literatura — jspimenta @ 14:16

 

(Alexandre Rodrigues Alves)

http://www.livralivro.com.br/

Tudo começou quando Samur Araujo buscou um livro e não o encontrou, mesmo tendo consultado amigos, livrarias e mesmo sebos. O que ele fez? Criou um site para oferecer esse benefício a que ele não teve acesso: intermediar a troca de livros entre vários usuários cadastrados. O site em si não é nada de excepcional – visual ou textualmente. A ideia que ele comporta, sim, é sensacional: permitir que o visitante troque os livros que já leu – que não interessam mais a ele, que ganhou em duplicata ou cujo tema ou autor não lhe agrada – por outros em que estava de olho mas não tinha dinheiro ou certeza de comprar. Esse é o conceito central do Livra Livro: em vez de você ficar guardando livros em casa e tendo que gastar dinheiro sempre que quiser adquirir novos (as editoras e livrarias que não me leiam), vale a pena visitar o site. Após se cadastrar, você relaciona os livros de que quer se desfazer e indica os que estão na sua alça de mira. Pronto! O sistema se encarrega de realizar a troca: utilizando um mecanismo inteligente, possibilita a troca simultânea entre múltiplos usuários, o que aumenta enormemente a chance de cruzar interesses e efetivar o processo. Quando a troca é aceita por todos os usuários envolvidos, estes são informados do fato. Aí só falta colocar o livro nos correios e esperar a chegada do seu novo companheiro. Simples assim: acertada a troca, é só colocar o livro no correio para o futuro leitor. Não é bom ter um livro pelo preço de uma encomenda – que varia de R$ 3,00 a R$ 8,00, em função do peso, para entregas no Brasil? Falando do site propriamente dito, sua estrutura é bem simples: tem um pouco da história da sua construção e um FAQ (frequently asked questions – questões mais frequentes) sobre o sistema do Livra Livros. Para quem está de olho em alguma obra e tem outras disponíveis, é uma oportunidade e tanto de renovar a biblioteca por um valor muito abaixo do esperado.

Publicado em 31 de março de 2009.

Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/internet/sitedavez/0134.html

21/03/2009

Roger Chartier – “Acredito que os jovens leiam mais hoje”

Filed under: Educação,Leitura,Literatura — jspimenta @ 23:17

Roger Chartier defende a leitura na internet, mas duvida que os livros sumam. Diretor do Centro de Pesquisas Históricas na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França, o historiador francês Roger Chartier é um dos maiores especialistas do mundo no estudo da prática da leitura.

São de sua autoria os livros “Práticas da leitura” (Estação Liberdade), “História da leitura no mundo ocidental” (Ática) e “Os desafios da escrita” (Unesp), entre outros. Em entrevista ao Globo, Chartier falou sobre as mudanças que as tecnologias podem promover sobre a leitura.

– Um jovem de hoje lê menos do que um jovem de 30 anos atrás?

Parece-me difícil estabelecer um diagnóstico geral. Alternando os países, os meios sociais ou as condições culturais, a resposta poderia ser muito distinta. No caso francês, acredito que os jovens leiam mais hoje, mas eles lêem textos que não são os que tradicionalmente se consideram leituras legítimas. Eles lêem na frente do computador, lêem histórias em quadrinho, revistas, livros escolares, literatura de bolso. O que é verdade é que os jovens não valorizam de forma alguma sua representação como leitor. Mas, como escreveu o sociólogo francês Christian Baudelot, “ainda assim lêem”, indicando que as práticas de leitura são mais freqüentes do que indicam os discursos sobre leitura. Não conheço os dados estatísticos do Brasil, mas a mesma conclusão me parece válida.

– É possível falar sobre a “qualidade” do tipo de leitura? É aceitável que alguém diga que a leitura de blogs ou sites de notícias tem menos valor do que a leitura de um romance?

A leitura frente a uma tela de computador é descontinuada, segmentada, e se atém a um fragmento (uma informação de um banco de dados, um artigo num periódico ou blog, uma voz numa enciclopédia), sem a necessidade ou desejo de relacionar esse fragmento com a totalidade textual de onde foi extraído. Acredita-se que a leitura de textos cuja estrutura é fragmentada pode pôr em perigo o conceito de obra que supõe a compreensão. É a razão pela qual a edição de livros eletrônicos encontrou mais êxito com os gêneros enciclopédicos do que com romances, ensaios ou livros de história. É a razão, também, que explica a inquietude dos jovens leitores que se apropriam desses gêneros com as mesmas práticas de leitura que eles lêem blogs ou websites. Mais do que a qualidade dos textos, o essencial é a relação entre os tipos de textos e a maneira de ler.

– Mas um pai deveria se preocupar com um filho que passe horas lendo blogs e não pegue nunca num livro impresso?

O que é um livro? Para nós, é um objeto específico, diferente de outros objetos da cultura escrita (cartas, periódicas, revistas etc.) e é uma obra que tem sua identidade própria, sua coerência, sua lógica intelectual ou estética. Ainda que a percepção dessa identidade do livro como obra seja mais difícil frente ao computador que em contato com o impresso, não há razão para que a nova forma dos textos destrua a composição e leitura de obras notáveis. A História ensina que as obras do passado sobreviverão às mutações morfológicas e técnicas do livro: desde os rolos da Antigüidade e manuscritos medievais, até depois de Gutenberg com o livro impresso.

– Mas daqui a 40 ou 50 anos, quando a internet fizer parte da formação inicial de todas as gerações, um livro impresso ou um jornal não poderia se tornar obsoleto?

Não desejo e nem acredito nisso, porque ler um “mesmo” texto na frente do computador e num objeto impresso leva a leituras diferentes. A primeira é realizada por rubricas, temas, palavras-chave e dá acesso a informações segundo uma ordem enciclopédica na qual cada fragmento tem como contexto os outros textos que se encontram sob a mesma rubrica de sua origem. Já o sentido da segunda leitura é construído por cada fragmento em relação a todos os textos presentes na mesma página ou publicados no mesmo exemplar. É a intenção editorial, intelectual ou estética que mostra o contexto. As pessoas podem comprovar o que estou dizendo lendo um mesmo artigo num banco de dados de uma revista eletrônica e em seu exemplar impresso. Assim é possível medir a diferença de expectativas, curiosidades ou modalidades de compressão que existe entre as leituras.

– Num país como o Brasil, onde a educação é deficiente e a renda da população é baixa para a compra de livros, projetos de inclusão digital podem ser uma solução de incentivo à leitura?

Acredito que sim. As telas de computador que existem hoje são telas escritas, que podem ajudar a ensinar a ler e escrever, e que podem proporcionar um acesso a uma biblioteca sem limites. Mas acho também que, como disse certa vez a (psicóloga e pedagoga argentina) Emilia Ferreiro, a presença de computadores nas salas de aula não basta para resolver as dificuldades de aprendizado. Para o fomento da leitura, é preciso a mediação de mestres capazes de situá-la em frente ao computador dentro de uma cultura escrita global, que exige o aprendizado de escrever à mão e que propõe outros suportes de comunicação. O livro impresso é um desses suportes e deve estar presente nas classes e em espaços sociais como bibliotecas e livrarias. Como disse Bill Gates: “Quando quero ler um livro, eu o imprimo”.
(O Globo, 17/8)

JC e-mail 3580, de 20 de Agosto de 2008.
Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=58099

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