E d u c A ç ã o

13/07/2009

O patrimônio da diferença!

Filed under: Índios,Cultura Brasileira,Estudos Culturais — jspimenta @ 17:19

JC e-mail 3803, de 13 de Julho de 2009.

Artigo de Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e professora da Universidade de Chicago. Artigo publicado na “Folha de SP”: para antropóloga, história do país revela sucessivas tentativas de negação da existência física e cultural dos índios.

Há um grande divisor de águas na maneira de se perceberem os índios. Até muito recentemente – e ainda existem resquícios felizmente cada vez mais isolados dessa visão – entendia-se que os índios estavam aí como resquício do passado e destinados a desaparecer física e culturalmente.

A partir sobretudo do final da década de 1980, percebeu-se que os índios estavam aqui para ficar, e que faziam parte do futuro do Brasil.

As variações sobre esses temas são muitas: na colônia, procurava-se evangelizar os índios, escravizá-los ou pelo menos transformá-los em trabalhadores braçais, em suma incorporá-los por baixo à sociedade colonial. Morreram nos aldeamentos aos milhares, em poucos anos, de causas então desconhecidas.

Uma explicação teórica a essa mortandade chegou no final do século 18: biologicamente, afirmou-se com De Pauw, o Novo Mundo era um local de senescência precoce, em que não havia grandes mamíferos como na África e onde a civilização não podia prosperar porque a humanidade era acometida de prematura velhice antes de poder atingir a plena maturidade.

O desaparecimento dos índios se tornava assim, pela primeira vez, um destino biológico. Quase um século mais tarde, o darwinismo social explicava pela seleção natural o declínio populacional dos índios sem aparentemente atentar para as guerras movidas nesse período aos índios em todas as Américas para controle das terras.

Outra vertente de programas de desaparecimento biológico dos índios eram as políticas de miscigenação, das quais a mais famosa foi a do marquês de Pombal em 1755, mas que José Bonifácio endossou na tentativa de criar uma nação homogênea correspondendo ao novo Estado do Brasil.

O século 19 agregou a noção de civilização à de catequização e em larga parte a substituiu. O “progresso” -para o qual os índios estavam “atrasados”- sucedeu à “civilização”, da República até o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois do “progresso”, veio o “desenvolvimento”. Em muitos sentidos, catequização, civilização, progresso e desenvolvimento são avatares uns dos outros na medida em que preconizam mudança cultural. Mas há diferenças significativas.

Etapas da cobiça

O historiador José Oscar Beozzo distingue com razão dois grandes períodos da política indigenista no Brasil: até cerca de 1850, os índios eram sobretudo cobiçados como mão de obra; a partir de 1850, cobiçavam-se sobretudo as terras deles.

“Desinfestar os sertões” do país dos seus índios passou a ser entendido como condição de progresso. Aldeá-los fora de seus territórios tradicionais era um modo de dar acesso às terras deles. O mapa das terras indígenas no Brasil de hoje é o mapa das terras que até recentemente não interessavam a ninguém.

Foi com a cobiça de suas terras que os índios passaram a ser considerados como entraves, empecilhos ao desenvolvimento. Agora um programa de assimilação passava a ser estratégico para tentar descaracterizar legalmente os índios enquanto sujeitos de direitos territoriais, reconhecidos pelo menos desde 1680 e inscritos em todas as Constituições brasileiras desde a de 1934.

As tentativas de “emancipação” dos índios das décadas de 1970 e 1980 repetiram estratégias do último quartel do século 19 que dissolviam aldeamentos a pretexto de que os índios estivessem misturados com o resto da população. “Desenvolvimento” foi o mantra do pós-guerra e em nome dele fez-se por exemplo a Revolução Verde [que disseminou novas técnicas agrícolas].

Outra ideia mestra, provocada pelos horrores do racismo nazista, foi a do direito à igualdade, inscrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, de 1948, e também na Convenção 107 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1957, essa respondendo ao racismo do apartheid. O direito à igualdade, essencial sem dúvida, de certa forma obnubilou outro direito fundamental, o direito à diferença.

Sartre já dizia que a forma de racismo liberal era aceitar a igualdade dos homens desde que despidos de qualquer especificidade cultural.

A grande inovação do final dos anos 1980 e que ganhou corpo nos anos 90 foi o reconhecimento desse direito à diferença. A grande introdutora desse direito no âmbito internacional foi a Convenção 169 da OIT, adotada em 1989, que revisava em grande parte a convenção de cunho assimilacionista de 1957.

Uniformidade nacional

No domínio da diferença, a questão da língua sempre foi sensível: é provavelmente o traço mais reconhecível de todo grupo étnico. Há pouco tempo ainda se proibia falar ou publicar em catalão na Espanha, com a consequência -curiosa, aliás- de que há toda uma geração catalã que não sabe escrever sua língua porque apenas a falava em casa, clandestinamente.

A ideia de que cada país deva falar uma única língua faz parte de uma concepção de Estado do século 18, assente em uma única comunidade homogênea em todos os seus aspectos: religiosos, linguísticos, culturais em geral. Ora, países como esses são a exceção, e não a regra.

Mas, durante pelo menos dois séculos, tentou-se no Ocidente dar realidade a essa utopia. No Brasil não foi diferente. Em 1755, o marquês de Pombal exigiu o uso do português e proibiu o do nheengatu, um tupi gramaticalizado pelos jesuítas e introduzido pelos missionários na Amazônia.

Nos últimos 20 anos, a situação mudou consideravelmente: na Constituição de 1988 se assegura às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas no ensino fundamental e agora abundam cartilhas em línguas indígenas. Há alguns anos, o município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, reconheceu quatro línguas oficiais, das quais três são indígenas. E, agora, o IBGE anuncia que incluirá as línguas indígenas nas perguntas do próximo Censo.

Todas essas iniciativas marcam uma distância clara da ideologia assimilacionista de algumas décadas atrás. A diferença linguística -e o Brasil tem pelo menos 190 línguas indígenas- passou a ser vista como patrimônio. Dessas 190 línguas e dialetos, a grande maioria é falada por menos de 400 pessoas. Ora, a estrutura e a gramática das línguas encerram toda uma visão de mundo: Benveniste mostrou, por exemplo, que as categorias da filosofia de Aristóteles eram as próprias categorias gramaticais do grego. Calculem os riscos que corremos.
(Folha de SP, 12/7).

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09/06/2009

Astronomia indígena prevê ocorrência da pororoca

Filed under: Índios,Cultura,Cultura Brasileira,Etnoastronomia — jspimenta @ 20:13

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JC e-mail 3779, de 09 de Junho de 2009.

Índios brasileiros sabiam da influência da lua sobre as marés muito antes de Galileu e Newton. Assunto será abordado na 61ª Reunião Anual da SBPC, em Manaus, no próximo mês de julho.

Ao observarem atentamente o céu quando as águas dos mares e rios se agitavam, os indígenas brasileiros fizeram uma descoberta que Galileu Galilei ignorou e Isaac Newton chegou à mesma conclusão somente quase um século depois: que a lua é a principal causadora das marés.

E que a pororoca, o fenômeno provocado por elas, em que as águas bravias do mar se chocam violentamente contra as de rios, como do Amazonas, dando origem a grandes ondas, ocorre próxima às fases da lua nova e cheia, conforme hoje se sabe e eles já descreviam em seus antigos mitos.

Em 1632, Galileu Galilei publicou o livro “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo: ptolomaico e copernicano”, em que afirma que a principal causa das marés seriam os dois movimentos circulares da Terra: o de rotação em torno de seu eixo, que ocorre todos os dias, e o de translação em torno do sol, que acontece anualmente, desconsiderando a influência da Lua. Somente em 1687, Isaac Newton demonstrou que a causa das marés é a atração gravitacional do sol e, principalmente, da lua sobre a superfície da Terra.

Mas, antes da publicação da obra de Newton, em 1614, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville publicou em Paris o livro ““Histoire de la mission de pères capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines”. Na publicação, d’Abbeville narra suas observações do convívio por quatro meses com índios tupinambás, da família dos tupi-guarani, no Maranhão, localizados perto da Linha do Equador.

Uma das anotações do missionário francês diz que “os tupinambás atribuem à lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. O que confirma o conhecimento por esses povos da relação entre as marés e as fases da lua muito antes das teorias de Galileu e de Newton.

“Todas as civilizações antigas, antes de terem escrituras e se tornarem de nômades a sedentários, liam os astros para construírem calendário e buscarem orientações para regular suas vidas”, aponta o autor da descoberta, o astrônomo Germano Bruno Afonso, professor visitante do CNPq na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 61ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 12 a 17 de julho, em Manaus (AM).

Descobertas – No final da década de 70, Afonso fez seu doutorado na França, onde teve acesso ao livro de d’Abbeville, em que o capuchinho francês menciona alguns nomes de constelações em tupi, tais como, “curuçá” (cruzeiro do sul), “seichu” (plêiades), “tuibaé” (velho) e “nhandutim” (ema). Ao analisá-los mais detidamente, constatou que as constelações tinham correspondentes em guarani, hoje, embora estejam separadas pela distância – em mais de três mil quilômetros – e pelo tempo, em cerca de quatrocentos anos. Baseado nessa descoberta, começou a estudá-las em todas as regiões do Brasil.

“Em outros países, essa disciplina, a etnoastronomia, é muito estudada. Já se sabe muito sobre os incas, maias e navajos, por exemplo. Mas sobre os índios brasileiros, não se conhece nada. Só é possível ampliar o conhecimento sobre eles em trabalhos de campo, porque não existe nada nas bibliotecas”, avalia o especialista, que fez outra grande descoberta ao justamente se embrenhar em um desses trabalhos de campo.

Em 1991, arqueólogos acharam às margens do Rio Iguaçu, no Paraná, onde estava sendo construída uma hidrelétrica, um material arqueológico que não conseguiram entender seu significado. Ao estudar a rocha vertical, o pesquisador identificou que se tratava de um instrumento de observação solar, conhecido como “gnômon”. “Ele tinha quatro faces talhadas para os pontos cardeais. Fui falar com os guaranis daquela região, para ver se aquilo tinha sentido para eles, e percebi que havia. Depois, encontrei instrumentos semelhantes a ele em diversos outros locais do Brasil”, conta.

De acordo com o pesquisador, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Por meio da observação da lua, eles sabiam, por exemplo, que há uma maior incidência de mosquitos na lua cheia do que na lua nova. O que poderia ser útil para os órgãos de saúde no Brasil combaterem hoje o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, determinando qual o melhor período para promover ações de dedetização.

A palestra do astrônomo Germano Bruno Afonso será realizada no dia 17 de julho, às 10h30, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A Reunião Anual, cujo tema é “Amazônia: Ciência e Cultura”, contará com 175 atividades, entre conferências, simpósios, mesas-redondas, grupos de trabalho, encontros e sessões especiais, além de apresentação de trabalhos científicos e minicursos.

Veja a programação em http://www.sbpcnet.org.br/manaus
(Assessoria de Imprensa da SBPC).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63966

02/05/2009

ARARUAMA – Tupis-guaranis habitavam o litoral há cerca de 3 mil anos

Filed under: Araruama,Índios — jspimenta @ 16:27

Fogueira encontrada junto a urna funerária em sítio arqueológico no interior do RJ intriga arqueólogos.

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A datação de carvões de um sítio arqueológico em Araruama, no Rio de Janeiro, confirma o que até então era considerado improvável: que os índios tupis-guaranis já habitavam o litoral da região Sudeste entre 2600 e 2900 antes do presente (a.p.). Mas, se a descoberta prova a ocupação em tempos mais remotos do que se acreditava, também suscita uma nova questão.

Isso porque os carvões analisados fazem parte de uma fogueira composta por cascas de árvores e construída junto a uma urna funerária. É a primeira vez que esse tipo de fogueira é encontrado em um ritual funerário e os cientistas agora buscam explicações para o fato.

A coordenadora da pesquisa é a antracóloga (especialista na análise de carvões arqueológicos) Rita Scheel-Ybert, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Scheel-Ybert conta que, no final dos anos 1990, duas amostras de carvões do sítio de Morro Grande, em Araruama, foram datadas como sendo de 1740 a.p. e 2920 a.p..

“A datação do material em 1740 a.p. já foi uma surpresa e fez o sítio de Morro Grande ser considerado o mais antigo do Rio de Janeiro. Mas achei que havia algo errado quando, durante as pesquisas de meu doutorado, encontrei a data de 2920 a.p.. Essa data contrariava a tese dominante de que os tupis-guaranis haviam começado a deixar a Amazônia cerca de 2000 anos a.p.”, conta.

A pesquisadora acrescenta que, apesar da desconfiança inicial, uma análise posterior confirmou que a amostra tinha origem humana, sendo, provavelmente, relacionada a uma estrutura de queima de cerâmica. Além dessa confirmação, a datação de uma terceira amostra do mesmo sítio apontou que esta tinha a idade de 2600 anos a.p.. “Agora parece claro que os tupis-guaranis já habitavam a região nessa época”, diz Scheel-Ybert.

Essa terceira amostra é justamente a da fogueira de cascas de árvores encontrada junto à urna funerária. Os pesquisadores acreditam que seja um caso de transferência de um uso prático do fogo para um uso ritual. “O fogo produzido pela casca das árvores era usado para a preparação de cerâmicas por ser muito intenso. Acreditamos que essa intensidade tenha levado os índios a optarem por seu uso nos rituais de morte, em que o fogo serve para iluminar o caminho da alma até o paraíso ou para afastar os maus espíritos”, diz a pesquisadora. 

Mariana Ferraz
Ciência Hoje/RJ
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/142769

20/04/2009

Educação indígena ainda não atende direitos constitucionais

JC e-mail 3745, de 20 de Abril de 2009.

1ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena acontece em setembro

A Constituição de 1988 garantiu aos povos indígenas uma educação escolar diferenciada, que respeitasse a cultura e os saberes tradicionais de cada etnia. Mas 20 anos depois, escolas sem infra-estrutura, materiais didáticos inadequados e a falta de professores especializados ainda são problemas comuns nas escolas indígenas.

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Em setembro, cerca de 600 representantes dessas comunidades e dos governos federal, estaduais e municipais irão se reunir em Brasília para a 1ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena. A idéia é discutir qual é o modelo de educação adequado para esses povos.

“A educação diferenciada significa que eles têm o direito de utilizar a língua materna nas escolas e introduzir no ambiente escolar seus conhecimentos, práticas e saberes. Em termos de legislação, no plano da educação indígena,o Brasil é bastante avançado, o que precisa é sair do plano ideal e ser de fato implementada”, avalia o secretário executivo do Instituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena (Iepé), Luis Donisete Grupioni.

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Para o especialista, as secretarias de Educação ainda têm “enorme resistência” em aceitar calendários diferenciados propostos pelas comunidades. “A legislação garante que se uma comunidade realiza um grande ritual ou há épocas em que boa parte dos seus membros saem para caçar, a escola teria que se adaptar às atividades cotidianas desses grupos”, explica.

Susana Grillo, da coordenação de Educação Indígena do Ministério da Educação, afirma que é preciso garantir a autonomia pedagógica das escolas indígenas. “Envolve a questão da proposta curricular, da organização da escola, da formação do professor e efetivar esse protagonismo das lideranças, pais e mães a formular esse projeto político ainda é um desafio. Porque a tradição da nossa educação é de propor padrões muito homogeneizantes, sem considerar as diversidades ”, defende.

Desde dezembro passado o MEC está realizando conferências regionais que vão orientar o debate nacional em setembro. Cinco encontros já foram realizados e mais 13 estão programados até agosto. Para Grupioni, um dos maiores desafios é conseguir formar membros das comunidades para que eles possam assumir as salas de aula e a gestão das escolas indígenas. A prática do ensino bilíngue, ou seja, no português e na língua de cada etnia, ainda não é uma prática nesses espaços.

“Para isso seriam necessários materiais didáticos para que essa língua apareça e possa ser estuda. Essa produção ainda é muito deficiente. Existe em pequenas quantidades e não atinge o conjunto dos grupos”, aponta.

A infra-estrutura das escolas também é um fator que dificulta a aprendizagem. Segundo o especialista, muitas escolas funcionam de forma improvisada na casa de professores, sem bibliotecas ou equipamentos.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases, a educação indígena deve ser orientada pelo Ministério da Educação e orientada pelas secretarias estaduais e municipais. Para Grupioni, a descontinuidade das políticas que mudam a cada governo dificulta a consolidação do processo. “A cada troca do governo você começa os programas novamente, a rotatividade dos técnicos é muito grande. No Brasil a gente não tem uma cultura de acumular experiência de uma gestão para outra”, diz.

O investimento na formação dos técnicos que serão responsáveis pela aplicação das políticas públicas é fator-chave na opinião de Susana. “Você tem que qualificar os gestores permanentemente para a questão da diversidade no campo da educação”, afirma.

Ela espera que a conferência possa servir como local para apontar os problemas e levantar as soluções. Segundo ela, cerca de 450 lideranças indígenas virão a Brasília para o encontro, além de representantes de instituições responsáveis por executar as políticas públicas.

“Os problemas não são novos e são reincidentes. O desafio da conferência será trazer essas demandas a público e encaminhar soluções. O interessante é que elas estão sendo levantadas lá na base com as pré-conferências. Após a conferência, as demandas levantadas devem seguir de base para que os governos formulem as políticas públicas de educação indígena”, defende Grupioni.
(Amanda Cieglinski, da Agência Brasil).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62961

17/04/2009

Como vivem os índios hoje?

Filed under: Índios,Cultura,Educação — jspimenta @ 23:03

Descubra como é o dia-a-dia dos grupos indígenas no século 21
 

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Em 19 de abril, celebra-se o Dia do Índio. Ótima oportunidade para que você se pergunte: como vivem hoje os primeiros habitantes do Brasil? Muito tempo se passou desde que os portugueses chegaram aqui e conheceram esses povos cheios de tradições. Mais de 500 anos depois, qual é o resultado desse encontro de culturas? Pegue seu cocar e embarque nessa viagem ao mundo indígena moderno!

Por toda a parte…
 
Você, que está acostumado a pensar que os índios vivem na floresta, já os imaginou morando no meio do sertão? Ou na beira da praia? Pois saiba que isso é comum, especialmente na região Nordeste! Apesar disso, a maioria dos 740 mil indígenas encontrados hoje no Brasil habita regiões de floresta, em terras destinadas pelo governo a eles. Muitas dessas terras ficam no estado do Amazonas, mas também existem grupos indígenas nos outros estados da região Norte e na região Centro-Oeste, além do Nordeste e do Sudeste.

Nessas terras, os índios vivem em aldeias, em que geralmente eles mesmos produzem seu próprio alimento. As famílias se ajudam e as crianças são criadas livremente. Até aí, nada diferente dos indígenas que viviam por aqui há 500 anos. Mas saiba que, nesse tempo, muita coisa mudou. “Os índios não poderiam ter vivido em contato com o homem branco por cinco séculos e continuarem exatamente da mesma forma”, explica o antropólogo João Pacheco de Oliveira, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quer um exemplo? “É muito difícil encontrar hoje índios sem roupa em uma aldeia”, conta.

Mistureba!

Os índios atuais absorveram diversas práticas que não pertencem à sua cultura. Muitas crianças indígenas frequentam escolas, mantidas nas aldeias pela Fundação Nacional do Índio, e aprendem o português. Mas isso não quer dizer que os indígenas tenham abandonado suas tradições, como os rituais religiosos e as danças.

“A troca cultural não destrói necessariamente uma cultura”, explica João Pacheco. “É natural que a primeira reação do ser humano ao ver as tradições de outro povo seja a curiosidade e não a hostilidade. Os indígenas têm a possibilidade de praticar as duas culturas, sem se tornarem menos índios por causa disso.”

Quer ver como é possível? Quando alguém fica doente em uma aldeia, a pessoa é tratada ali mesmo. Isso porque os índios têm muitos conhecimentos para utilizar ervas e plantas no tratamento de moléstias. Além disso, existe o pajé, um curandeiro responsável por cuidar dos doentes. Mas, quando o caso é grave e não pode ser resolvido dentro da aldeia, o jeito é levar o doente a um hospital.

Nas cidades

Agora que você já conhece essa mistura cultural, não vai se surpreender tanto ao descobrir que os índios chegaram às grandes cidades. “Em lugares como Manaus e São Paulo, eles têm movimentos organizados”, conta João Pacheco de Oliveira. “Assim, conseguem manter uma vida coletiva de cooperação e promover encontros em que mantém suas atividades rituais.”

Depois de saber de tudo isso, dá para ver que pessoas de diferentes culturas podem conviver em harmonia e aprender uns com os outros. “Conviver com índios seria uma experiência maravilhosa para qualquer criança. Eles têm muito a contar e a ensinar”, garante João Pacheco de Oliveira. De fato, quem aí não gostaria de ter um amigo indígena? 

Tatiane Leal
Ciência Hoje das Crianças
17/04/2009

Disponível em:  http://cienciahoje.uol.com.br/143036

03/04/2009

A floresta, o clima e o lugar do índio

Filed under: Índios,Demarcação de Terras Indígenas,Meio Ambiente — jspimenta @ 22:45

 

Seria preciso relembrar os vários estudos, principalmente do Instituto Socioambiental (ISA), de São Paulo, sobre a importância das áreas indígenas para a conservação da biodiversidade (o Brasil tem de 15% a 20% do total mundial).

Washington Novaes é jornalista especializado em meio ambiente. Artigo publicado em “O Estado de SP”:

A demarcação da reserva indígena Raposa-Serra do Sol em área contínua ainda gera manifestações de desagrado e até de inconformismo, dos dois lados. A própria Fundação Nacional do Índio (Funai) acha que as 19 regras criadas no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para novas demarcações criam dificuldades extremas, e por isso pede esclarecimentos ao Ministério Público (Radiobrás, 30/3).

O presidente da Funai, Márcio Meira, diz que os índios na Amazônia “sempre foram mais avançados que os brancos – ditos civilizados – que ocuparam a Amazônia há apenas 400 anos e passaram a destruir a floresta. Os índios a ocupavam há mais de 13 mil anos e sempre preservaram o meio ambiente” (Correio Braziliense, 8/2).

Do ponto de vista jurídico, a demarcação em área contínua parece inquestionável, principalmente depois do parecer do constitucionalista José Afonso da Silva, citado neste espaço (22/8/2008), lembrando que o “indigenato” (direito dos índios à ocupação de terras onde vivem tradicionalmente) é reconhecido desde as cartas régias do governo português, a primeira delas em 1680, e continuou inscrito em todas as constituições brasileiras, de 1891 até 1988.

Mas agora, com as 19 regras, preveem-se muitas dificuldades para demarcações, a começar pelas áreas dos guaranis-caiuás, em Mato Grosso do Sul – tema sobre o qual o autor destas linhas escreve há mais de 20 anos.

Eles vivem confinados em áreas onde a exiguidade de terra por habitante os impede de viver nos modos tradicionais de suas culturas. Mas também não têm formação que lhes permita viver fora de suas terras, onde acabam fazendo o caminho tradicional, de boias-frias a alcoólatras, mendigos e loucos.

Por isso os índices de desnutrição de crianças ali e as taxas de suicídio de adultos são altíssimos – centenas já se mataram. Umdeles, um jovem de 17 anos, enforcou-se numa árvore no dia seguinte ao do seu casamento. E deixou escrito na areia, sob seus pés: “Eu não tenho lugar.”

Será complicado, de modo geral, principalmente para os povos ainda isolados ou sem reconhecimento de suas áreas. Por isso seria preciso relembrar os vários estudos, principalmente do Instituto Socioambiental (ISA), de São Paulo, sobre a importância das áreas indígenas para a conservação da biodiversidade (o Brasil tem de 15% a 20% do total mundial).

Elas têm-se mostrado mais eficazes que qualquer outro caminho, mesmo o de áreas de preservação reconhecidas em lei, parques, estações biológicas, etc. E a biodiversidade será uma das chaves do futuro na geração de novos medicamentos, novos alimentos, novos materiais que substituam os que se esgotarem ou inviabilizarem (como derivados do petróleo).

Ainda na semana passada, ao participar em São Paulo do evento Brasil e a Cúpula de Londres, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, deixou isso claro ao se referir à temática dessa reunião do G-20: não é possível discutir a crise econômico-financeira global sem tratar, ao mesmo tempo, de mudanças climáticas, florestas (e sua importância para o clima), biodiversidade, recursos hídricos e pobreza.

Se é assim, não se deve esquecer o mais recente relatório – Situação das florestas no mundo 2009 – divulgado há poucos dias pela Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que nesta versão coloca ênfase na questão da demanda por madeira e observa que “há uma forte correlação entre desenvolvimento econômico e situação das florestas”, uma pressão que cresce rapidamente, mas diferenciada por regiões: as que já alcançaram alto nível de desenvolvimento econômico são capazes de estabilizar ou até aumentar suas áreas florestais, enquanto nas outras o aumento da demanda leva à redução dos estoques.

Isso leva à exigência de mecanismos para proteger a biodiversidade, a terra, a água e a capacidade de armazenar carbono. A influência da atual crise na área de florestas dependerá, segundo a FAO, de seus vínculos com cada setor econômico – habitação, por exemplo.

Nos EUA, no início de 2006, o cálculo era de 2,1 milhões de casas novas por ano; em outubro de 2008, menos de 800 mil, com forte queda na demanda por madeira.

E o Brasil será afetado, diz o documento, que se mostra preocupado com uma queda na disposição das sociedades de pagar por serviços ambientais e também com a redução nos mercados de carbono, que levaram à queda de mais de 50% no preço da tonelada comercializada no âmbito da Convenção do Clima.

Também as transferências internacionais para reduzir emissões pelo desmatamento estão-se reduzindo e tendem a cair ainda mais, diz. A queda na demanda por madeira pode beneficiar as florestas, mas também pode levar a um aumento na extração ilegal de madeiras, afirma o relatório.

Como pode levar a um aumento no êxodo, para as regiões de florestas, de pessoas desempregadas pela crise. Já a queda no preço de commodities (soja e carnes) pode reduzir a pressão pela abertura de novas áreas até aqui ocupadas por florestas. De qualquer forma, conclui o documento, “é improvável que a demanda por madeira volte, num futuro previsível, ao pico de 2005-2006”.

Um quadro a ser muito avaliado. Já se tenta criar a ideia de que o Brasil é um país avançado no combate ao clima, com suas “metas” (“voluntárias”, e não compromissos formais) de redução das emissões pelo desmatamento – quando o critério proposto toma por base uma década de forte desmatamento e com isso cria meta que praticamente já foi atingida com a redução nos últimos anos por causa da queda de preços da carne e da soja, que baixou a pressão por novas terras na Amazônia; quando ainda nem se têm ações concretas para reduzir o desmatamento no cerrado (que responde por quase 40% das emissões); e quando nem sequer se ouve uma palavra oficial sobre as emissões de metano na pecuária.

É preciso avaliar tudo com muito cuidado, inclusive o papel dos índios nesse quadro do clima e das florestas.

(O Estado de SP, 3/4)

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/

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