E d u c A ç ã o

10/08/2009

Paradoxos da democracia…

Filed under: Cidadania,Cultura Brasileira,História — jspimenta @ 17:18

ENTREVISTA -JOSÉ MURILO DE CARVALHO, HISTORIADOR

JOSÉ MURILO de Carvalho: “A democracia no Brasil ainda é muito precária” (Foto: Chico Silva)

O historiador José Murilo de Carvalho é um incansável pesquisador sobre a construção da cidadania no Brasil. Nesta entrevista, ele expõe problemas relacionados ao Brasil do oitocentos, os difíceis primeiros anos da República e explica os diversos dilemas da democracia brasileira

A passagem da Monarquia para a República se deu, como sabemos, através de um golpe militar. O jornalista Aristides Lobo, inclusive, cunhou a expressão “bestializados” . Ele referia-se ao povo que nada sabia do golpe. O senhor utilizou a expressão de Aristides para o título de um livro sobre o assunto. Quer dizer, o Brasil simplesmente dormiu monarquista e acordou republicano. ..

Esse é um tema muito complexo. Veja que o Manifesto Republicano é de 1870. Desde então, assistiu-se a uma propaganda aberta a favor da República. Jornais e clubes republicanos, tanto na Corte, quanto em São Paulo e alguns Estados do País – Rio Grande do Sul e Minas Gerais, principalmente – pregavam o fim da Monarquia e o advento do regime republicano. A própria Monarquia, abordei isso no meu livro, estava perdendo rapidamente a legitimidade das camadas letradas do País. Após a Abolição, ela perdeu também a legitimidade entre os proprietários rurais, ex-proprietários de escravos. Além disso, existiram conflitos com a Igreja. Outro problema era relativo à sucessão de Pedro II. As elites intelectuais e econômicas do País não viam com bons olhos um terceiro reinado com a princesa Izabel, uma mulher casada com um francês, o conde D`Eu. Havia um certo caldo de cultura contra o Império. Agora, o que ocorreu em si foi o envolvimento militar. Eles acabaram, por proclamar a República em 15 de novembro de 1889, quando um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de Estado e depôs o D. Pedro II. Muitos republicanos não sabiam do movimento militar. Nem um dos maiores republicanos, Silva Jardim.

Por que D. Pedro II não coibiu o movimento republicano?

Ele deixava correr. Em relação a essas coisas era muito “zen”, como diríamos hoje. Para ele, era um movimento de jovens, sem grande importância. Por outro lado, desde 1877 ele se encontrava doente. Realmente, não estava controlando a situação. Até o último momento não acreditou no que estava ocorrendo. Por causa do golpe, Aristides Lobo cunhou a expressão “Bestializados” . Realmente, as pessoas não sabiam do que se tratava. Agora, não devemos interpretar isso como se a Proclamação da República fosse algo que não tivesse base, nenhuma raiz. Isso seria exagero.

A problemática está numa pergunta: como foi programado o golpe, já que deixou de fora civis e políticos republicanos?

Na verdade, nunca ocorrera algo parecido na história brasileira. Em conseqüência, os primeiros dez anos de República foram de uma permanente perturbação da ordem. Guerras civis, revolta armada no Rio de Janeiro, revolução federalista no Sul, Canudos, na Bahia. Foram anos de grande inconstância. Talvez porque o processo tenha sido feito de uma maneira um tanto estranha, quer dizer, alheia à própria movimentação dos republicanos civis. Muitos deles só queriam a República após a morte de D. Pedro II. Aí, sim, fariam a transformação do regime monárquico para o republicano de uma maneira pacífica, menos radical. Por isso, tanta polêmica em torno do 15 de novembro. Alguns interpretam o 15 de novembro como algo que tenha caído do céu. É preciso analisar todo o contexto. Tínhamos partidos republicanos já organizados.

Para alguns, o grande paradoxo é que D. Pedro II centralizou muito o poder na Corte…

Eu não diria que ele centralizou o poder. Quando assumiu o poder, o processo de centralização tinha sido realizado pelos grupos da elite política, desde 1837, com o chamado regresso conservador. Pedro II só assume realmente o poder a partir dos anos 50 dos oitocentos. Não que ele desejasse, mas de certo modo foi obrigado. Havia um certo vácuo. Na minha interpretação, conservadores e liberais viviam às turras. Foram muitas revoltas envolvendo os dois partidos. D. Pedro II foi uma espécie de juiz entre essas duas facções. Tinha o Poder Moderador, cujo sentido era muito concreto: permitia que essas duas facções assumissem o poder em turnos e uma não excluísse a outra.

A República herdou muita coisa do Império. O sistema patrimonialista brasileiro, por exemplo…

Vamos por etapas: a abolição da escravidão foi uma revolução social. Com a Proclamação da República, não tivemos revolução nenhuma. Foi apenas uma mudança política. Tirou-se do poder um monarca, hereditário, e se colocou um presidente com período marcado para exercer o poder. Os presidentes ficavam apenas quatro anos no poder. Mesmo assim, muita coisa não mudou. Exceto a distribuição do poder entre os Estados. Quer dizer, a grande transformação foi a implantação do federalismo. Criou-se, a partir de Campos Sales, a famosa aliança política entre os Estados e o que muitos chamam da política café com leite. Os principais Estados, como Minas e São Paulo, comandavam o processo político.

E nos demais Estados?

O Sérgio Buarque de Holanda tem uma frase curiosa: o Império dos senhores de terra no Brasil adquiriu maior poder com o fim do Império. Nesta quadra se formaram as oligarquias regionais. Muitas delas condicionavam o comportamento do presidente da República.

Vivenciamos duas fortes ditaduras – a de Vargas (Estado Novo) e a militar a partir de 64. O Brasil começou a desenvolver um processo democrático nos meados dos anos 80 do século passado…

Democracia é algo que nunca se completa. É um caminho que vamos trilhando com idas e vindas, progressos e retrocessos. Se entendermos democracia como um sistema comandado pela lei, com ampla participação popular, mesmo fora dos períodos eleitorais, liberdade de imprensa, é uma coisa… Se analisarmos a democracia de um ponto de vista mais amplo, é outra. Significa não apenas a participação política das pessoas, mas o que chamaria de cidadania e igualdade civil, passando por uma melhor distribuição de renda e acesso à Justiça. Ora, isso não temos no Brasil. Pessoas com recursos escapam facilmente das malhas da justiça. Assistimos a milhões de escândalos nos últimos anos. Pergunto: quem está na cadeia? Ninguém. A desigualdade econômica é terrível. Temos distâncias quilométricas entre o topo e a base da pirâmide. Então, a democracia no Brasil ainda é algo muito precário. Nossas câmaras legislativas estão envolvidas há muito em um rosário de escândalos. Ainda temos que avançar muito no nosso processo democrático.

Numa análise mais macro tudo indica que esse processo tem raízes no passado.

Fomos submetidos a golpes militares. Depois de 1945, vivenciamos uma expansão democrática. Assistimos ao golpe de 64. Foram 21 anos. Depois, a democracia foi restabelecida. O impeachement de Collor foi absolutamente dentro da lei. Até hoje, felizmente, não passamos por novo golpes.

O senhor escreveu uma biografia sobre Pedro II que, logo, transformou- se num best-seller. Por que os historiadores têm tanto medo das biografias?

A biografia é de modo geral algo que interessa muito às pessoas. Os historiadores brasileiros não se aventuram muito a escrever biografias. Olham de uma maneira meio atravessada. Como se o gênero não estivesse à altura deles. Sempre foram os jornalistas que exploraram o gênero biográfico. E com muito sucesso. As pessoas, afinal, gostam de saber da vida dos outros. A Companhia das Letras me encomendou a biografia sobre D. Pedro II. Fiquei com receio, pois não tinha experiência nesse campo. Agora, os jornalistas escrevem bem, com clareza, elegância, atributos que faltam aos historiadores. Parte dos historiadores são muito rigorosos na pesquisa, mais do que os jornalistas. Principalmente, com relação às fontes. Aliás, muitos deles chegam a interpretar e criticar suas fontes de pesquisa. Não colocamos nada em nossos livros sem uma ampla pesquisa e uma documentação precisa. Quando se trabalha assim, o historiador termina por colocar uma multidão de notas de rodapés na páginas. A leitura é muitas vezes cansativa. Atualmente, existe uma maior preocupação dos historiadores com relação à escrita, ao estilo. Isso é que atrai o leitor. Na França e na Inglaterra muitos escritores escrevem biografias com grande êxito. Conscientemente, faço um esforço nessa direção. Discuto muito esse problema com meus alunos e colegas. A história é algo que afeta todo o mundo. E existe também uma grande demanda pela História. Não só no Brasil, mas em todo o mundo. Quando você escreve para uma revista especializada pode até utilizar uma linguagem mais acadêmica. Mas, no suporte livro, você deve escrever de maneira clara e objetiva. Só assim atingirá o grande público.

FIQUE POR DENTRO:
Interpretação sobre o Brasil dos oitocentos.

O historiador José Murilo de Carvalho organizou o livro “Repensando o Brasil do Oitocentos – Cidadania, Política e Liberdade” (Civilização Brasileira, R$ 49,49). O livro resultado de um grupo de estudos formados por historiadores de diversas universidades do País – Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, principalmente. Para José Murilo, a palavra cidadania é termo recorrente em “ambientes diferenciados da discussão pública”, principalmente hoje, quando se consolida o direito do cidadão em suas práticas políticas, civis e sociais. Os direitos políticos teriam se desenvolvido no século XIX, e os civis e sociais no século XX. José Murilo de Carvalho é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

JOSÉ ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3 DIÁRIO DO NORDESTE.

02/08/2009

Os lugares da História

Filed under: Educação,História — jspimenta @ 23:58

“Nós nunca tivemos uma república do consenso. Vários projetos políticos foram alvos de grande disputa. E a sociedade brasileira nunca foi pacífica ou do consenso (Foto: Kiko Silva)

A professora Ângela de Castro Gomes, uma das palestrantes do Simpósio Nacional de História, conversou com o Caderno 3 sobre o papel do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro para a formação do pensamento do País

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, por D. Pedro II, é uma das instituições mais importantes do País em termos da constituição de pensamento – com suas várias vertentes e interpretações – do nosso processo civilizatório. Desde o II Império, o IHGB tem contribuído, dentro de cada período histórico, para o estudo da formação do País. A professora Ângela de Castro Gomes, da Universidade Federal Fluminense, pesquisa os avanços e recuos do IHGB. Para ela, muito mais avanços do que recuos. Ela proferiu a palestra “O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a História nos anos 1920” dentro do Simpósio Nacional de História.

O foco nos anos 20, segundo a professora, serviu apenas como um recorte para o início do debate. Na verdade, ela há tempos se debruça sobre as transformações por que passou o IHGB ao longo do século XX. Nos anos 20 do século passado, o IHGB passava por transformações importantes. A professora lembra que antes o Instituto estava relacionado a um projeto político centralizador – “Era uma instituição muito ligada ao Império”, lembra. A monarquia tinha um vínculo direto com o IHGB e com a Igreja Católica. Panorama que mudou com o advento da República, ainda nos anos 90 dos mil e oitocentos.

– O Instituto Histórico e Geógrafico Brasileiro estabeleceu o debate sobre um Estado laico federativo e passou por uma ebulição muito grande, mesmo com alguns sócios defendendo projetos de restauração da monarquia. Mas o que mais me interessa é exatamente como o IHGB sai desse momento e vai se tornando uma instituição ligada a um projeto de construção do Estado nacional. Dessa vez, republicano.

A professora ressalta que o Instituto se lançou à tarefa de pensar a história e a historiografia.

– Muitos debates se desenvolveram dentro da instituição sobre a questão da história. Qual é o papel do historiador? De que forma deve se escrever a história? A história é uma ciência? É uma escrita cujo passado é reconstruído pelos historiadores? O IHGB que discuto é o da República. Nos anos 20, começava-se a debater na instituição questões sobre a identidade brasileira focadas em diálogos com outras disciplinas. Diálogos travados com outros saberes, principalmente com a sociologia. O recorte dos anos 20 se deve menos a questões externas à instituição e mais aos debates que se deram de forma das mais ricas dentro do IHGB.

O IHGB teria influência dos positivistas ou da escola francesa dos Annales? A professora Ângela assinala que a escola dos Annales (movimento que surgiu em torno do periódico acadêmico francês Revue des Annales, tendo destacado-se por incorporar métodos das Ciências Sociais à História) ainda estava se constituindo. A influência maior era da escola metódica francesa. “Os Annales vão demorar um pouco. Não comungo com a tese que as coisas chegam atrasadas no Brasil. Essa idéia não é correta. O movimento da Escola dos Annales só se concretiza no final dos anos 20. Estamos falando de um período pré-Annales”.

Ela recorda que naquela quadra histórica o grande evento foi o Centenário da Independência. Na época, foram levantadas várias questões pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Principalmente problemas relacionados à nossa identidade, à questão da independência e, principalmente, ao Brasil republicano. Foi um grande evento – não só promovido pelo Instituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro, mas sim de todo o País.

Ontem e hoje

Para a professora Ângela de Castro Gomes, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro é um dos mais importantes centros de pesquisas e debates sobre a historiografia, não somente no Rio de Janeiro, mas em todo o País. Lembra que houve um certo obscurecimento da instituição nos anos 50 e 60. Mas desde então, quando os cursos não apenas de História, mas de Sociologia e Antropologia começaram a demandar muitas questões científicas, o Instituto voltou ao primeiro plano.

– Hoje o IHGB tem realizado um trabalho sistemático, em vários Estados, atraindo historiadores e profissionais de outros áreas afins para seus quadros. Vejo hoje as universidades e os institutos de todo o País dialogando muito mais do que já fizeram em períodos anteriores. O IHGB é um espaço, também, de criação do conhecimento, do debate. Quanto mais nós tivermos instituições legítimas, lugares para produzir conhecimento, isso só trará benefícios para a sociedade.

Conservador?

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro sempre foi visto, pelo menos fora da academia, como uma órgão conservador. Para a professora, um erro de percepção. Muitos estudos e pesquisas estão sendo ali produzidos, inclusive com temas muito atuais. Ângela de Castro Gomes, por exemplo, está pesquisando um outro tema muito recorrente entre os brasileiros: a noção de que a sociedade brasileira estaria ligada a um determinado consenso entre as elites – políticas e econômicas, principalmente. Uma espécie de ´república do consenso´.

– “Nós nunca tivemos uma república do consenso. Sempre estivemos envolvidos em disputas, competições entre as elites políticas, econômicas e sociais. Vários projetos políticos foram alvos de grande disputa. E a sociedade brasileira nunca foi pacífica ou do consenso.

Essa imagem, segundo a professora, de que a sociedade brasileira é muito apática, incapaz de ações mais contundentes, foi construída através de uma versão autoritária – defendida até por historiadores. “Alguns historiadores são caudatórios dessas grandes matrizes interpretativas que vêem a sociedade brasileira como incapaz de organização, de ação, de demanda. Não compartilho com essa matriz. Mesmo com Getúlio, houve uma série de direitos adquiridos em consequência a movimentos sociais -como o voto feminino e os direitos trabalhistas.

Já quanto aos momentos de maior repressão, tanto no Estado Novo quanto na Ditadura Militar, Ângela explica que o fato não deve ser entendido como capitulação da sociedade civil. Pelo contrário: tanto no Estado Novo quanto na ditadura militar assistiu-se à mobilização e a ações da sociedade mais organizada contra o arbítrio.

– Isso não deve ser entendido como se você tivesse zerado as possibilidades de as pessoas pensarem, se organizarem e até resistirem. Acontece que as formas de organização e de resistência mudam nesse período. Muitas vezes são muito sutis. Durante o Estado Novo você teve resistência de muitos intelectuais. O mesmo ocorrendo na ditadura militar.

E os partidos políticos? Eles realmente estariam fora desse “consenso” defendido por uma vertente do pensamento autoritário brasileiro? A professora Ângela de Castro Gomes pensa o contrário. Ressalta que partidos como PTB, UDN e PSD foram bastante fortes na cena brasíleira do passado.

– Logicamente que, durante a ditadura militar, com o bipartidarismo – Arena e MDB -, houve perda de espaço com relação aos partidos políticos. Mas esse espaço está sendo reconquistado desde a volta da democracia. Mesmo com todas as denúncias de corrupção, o Congresso Nacional deve ser fortalecido. Acho que isso ainda é um processo. Prova também que a sociedade brasileira está organizada diante de atos aéticos por parte de determinados políticos. Mas as instituições são importantes para a consolidação do processo democrático. E isso está se dando também com forte participação da imprensa e da sociedade do País. Então, nunca existiu nem existirá esse pacto da mediocridade, esse consenso de que a sociedade brasileira sempre agiu de forma pacífica diante dos inúmeros problemas enfrentados pelo País”.

FIQUE POR DENTRO

CIDADANIA E MEMÓRIA SOCIAL

A professora doutora Ângela de Castro Gomes é titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora sênior do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. Possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (1969), mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1978) e doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1987). Atua principalmente nos seguintes temas: história política do Brasil República, pensamento social brasileiro, cidadania e direitos do trabalho, memória social e ensino de história.

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor do Caderno 3.

23/05/2009

Diário de Fernando

Filed under: Diário,Ditadura,História — jspimenta @ 14:13

Nos cárceres da ditadura militar brasileira – Frei Betto

sexta, 22 maio 2009
Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público: trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos (1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentes cadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algo inusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado a conviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.

Assim como o “Diário de Anne Frank” nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obras publicadas sobre o período.

Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.
O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniu neste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.

Nos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagens que são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Caio Prado Jr., Apolônio de Carvalho, Paulo Vannuchi, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.
Para quem se interessa em conhecer a verdadeira face do regime militar e o Brasil dos “anos de chumbo”, Diário de Fernando é um testemunho vivo, comovente, de uma de suas vítimas. Não se trata de investigação jornalística, nem resulta da pesquisa de historiador, mas sim de um sincero, emocionante e visceral relato de quem teve a ousadia de registrar, dia a dia, as entranhas de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil.

Está tudo ali: as torturas, os desaparecimentos, o sequestro de diplomatas, as guerrilhas urbana e rural, a greve de fome de quase 40 dias, e também a convivência dos prisioneiros marcada por momentos de inusitada beleza: as festas de Natal, as noites de cantoria, a solidariedade inquebrantável entre eles.

Diário de Fernando traduz a saga de uma geração que não se dobrou à ditadura e a qual o Brasil deve, hoje, a sua redemocratizaçã o. Eis uma obra que enaltece a dignidade humana, a capacidade de resistência frente à opressão e a vivencia da fé cristã como nas antigas catacumbas do Império Romano.

Lançamentos:

Em Belo Horizonte: 17 de junho, quarta, no auditório da CEMIG – Av. Barbacena 1.200. A partir de 19h30.

Em São Paulo: 18 de junho, quinta, no SESC Vila Mariana – Rua Pelotas, 141. A partir de 19h30.

01/04/2009

Quarenta e cinco anos do Golpe de 1964

Filed under: Golpe Militar,História — jspimenta @ 17:00

 

Há algum tempo, corrigi um colega que então se referia à “comemoração” dos quarenta anos do Golpe de 1964. Observei que se tratava de “rememorar”, não de “comemorar”; ao que o historiador redargüiu-me o contrário, reafirmando seu entendimento inicial. Dias depois, dei-me conta de que ambos estávamos certos, já que a adequação ou inadequação dos termos varia conforme a perspectiva político-ideológica de seu enunciador e, no caso específico de 1964, de acordo com o entendimento que se tem daquele evento.

Digo isso porque, como se sabe, há uma importante diferença de sentido entre os dois termos, assinalada inclusive em alguns dicionários de língua portuguesa. Embora ambas as palavras se refiram ao ato de relembrar e fazer relembrar, “comemorar” carrega consigo um sentido adicional de celebração. Celebrar é tornar célebre, ou seja, fazer ser amplamente conhecido e reconhecido. É também exaltar, louvar, festejar algo ou alguém.

Assim, importa rememorar que, há quarenta e cinco anos atrás, neste país, o Presidente da República, João Goulart, foi deposto através de um golpe de Estado, promovido por setores militares e civis da sociedade. Oriundos principalmente da classe dominante, instauraram no Brasil um regime ditatorial que vigorou por vinte e um anos. Naquela época, para quem ousava discordar, as punições eram variadas: perseguição, cassação, expurgo, tortura física e psicológica, prisão, assassinato, “desaparecimento”, dentre outras medidas legais e ilegais. Ultimamente, há quem diga que, apesar disso, a “ditadura à brasileira” não foi tão ruim assim. Eu discordo.

É importante rememorar tais fatos porque, em tempos em que o Velho se traveste de Novo (“nova política”, “novo jeito de governar”) com o objetivo de se perpetuar no poder, os mecanismos de promoção do esquecimento se tornam cada vez mais velados e, por isso, mais eficazes. A opção entre “comemorar” ou “rememorar” os quarenta e cinco anos do Golpe de 1964 é mais do que simples questão de nomenclatura. Independentemente do termo escolhido, trata-se de, no presente, abandonarmos a ilusão da imparcialidade para, compreendendo e assumindo uma posição clara em relação a nosso passado, encararmos o futuro de frente. 

Jaime Valim Mansan*
* Professor de História e historiador.

31/03/2009

O último navio negreiro

Filed under: História — jspimenta @ 0:09

 

 

Destroços do brigue americano Camargo, que trouxe 500 escravos, são localizados em Angra

Roberta Jansen escreve para “O Globo”:

No fundo do mar de Angra dos Reis repousa um dos mais importantes — e incômodos — tesouros arqueológicos do país: os destroços do brigue americano Camargo, o último navio negreiro a desembarcar escravos em solo brasileiro. Ele trouxe 500 africanos para o trabalho forçado.

O ano era 1852 e o tráfico já estava proibido. Por isso, para não deixar provas da operação criminosa, o capitão do navio ateou fogo à embarcação, que foi a pique.

Agora, um grupo de pesquisadores acredita ter localizado a área do naufrágio na localidade de Porto Bracuí e espera por um novo financiamento para voltar a mergulhar e escavar em busca desse triste passado, como revela reportagem de Carlos Haag publicada na última edição da revista “Pesquisa Fapesp”, da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, que financiou a parte inicial da busca. Resgatar os destroços de um navio negreiro é importante porque se sabe pouco sobre essas embarcações, das quais há poucos esboços esquemáticos.

— Fala-se muito mas a verdade é que ninguém sabe ao certo como era um navio negreiro — afirmou o historiador Gilson Rambelli, coordenador do projeto “Arqueologia subaquática de um navio negreiro. A história que não está nos livros”, da Unicamp.

— Sobretudo porque diferentes barcos trabalhavam nesse que era o pior comércio possível, o comércio de seres humanos. Mas a história se cala, não quer ir a fundo nessa questão.

Na baía de Angra dos Reis, onde há vários navios afundados, é relativamente comum que mergulhadores conheçam as áreas onde há remanescentes e façam, inclusive, mergulhos recreativos nos locais.

Curiosamente, no entanto, um dos mais importantes de todos eles, o do último navio negreiro a aportar no país, era pouco conhecido. Havia apenas um relato, do mergulhador local José Galindo, indicando sua possível localização.

Pedaços de madeira semi-enterrados parecem confirmar o local onde o navio teria desaparecido com o passar dos anos, tragado pelos sedimentos do fundo marinho. Os vestígios foram encontrados num mergulho feito pelo grupo de Rambelli.

— Não tínhamos como fazer a escavação, tivemos que parar — contou o historiador. — Mas foi bem interessante constatar que, dentre a enorme variedade de navios afundados, visitados sempre por mergulhadores, esse ficou esquecido justamente porque envolvia a temática do navio negreiro. É como se, num acordo tácito, todos dissessem, ‘vamos deixar isso quieto, não vamos mexer nessa história, deixa cair no esquecimento’.

Escravo custava US$ 40 na África

De fato, não é agradável imaginar que, há menos de 200 anos, era considerado normal arrancar pessoas de sua terra natal, amontoá-las em navios sem nenhuma condição de higiene e desembarcá-las como escravas do outro lado do mundo.

O tráfico de escravos era um negócio tão lucrativo (um homem comprado na África por US$ 40 podia ser vendido no Brasil por US$ 400 e até por US$ 1.200, em valores atuais) que, na lógica mercantilista cruel, a perda de alguns homens durante a viagem não fazia diferença. Por isso, as condições do transporte eram as mais insalubres (e baratas) possíveis.

Tão lucrativo era o tráfico que valia mesmo a pena afundar um navio para não deixar provas do crime, como aconteceu com o Camargo. O boato de que um brigue americano havia desembarcado escravos africanos no porto de Bracui em dezembro de 1852 correu rapidamente, chegando aos ouvidos do imperador.

Uma investigação foi aberta e um contingente de 400 policiais chegou a ser enviado a Angra dos Reis.

Para eliminar as provas de seu crime, o capitão do navio, Nathaniel Gordon, não teve dúvidas: pôs fogo na embarcação e, em seguida, fugiu para os Estados Unidos vestido de mulher para despistar as autoridades.

Mas Gordon não foi tão hábil em escapar da Justiça americana. Em 21 de fevereiro de 1862 ele foi enforcado nos EUA, tornando-se o único cidadão daquele país a ser condenado à morte por participação no tráfico negreiro.

Na outra ponta da história, recebendo os escravos trazidos por Gordon, estaria um dos mais cruéis senhores de terra e donos de escravos no Brasil, o comendador Joaquim José de Souza Breves, também conhecido como “o rei do café” dada a sua produção recorde.

Comprador foi inocentado

Breves não acreditava na extinção do tráfico nem na abolição e continuou comprando escravos mesmo após a promulgação da Lei Eusébio de Queiróz, em 1850. Em janeiro de 1852 foi confirmado o desembarque ilegal de africanos em terras pertencentes a sua família — justamente os escravos trazidos pelo Camargo. Um processo chegou a ser aberto, mas Breves foi inocentado.

Para recuperar a história, Rambelli espera agora um novo financiamento para dar continuidade às buscas.

— Precisamos agora usar equipamento geofísico para localizar a estrutura principal, que está totalmente enterrada, coberta de sedimentos.

Um Brasil submerso e desconhecido

Uma parte considerável da história do Brasil está submersa e não é estudada regularmente, lamenta o historiador Gilson Rambelli, coordenador do projeto “Arqueologia subaquática de um navio negreiro”, da Unicamp, que busca resgatar os destroços do brigue americano Camargo.

A arqueologia subaquática é ainda pouquíssimo explorada em comparação à terrestre. Isso se deve, em parte, ao fato de as leis para exploração subaquática serem mais pautadas pelas atividades de caça ao tesouro do que de estudos, o que cria uma série de dificuldades para os arqueólogos.

Foi essa realidade que fez com que Rambelli acabasse escolhendo o Camargo para sua pesquisa.

— Queria um tema que servisse de exemplo de grande importância histórica, que não abrisse espaço para especulações de que estávamos procurando tesouro — afirmou o historiador. — Acho que deveríamos estudar os sítios arqueológicos submersos com a mesma seriedade com a qual se estuda os sítios da superfície. Não tem cabimento termos uma lei para sítio terrestre e outra para os submersos.

Atualmente na Universidade Federal da Bahia, Rambelli prepara um audacioso inventário sobre o patrimônio subaquático da Baía de Todos os Santos, onde se acredita haja mais de 150 naufrágios.

— O Brasil não conhece o Brasil, sobretudo debaixo da água — disse.
(O Globo, 15/3)

 

 

JC e-mail 3722, de 17 de Março de 2009.

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62276

27/03/2009

Pesquisa faz mapeamento dos quilombolas no país

Filed under: Cultura,Educação,Estudos Culturais,História,Quilombolas — jspimenta @ 0:42

 

Mais de 2.300 quilombos contemporâneos já fazem parte do mais recente cadastro dos territórios étnicos, mas apenas 5% possuem registro no Incra

Pesquisadores estão fazendo a mais completa caracterização geográfica e cartográfica das comunidades quilombolas do Brasil para conhecer as situações no território de cada uma delas e levantar subsídios que possam acelerar o processo de reconhecimento, demarcação e titulação. Um desses estudos está sendo coordenado pelo geógrafo Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, da Universidade de Brasília (UnB), com o apoio do CNPq/MCT.

Segundo o pesquisador, é necessário realizar um grande censo nacional para que todas as comunidades quilombolas tenham seu perfil social, econômico e territorial devidamente configurado, pois o desconhecimento das matrizes africanas e da própria geografia africana no Brasil torna a população mais susceptível ao preconceito racial, gerando uma visão estereotipada do afrobrasileiro, que é visto muito mais como um coadjuvante do que protagonista da formação do povo brasileiro.

Ainda de acordo com o pesquisador, a terra e a territorialidade assumem grandeimportância no contexto da temática da pluralidade cultural brasileira. “Tratar a diversidade cultural do Brasil, num contexto geográfico e cartográfico, é ter uma atuação sobre um dos mecanismos estruturais da exclusão social e reconhecer a cultura africana na formação do povo brasileiro, para valorizar e superar a discriminação existente em nosso país”, afirma o geógrafo Rafael Sanzio.

Localização

Mais de 2.300 quilombos contemporâneos já fazem parte do mais recente cadastro dos territórios étnicos, mas apenas 5% possuem registro junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Por não estarem devidamente registrados, os quilombos são territórios de risco que, se não forem legalizados pelo sistema oficial, correm o risco de desaparecerem ou se descaracterizarem rapidamente”, diz o geógrafo.

O estudo apontou que as maiores ocorrências de quilombolas estão nos estados do Nordeste e do Norte do país. O Nordeste apresenta 60% dos registros, com os quilombolas concentrados na Bahia e no Maranhão. Já a Região Norte detém 25% das comunidades Quilombolas do Brasil, localizados no Pará.

O levantamento cartográfico das comunidades quilombolas é uma das ações do Projeto Geografia Afrobrasileira, desenvolvido pelo Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica da UnB (CIGA). A pesquisa pretende contribuir para o conhecimento, a preservação e proteção dos territórios quilombolas, para a ampliação da visibilidade da população de matriz africana. “Com este trabalho, buscamos fortalecer a identidade da África junto à sociedade civil, nas ações consequentes junto ao setor decisório e na inserção do continente africano na educação brasileira”, afirma Rafael Sanzio.

Divulgação

O resultado do trabalho tem sido divulgado por meio de oficinas, exposições e livros. A pesquisa já resultou numa primeira exposição cartográfica itinerante – Territórios das Comunidades Remanescentes de Antigos Quilombos no Brasil -, e uma segunda versão – África, o Brasil e os Territórios dos quilombos-, que está sendo apresentada em todo o país , depois de percorrer França e Bélgica. “A meta é levar este conhecimento aos professores, líderes comunitários e representantes de entidades afrobrasileiras, pois este conhecimento fica muitas vezes restrito aos laboratórios de pesquisa”, declara o professor.

O projeto também gerou bibliografia própria. O livro Quilombos: Geografia Africana-Cartografia Étnica-Territórios Tradicionais, a mais recente obra do pesquisador, sintetiza as pesquisas realizadas no Brasil, Portugal, França e no Congo, e será lançado no dia Internacional contra a Discriminação Racial, 21 de março. Além disso, para o segundo semestre deste ano está prevista a publicação do Atlas Geográfico África Brasil.
(Informações da Assessoria de Comunicação do CNPq)

 

JC e-mail 3729, de 26 de Março de 2009.

 

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62481

21/03/2009

O Jornalismo como Fonte da História

Filed under: Educação,História,Jornalismo — jspimenta @ 23:21

 

Tania Regina de Luca: “O jornal impresso tem que buscar sua vocação original como quarto poder. Caso contrário, perderá cada vez mais leitores”.

A historiadora Tania Regina de Luca tem um olhar dos mais críticos sobre a imprensa contemporânea. Ela é uma das convidadas do simpósio “200 Anos da Imprensa no Nordeste”.

Autora do livro “História da Imprensa no Brasil”, juntamente com Ana Luiza Martins, Tania Regina de Luca sempre pesquisa o passado, mas com um olhar atento ao presente. Aliás, o passado é a argamassa que utiliza para a construção de sua obra. Mas sua grande preocupação é com o presente. Preocupação focada, principalmente, no atual momento da imprensa brasileira. “Um jornalismo fácil, de serviço, rápido e fragmentado, onde predomina a sociedade do espetáculo e do entretenimento em detrimento de um jornalismo mais sério como o do nosso passado”, compara. Saudosista, não. Preocupada, sim.

Mas, para analisar o hoje e lançar luzes para o futuro, é necessário, segundo Tania, uma mirada meticulosa no passado. Cita o livro de Nelson Werneck Sodré – “História da Imprensa no Brasil” como um clássico. Uma obra que continuará como um clássico e ponto final.

– O livro do Werneck Sodré foi resultado de 30 anos de trabalho. Ele, também, foi um homem de imprensa. Basta você ler seu livro “Memórias de um Escritor” para perceber a grande importância de Sodré como pensador. Não somente como pensador, mas também do ponto-de-vista de sua militância política, suas posições de esquerda. Seu livro é um cânone, uma grande referência. Foi escrito em 1976 e, até mesmo um pouquinho antes de morrer, Werneck fez um posfácio sobre a imprensa naqueles anos de chumbo. Agora, dos anos 70 para cá, houve um processo de desenvolvimento da pesquisa histórica no País. Os programas de graduação e pós-graduação e os estudos de história se sofisticaram e lançaram novas interpretações sobre o processo histórico da imprensa brasileira.

Segundo Tania Regina, os estudos sobre a imprensa brasileira são muitos e específicos. Hoje existem pesquisas sobre recortes, focos em determinados contextos, realizados por inúmeros pesquisadores espalhados pelo país. “Ora, se você quer estudar sobre a imagem da mulher na imprensa do início do Século XX ou a imprensa e o movimento operário ou ainda sobre a história da literatura através dos jornais você já conta com uma variedade de pesquisas, muitas delas lançadas em livro”, diz. Aliás, este foi o objetivo de “História da Imprensa no Brasil”, uma obra que vem suprir uma lacuna neste campo diante do olhar de vários especialistas sobre o singular e rico processo histórico da imprensa brasileira. Dividida em três partes, o livro organizado por Tania Regina foca os primórdios da imprensa no Brasil, passando pelos tempos eufóricos da imprensa Republicana, analisa os anos 50 do século passado, principalmente as batalhas travadas por Chateaubriand (Diários Associados), Samuel Wainer (Última Hora) e Carlos Lacerda (Tribuna da Imprensa), e termina nos dias de hoje – a era das revistas de consumo, revolução tecnológica, reviravolta política e a globalização da mídia. São diversos os autores, diversos os olhares.

“‘História da imprensa no Brasil’ valendo-se dos estudos pontuais de especialistas que refletem sobre o singular e rico fazer histórico da imprensa brasileira nos dá nexos das partes constitutivas desse longo processo, por meio de abordagens inovadoras, que desvendam acervos, desmontam visões consagradas e põem em discussão afirmações viciadas com metodologias contemporâneas, realizando levantamento exaustivos, dominando diversas fontes, vivenciando o fazer da imprensa no interior das próprias redações”, escreve na introdução da obra.

Pluralidade

Ela defende que o livro mostra uma pluralidade e uma variedade de interpretações. Por isso, várias estudiosos abordam os muitos aspectos do processo histórico da imprensa brasileira. Não apenas historiadores, mas também jornalistas e sociólogos. Longe do ranço oficial, o livro desvenda uma nova história. O importante, afinal, não é discutir qual foi o primeiro jornal brasileiro. Para alguns, o “Correio Braziliense” ou “Armazém Literário”, de Hipólito da Costa; para outros, a “Gazeta do Rio de Janeiro”. “O importante – disse – é analisar como estes jornais pautaram nossos debates políticos, coisa que a imprensa de hoje não faz”.

Segundo Reinado

O Segundo Reinado pode ser compreendido melhor através dos jornais da época, segundo Tania. Das páginas do “Correio Paulistano” ou da “Província de São Paulo”, do “Jornal da Família”, “Ilustração Brasileira”, ” Semana Ilustrada”, enfim, de várias publicações, é possível reconstituir o contexto econômico, político e social do período de D. Pedro II e seus muitos gabinetes, sejam conservadores ou liberais. A professora Tania ainda cita a obra de Machado de Assis como uma importante fonte para os historiadores. “Os críticos só davam valor aos romances de Machado, mas suas crônicas nos fornece uma rica e importante reprodução do II Império”, diz.

– Eu tenho certeza que estes jornais são fundamentais para entendermos os processos da época – a formação do Brasil – conceitos como liberdade em tempo de escravidão, por exemplo. As revoltas nativistas. O fim do Segundo Império e a instalação da República. Qual o futuro que aqueles homens e jornais imaginavam para o Brasil? Bem há pouco tínhamos uma visão oficial. Visão oficial quebrada pelo grande livro de Nelson Werneck Sodré, principalmente. Através da fala dos derrotados, dos que perderam, poderemos reconstituir melhor este mosaico histórico.

Da imprensa doutrinária com forte influência francesa do Século XIX e início do Século passado, passando pela revolução dos anos 50 aos dias de hoje muita coisa mudou. Tania Regina de Luca é uma crítica fervorosa da imprensa em tempos de globalização. “Antigamente você assinava um jornal em função da sua posição política. Se era comunista, você o comprava por concordar com as teses comunistas; se você era varguista comprava o ‘Ultima Hora’, do Samuel Wainer; se udenista a ‘Tribuna da Imprensa’, do Carlos Lacerda. Eram jornais vivos, fortes, com repórteres que dominavam a arte de narrar. O Cláudio Abramo já dizia que jornal não pode ser neutro. Tem, sim, que tomar posição. O que me decepciona hoje é esse tal de jornalismo informativo, de serviços, de celebridades e espetáculo. Jornais que enganam o leitor, mas do que informam. Não contextualizam, nem opinam ou interpretam. Não acredito nesse jornalismo. No mito da neutralidade, da objetividade. Veja, todos os jornais hoje são parecidos, inócuos, frágeis em todos os aspectos. Isso do ponto de vista do conteúdo”.

O quarto poder

A professora Tania Regina acredita, ainda, que os jornais podem voltar, diante da crise que enfrentam, a cumprir um papel realmente de quarto poder, há muito esquecido. Muitos deles, estão perdendo até para a Internet, principalmente para os “blogs”. Na crise do mensalão, segundo ela, os jornais tiveram um papel coadjuvante. Os blogs foram mais importantes que os jornais impressos. O mesmo ocorreu com o processo de impeachement de Collor de Melo. Quando as revistas semanais tomaram à frente dos jornais diários. A concentração de jornais é um outro problema. “O jornal impresso tem realmente que buscar sua vocação original como quarto poder. Caso contrário, perderá cada vez mais leitores”, diz. Ela, no entanto, é otimista e acha que o jornal não vai desaparecer, mas terá que passar por profundas reformas para superar as dificuldades atuais.

Mais uma vez, segundo ela, a sociedade civil tem um forte papel a cumprir nesta quadra histórica do jornalismo brasileiro. “A informação que nos vendem está poluída, assim como os rios, os alimentos. Então, é preciso despoluir nossos jornais. Quando a sociedade se recusar a comprar determinada publicação poluída, logicamente haverá mudanças”, acredita.

Para a professora Tania Regina se não acreditarmos na força da sociedade civil, organizada, para reverter essa situação, aí, sim os jornais poderão desaparecer. Fato que ela acha pouco provável. Acredita na utopia, nas lições da história. “Nem eu, nem você podemos ser levados pela corrente do individualismo. Temos que ser tocados pelo mosquito da inquietude, do inconformismo. Que um rio de utopia caia sobre nós”. Cita o “Observatório da Imprensa”, de Albert Dines como um exemplo a ser seguido. Segundo ela, ainda um pingo no oceano. “Cabe a nós transformamos esse pingo numa grande corrente”, afirma a pesquisadora.

Tania Regina de Luca é doutora em História Social e professora dos cursos de graduação e pós-graduação da Unesp e pesquisadora do CNPq. Escreveu “Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação”. Também publicou “Imprensa e Cidade” e “História da cidania e Fontes Históricas”.

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor

16/03/2009

Assim não é, ainda que pareça!

Filed under: Cultura,Educação,História — jspimenta @ 23:45

Eduardo Galeano

Quando foram expulsos do paraíso, Adão e Eva se mudaram para a África, não para Paris. Algum tempo depois, quando seus filhos já tinham começado a correr o mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas. Também a álgebra foi inventada no Iraque. Por Mohamed al-Jwarizm, há quase 1.200 anos, e as palavras algoritmo e algarismo são derivadas de seu nome.

Os nomes só não coincidem com o que nomeiam. Peguemos um exemplo por acaso: no British Museum, as esculturas do Partenon se chamam Mármores de Elgin, mas são mármores de Fidias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu – a bússola, a pólvora e a imprensa – tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo que a Europa reinventou.

Antes de qualquer um, os hindus sabiam que a terra é redonda e os maias tinham criado o calendário mais exato de todos os tempos.

Em 1493, o Vaticano deu de presente a América para a Espanha e obsequiou a África negra para Portugal, “para que as nações bárbaras sejam convertidas à fé católica”. Na época, a América tinha 15 vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra 100 vezes mais que Portugal.

Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas (transformadas em reduções). E muito.

Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade, pedra por pedra, e com os escombros tapou os canais por onde navegavam 200 mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán se chama México D.F. Por onde corria a água correm os automóveis.

O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia. A avenida mais larga do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charrúas.

John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos. Enquanto nascia o século XVIII, o primeiro dos Bourbons, Felipe V, estreou em seu trono firmando um contrato com seu primo, o rei da França, para que a Companhia de Guiné vendesse negros na América. Cada monarca levava 25% de lucro.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade. Dois dos pais fundadores dos Estados Unidos desvaneceram na névoa da história oficial. Ninguém se lembra de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou seus atos. Carter foi o único prócer da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da constituição, se opôs à clausula que estabelecia que um escravo equivalia a três quintos de uma pessoa.

“O nascimento de uma nação”, a primeira superprodução de Hollywood, estreou em 1915, na Casa Branca. O presidente Woodrow Wilson aplaudiu de pé. Ele era o autor dos textos da película, um hino racista de louvor à Ku Klux Klan.

Desde o ano de 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. Suas vozes eram impuras, por causa de Eva e do pecado original. No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, chamados de “vis ofícios”, que até então implicavam a perda da fidalguia. Até o ano de 1968 o castigo com correias, varas e porretes para as crianças, nas escolas da Inglaterra, era legal.

Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, a Revolução Francesa proclamou, em 1793, a Declaração dos Direito do Homem e do Cidadão. Então, a militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou sua cabeça. Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.

A imperatriz Cristina Teodora nunca disse ser revolucionária nem coisa parecida. Entretanto, por 1.500 anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio eram direitos da mulheres.

O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do norte industrial contra o sul escravagista, foi rapidamente presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, afirmou: “Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo que nos pode oferecer, também adotaremos a liberdade de comércio”. Assim, no ano de 2075 a nação mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.

Lootie Botincito foi o primeiro pequinês que chegou à Europa. Viajou a Londres em 1860. Os ingleses o batizaram com esse nome porque era parte do butim arrancado da China, ao fim das duas longas guerras do ópio. Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a canhoadas. A China foi convertida em uma nação de drogados em nome da liberdade, da liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, da liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, esse pais, o único país da América Latina que não devia um centavo a ninguém, inaugurou sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização a Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que haviam tido assassinando-o.

O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde de que, em 1804, conquistou sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado de sua liberdade.

As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte da Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim é até agora. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos de suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo. Na época, Mark Twain, dirigente da Liga Antiimperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas, e outro escritor, Ambrose Bierce, comprovou: “A guerra é o caminho que Deus escolheu para nos ensinar geografia”.

Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento e os alemães o desenvolveram. Depois Hermann Göring aplicou, na Alemanha, o modelo que seu papai lhe havia ensinado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele haviam estudado o campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negros.

O Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, país natal do führer. O Comitê Olímpico anulou a partida. Não faltaram amigos a Hitler. A Fundação Rockefeller financiou pesquisas raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.

Em 1953 explodiu o protesto da classe trabalhadora na Alemanha socialista. Os trabalhadores se lançaram às ruas e os tanques soviéticos se ocuparam de calar suas bocas. Então Bertolt Brecht propôs: “Não seria mais fácil o governo dissolver o povo e eleger outro?”.

Operações de marketing. A opinião pública é o cartão. As guerras se vendem mentindo, como se vendem os carros. Em 1965, os Estados Unidos invadiram o Vietnã porque o Vietnã havia atacado dois navios dos Estados Unidos no golfo de Tonkin. Quando a guerra havia massacrado uma multidão de vietnamitas, o ministro da defesa Robert McNamara reconheceu que o ataque de Tonkin não havia acontecido.

Quarenta anos depois, a história se repetiu no Iraque. Milhares de anos antes que a invasão estadunidense levasse a civilização para o Iraque, nessa terra bárbara havia nascido o primeiro poema de amor da história universal. Em língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa com um pastor. Inanna, a deusa, amou essa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana. O livro de viagens de Marco Pólo, Aventura de liberdade foi escrito em um cárcere de Genova. Don Quixote de La Mancha, outra aventura da liberdade, nasceu no cárcere de Sevilha.

Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas. Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, tinha não mais que dois dedos em sua mão esquerda. Não tinha mãos Grimod de la Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com ganchos escrevia, cozinhava e comia.

Enviado de Berlim por Hugo Moreno Peralta, diretor de Cesal Ev Berlin, Alemanha.

Versão em espanhol no blog Nuevas Páginas Libres: http://nuevaspaginaslibres.blogspot.com/2008/03/clase-magistral-de-eduardo-galeano.html

Publicado em 25 de novembro de 2008

12/03/2009

Textos Complementares – Estudos Culturais I

Filed under: Cultura,Educação,Estudos Culturais,História — jspimenta @ 0:47

As Crianças que Cresceram entre Feras

09/03/2009

Dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher I

Filed under: Cultura,Educação,História — jspimenta @ 6:31

A ´sinhazinha´ continua viva dentro da mulher brasileira

Mary Del Priore afirma que é preciso pensar na complementaridade entre os sexos: ´Não queremos ser homens de saias´

A história das mulheres não é um caminho progressivo, mas uma estrada juncada de obstáculos, resistências e ultrapassagens. A análise é da historiadora Mary Del Priore que, apesar de admitir os avanços na trajetória da mulher brasileira, diz: ´A sinhazinha continua, bem viva, dentro dela´

No seu livro ´História das Mulheres no Brasil´, a senhora mostra a evolução da mulher na sociedade brasileira. O que ainda resta das ´sinhazinhas´ no imaginário da mulher brasileira atual?

A história das mulheres não é um caminho progressivo, mas, sim, uma estrada juncada de obstáculos, resistências e ultrapassagens. A brasileira de hoje conquistou o espaço para estudar, trabalhar e dispor de sua sexualidade, sem entraves. Ou seja, ela não quer mais ser a sinhazinha. Mas ela também lida mal com a solidão, a competição e as responsabilidades advindas das conquistas precedentes: ´produções independentes´ , a obrigação de prover a casa e o segundo turno de trabalho doméstico. Além disso, não abre mão de se cuidar para continuar a parecer uma princesa. Ou seja, a sinhazinha continua, bem viva, dentro dela.

Historicamente, sobretudo pela ótica cristã, a mulher foi vista com inferioridade diante de um mundo masculinizado. O que vem mudando nesta realidade?

Herdamos dois mil anos de tradição judaico-cristã da qual é difícil livrar-se. Sobretudo num país onde o descaso com a educação não ajuda a formar cidadãos. Quando não se tem consciência da própria inferioridade, é mais complicado lutar contra ela. Contudo, as mudanças se impõem. Mais e mais mulheres estão em postos de trabalho, temos cerca de 10% de representantes mulheres na Câmara e no Senado, e, nas universidades, o número de mulheres formadas é maior do que o dos homens. As condições materiais de vida estão realmente mudadas.

Então, onde falta avançar?

O problema é a subjetividade feminina? Como melhorar a auto-estima da mulher brasileira? Lutando contra a sua desvalorização. Lutando contra a imagem do ´xuxuzinho, da mulher-melancia e da gostosona´ que coisificam a mulher. O triste é que muitas gostam desta representação. E alimentam esta mentalidade nos filhos e maridos. E o que dizer de um país mestiço e mulato que só tem apresentadoras de televisão louras, ainda que falsas?! Como fica a auto-estima de nossas crianças?

A mulher não tinha liberdade sobre o seu próprio corpo. Quando esta situação começou a mudar?

O grande marco é o século XIX, momento em que o trabalho feminino passa da vida privada à pública. As brasileiras sempre trabalharam, e muito, lutando por sua sobrevivência e de seus familiares. Com a industrializaçã o e o crescimento dos serviços, tal trabalho passou a ser feito ´fora´. Em São Paulo, por exemplo, as mulheres foram 90% da força de trabalho na indústria têxtil aos fins do Império. Mas, além da autonomia financeira, foi preciso conquistar aquela sexual. Não era possível se matar de trabalhar para sustentar uma família de 7,8 ou 10 filhos. A grande clivagem chega nos anos 70 com a difusão da pílula anticoncepcional. Ela é que deu a verdadeira liberdade para as mulheres. Antes de serem vítimas do pai, do marido ou do irmão, as mulheres foram vítimas de seus próprios corpos.

E como se deu a luta no campo político e dos direitos individuais, como o voto que veio em 1932?

Vale a pena recordar alguns marcos desta luta: só em 1879, as mulheres têm autorização do governo para freqüentar instituições do ensino superior, pelo que foram ridicularizadas. Em 1887, formou-se a primeira médica brasileira, Rita Lobato Velho. Em 1885, num romance intitulado Memórias de Marta, Júlia Lopes de Almeida denunciava pioneiramente a dificuldades da vida das mulheres pobres. Em 1917, a professora Leolinda Daltro liderou uma passeata exigindo a extensão do voto às mulheres. No ano o de 1922 foi fundada a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Em 1929 é eleita a primeira prefeita: Alzira de Souza, em Lages, Rio Grande do Norte. Em 1931, criada a Cruzada Feminista Brasileira e em 32, no governo de Getúlio Vargas, o novo código eleitoral institui o voto feminino. E só em 1945, uma Carta das Nações Unidas, reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

O que representou essa conquista?

No campo da política, muito pouco. A imensa maioria das mulheres que elegemos para nos representar não tem agendas voltadas para a educação das meninas pobres, a prevenção da gravidez precoce,  a luta contra a presença das mulheres no tráfico de drogas ou a igualdade salarial entre homens e mulheres. Elas preferem copiar os políticos que criticavam antes de ser eleitas. Mas, nos cargos, acabam roubando e corrompendo com a mesma cara de pau que eles têm. Nenhuma delas ergueu a bandeira da ética, se diferenciando do mar de lama em que está mergulhada a vida política.

Qual a contribuição do movimento feminista da década de 1960 para a identidade atual da mulher?

Foi importante, mas perdeu a força ao buscar a igualdade entre homens e mulheres.  Não queremos ser homens de saias.  Prefiro pensar nas complementaridades entre os sexos. Homens possuem liderança? Pois as mulheres têm o dom da negociação. Homens são agressivos, mulheres são conciliadoras… e daí por diante. Trabalhando juntos, naquilo que temos de diferente, singular e específico, teremos resultados mais ricos e eficientes do que buscando, a todo custo, uma igualdade que não deu certo.  E que biologicamente não existe.

Como a mulher brasileira vem acompanhando essas transformações?

Enquanto elas continuarem a evitar que os maridos lavem a louça, a desqualificar as namoradas dos filhos quando tomam um fora, a aceitar a vulgaridade na TV e nas bancas de jornais, vai ser difícil adquirir a consciência necessária para promover mudanças. A mulher brasileira, no fundo, é machista.

A senhora considera pequena a participação das mulheres na política brasileira?

Não é pequena, não. Temos mais de 10% de representantes. O problema é a qualidade da representação. Há poucas políticas com agendas que façam a diferença, dos seus pares do outro sexo. Em geral,  são tão demagogas e corruptas quanto eles.

Existe uma relação cultural?

Não. Tem raízes no baixíssimo investimento na educação. Pessoas educadas e informadas não vêem qualquer empecilho em votar em mulheres. E cidadãs bem formadas, uma vez eleitas, sabem dar contribuição de qualidade para a sua coletividade e ao seu País.

Essa realidade é inerente a toda América Latina?

A América Espanhola tem uma tradição de maior investimento no ensino, do que nós.  A Argentina, para ficar num exemplo, logo depois de sua Independência, em 1816, criou logo um sistema nacional de educação, apoiado na escola pública e nas bibliotecas.  Só fomos fazer isso, cento e vinte anos mais tarde.  O sentimento de cidadania, com direitos e deveres é mais forte, onde há nível mais elevado de educação.

O Brasil, principalmente o Nordeste, é conhecido por sua herança machista. O povo está preparado para eleger uma mulher para presidente da República?

O Nordeste tem números assustadores de violência contra a mulher, mas o machismo existe no Brasil todo. O problema não é eleger um homem ou uma mulher, mas alguém que faça um verdadeiro trabalho de saneamento na educação e na saúde. Basta de populismo!

Na sua opinião, quais são as principais conquistas das mulheres até hoje?

No campo das realizações profissionais e afetivas, há, de fato, muitas conquistas. Há inúmeras brasileiras que conseguem conciliar trabalho e família, afeto e responsabilidade. Elas atingiram o equilíbrio sutil, mas necessário, entre a vida pública e a vida privada. Manter a família unida, valorizar as tradições, estando, igualmente, receptivas à inovações são desafios que muitas de nós conseguem preencher. O importante seria democratizar estas oportunidades para mulheres de camadas desfavorecidas, que sem a ajuda de creches, escolas de qualidade e hospitais adequados, têm menos possibilidades de atingir este equilíbrio.

O livro´História do Amor no Brasil´ fala de como foram construídas as relações afetivas no Brasil. O que mudou ao longo desses anos as relações afetivas?

Em toda a história do amor, o casamento e a sexualidade estiveram sob controle; controle da Igreja, da família, da comunidade. Só o sentimento, apesar de todos os constrangimentos, continuava livre. Podia-se obrigar indivíduos a viver com alguém, a deitar com alguém, mas não a amar alguém. As coisas mudaram bastante. Apesar dos riscos de doenças como a Aids, a sexualidade foi desembaraçada da mão da Igreja, separada da procriação graças aos progressos médicos, e mais, desculpabilizada pela psicanálise e cada vez mais exaltada. Hoje, a ausência de desejo é que é culpada. O casamento, fundado sobre o amor, não é mais obrigatório e escapa às estratégias religiosas ou familiares; o divórcio não é mais vergonhoso e os casais têm o mesmo tratamento perante a lei. A realização pessoal se coloca acima de tudo: recusamos a frustração e a culpabilização. Mas tudo isto são conquistas ou armadilhas? Os historiadores de amanhã o dirão.

FIQUE POR DENTRO

Quem é Mary Del Priore

Historiadora e escritora cuja obra tem como foco o comportamento e o cotidiano da vida do povo brasileiro. Possui graduação em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo, especialização na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1993) e pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (1996). Atualmente é professora do programa de mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira. Autora de mais de 22 livros dentre outros: ´História do Amor no Brasil´ e ´História das Mulheres no Brasil´.

Iracema Sales
Repórter

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