E d u c A ç ã o

21/03/2009

O Jornalismo como Fonte da História

Filed under: Educação,História,Jornalismo — jspimenta @ 23:21

 

Tania Regina de Luca: “O jornal impresso tem que buscar sua vocação original como quarto poder. Caso contrário, perderá cada vez mais leitores”.

A historiadora Tania Regina de Luca tem um olhar dos mais críticos sobre a imprensa contemporânea. Ela é uma das convidadas do simpósio “200 Anos da Imprensa no Nordeste”.

Autora do livro “História da Imprensa no Brasil”, juntamente com Ana Luiza Martins, Tania Regina de Luca sempre pesquisa o passado, mas com um olhar atento ao presente. Aliás, o passado é a argamassa que utiliza para a construção de sua obra. Mas sua grande preocupação é com o presente. Preocupação focada, principalmente, no atual momento da imprensa brasileira. “Um jornalismo fácil, de serviço, rápido e fragmentado, onde predomina a sociedade do espetáculo e do entretenimento em detrimento de um jornalismo mais sério como o do nosso passado”, compara. Saudosista, não. Preocupada, sim.

Mas, para analisar o hoje e lançar luzes para o futuro, é necessário, segundo Tania, uma mirada meticulosa no passado. Cita o livro de Nelson Werneck Sodré – “História da Imprensa no Brasil” como um clássico. Uma obra que continuará como um clássico e ponto final.

– O livro do Werneck Sodré foi resultado de 30 anos de trabalho. Ele, também, foi um homem de imprensa. Basta você ler seu livro “Memórias de um Escritor” para perceber a grande importância de Sodré como pensador. Não somente como pensador, mas também do ponto-de-vista de sua militância política, suas posições de esquerda. Seu livro é um cânone, uma grande referência. Foi escrito em 1976 e, até mesmo um pouquinho antes de morrer, Werneck fez um posfácio sobre a imprensa naqueles anos de chumbo. Agora, dos anos 70 para cá, houve um processo de desenvolvimento da pesquisa histórica no País. Os programas de graduação e pós-graduação e os estudos de história se sofisticaram e lançaram novas interpretações sobre o processo histórico da imprensa brasileira.

Segundo Tania Regina, os estudos sobre a imprensa brasileira são muitos e específicos. Hoje existem pesquisas sobre recortes, focos em determinados contextos, realizados por inúmeros pesquisadores espalhados pelo país. “Ora, se você quer estudar sobre a imagem da mulher na imprensa do início do Século XX ou a imprensa e o movimento operário ou ainda sobre a história da literatura através dos jornais você já conta com uma variedade de pesquisas, muitas delas lançadas em livro”, diz. Aliás, este foi o objetivo de “História da Imprensa no Brasil”, uma obra que vem suprir uma lacuna neste campo diante do olhar de vários especialistas sobre o singular e rico processo histórico da imprensa brasileira. Dividida em três partes, o livro organizado por Tania Regina foca os primórdios da imprensa no Brasil, passando pelos tempos eufóricos da imprensa Republicana, analisa os anos 50 do século passado, principalmente as batalhas travadas por Chateaubriand (Diários Associados), Samuel Wainer (Última Hora) e Carlos Lacerda (Tribuna da Imprensa), e termina nos dias de hoje – a era das revistas de consumo, revolução tecnológica, reviravolta política e a globalização da mídia. São diversos os autores, diversos os olhares.

“‘História da imprensa no Brasil’ valendo-se dos estudos pontuais de especialistas que refletem sobre o singular e rico fazer histórico da imprensa brasileira nos dá nexos das partes constitutivas desse longo processo, por meio de abordagens inovadoras, que desvendam acervos, desmontam visões consagradas e põem em discussão afirmações viciadas com metodologias contemporâneas, realizando levantamento exaustivos, dominando diversas fontes, vivenciando o fazer da imprensa no interior das próprias redações”, escreve na introdução da obra.

Pluralidade

Ela defende que o livro mostra uma pluralidade e uma variedade de interpretações. Por isso, várias estudiosos abordam os muitos aspectos do processo histórico da imprensa brasileira. Não apenas historiadores, mas também jornalistas e sociólogos. Longe do ranço oficial, o livro desvenda uma nova história. O importante, afinal, não é discutir qual foi o primeiro jornal brasileiro. Para alguns, o “Correio Braziliense” ou “Armazém Literário”, de Hipólito da Costa; para outros, a “Gazeta do Rio de Janeiro”. “O importante – disse – é analisar como estes jornais pautaram nossos debates políticos, coisa que a imprensa de hoje não faz”.

Segundo Reinado

O Segundo Reinado pode ser compreendido melhor através dos jornais da época, segundo Tania. Das páginas do “Correio Paulistano” ou da “Província de São Paulo”, do “Jornal da Família”, “Ilustração Brasileira”, ” Semana Ilustrada”, enfim, de várias publicações, é possível reconstituir o contexto econômico, político e social do período de D. Pedro II e seus muitos gabinetes, sejam conservadores ou liberais. A professora Tania ainda cita a obra de Machado de Assis como uma importante fonte para os historiadores. “Os críticos só davam valor aos romances de Machado, mas suas crônicas nos fornece uma rica e importante reprodução do II Império”, diz.

– Eu tenho certeza que estes jornais são fundamentais para entendermos os processos da época – a formação do Brasil – conceitos como liberdade em tempo de escravidão, por exemplo. As revoltas nativistas. O fim do Segundo Império e a instalação da República. Qual o futuro que aqueles homens e jornais imaginavam para o Brasil? Bem há pouco tínhamos uma visão oficial. Visão oficial quebrada pelo grande livro de Nelson Werneck Sodré, principalmente. Através da fala dos derrotados, dos que perderam, poderemos reconstituir melhor este mosaico histórico.

Da imprensa doutrinária com forte influência francesa do Século XIX e início do Século passado, passando pela revolução dos anos 50 aos dias de hoje muita coisa mudou. Tania Regina de Luca é uma crítica fervorosa da imprensa em tempos de globalização. “Antigamente você assinava um jornal em função da sua posição política. Se era comunista, você o comprava por concordar com as teses comunistas; se você era varguista comprava o ‘Ultima Hora’, do Samuel Wainer; se udenista a ‘Tribuna da Imprensa’, do Carlos Lacerda. Eram jornais vivos, fortes, com repórteres que dominavam a arte de narrar. O Cláudio Abramo já dizia que jornal não pode ser neutro. Tem, sim, que tomar posição. O que me decepciona hoje é esse tal de jornalismo informativo, de serviços, de celebridades e espetáculo. Jornais que enganam o leitor, mas do que informam. Não contextualizam, nem opinam ou interpretam. Não acredito nesse jornalismo. No mito da neutralidade, da objetividade. Veja, todos os jornais hoje são parecidos, inócuos, frágeis em todos os aspectos. Isso do ponto de vista do conteúdo”.

O quarto poder

A professora Tania Regina acredita, ainda, que os jornais podem voltar, diante da crise que enfrentam, a cumprir um papel realmente de quarto poder, há muito esquecido. Muitos deles, estão perdendo até para a Internet, principalmente para os “blogs”. Na crise do mensalão, segundo ela, os jornais tiveram um papel coadjuvante. Os blogs foram mais importantes que os jornais impressos. O mesmo ocorreu com o processo de impeachement de Collor de Melo. Quando as revistas semanais tomaram à frente dos jornais diários. A concentração de jornais é um outro problema. “O jornal impresso tem realmente que buscar sua vocação original como quarto poder. Caso contrário, perderá cada vez mais leitores”, diz. Ela, no entanto, é otimista e acha que o jornal não vai desaparecer, mas terá que passar por profundas reformas para superar as dificuldades atuais.

Mais uma vez, segundo ela, a sociedade civil tem um forte papel a cumprir nesta quadra histórica do jornalismo brasileiro. “A informação que nos vendem está poluída, assim como os rios, os alimentos. Então, é preciso despoluir nossos jornais. Quando a sociedade se recusar a comprar determinada publicação poluída, logicamente haverá mudanças”, acredita.

Para a professora Tania Regina se não acreditarmos na força da sociedade civil, organizada, para reverter essa situação, aí, sim os jornais poderão desaparecer. Fato que ela acha pouco provável. Acredita na utopia, nas lições da história. “Nem eu, nem você podemos ser levados pela corrente do individualismo. Temos que ser tocados pelo mosquito da inquietude, do inconformismo. Que um rio de utopia caia sobre nós”. Cita o “Observatório da Imprensa”, de Albert Dines como um exemplo a ser seguido. Segundo ela, ainda um pingo no oceano. “Cabe a nós transformamos esse pingo numa grande corrente”, afirma a pesquisadora.

Tania Regina de Luca é doutora em História Social e professora dos cursos de graduação e pós-graduação da Unesp e pesquisadora do CNPq. Escreveu “Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação”. Também publicou “Imprensa e Cidade” e “História da cidania e Fontes Históricas”.

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor

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