E d u c A ç ã o

05/04/2009

Quando crescer, vou ser… etnobiólogo!

Filed under: Cultura,Etnobiologia,Meio Ambiente — jspimenta @ 16:16

Esse profissional estuda como cada cultura lida com os bichos e as plantas

Em diferentes lugares do mundo, animais são venerados, outros são temidos, ervas são usadas para curar doenças e assim por diante. Na verdade, cada cultura tem a sua maneira de lidar com bichos e plantas a sua volta e, de alguma forma, acaba influenciando e sendo influenciada por eles. Compreender como acontece cada uma dessas relações é o desafio de um ramo da ciência conhecido como etnobiologia.

O etnobiólogo, portanto, é aquele que estuda o conhecimento produzido por cada comunidade a respeito dos seres vivos e como eles interferem nas crenças e na cultura dessa comunidade. Por isso, é um profissional que precisa conhecer diferentes áreas da ciência, como biologia e antropologia (ciência que estuda o comportamento humano), além de saber valorizar a riqueza cultural e a biodiversidade. Quem quiser, então, ser etnobiólogo precisa deixar qualquer preconceito de lado e respeitar outras formas de ver o mundo.

Segundo o etnobiólogo José Geraldo Wanderley Marques, da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, é necessário ser bastante curioso e tolerante. “As culturas, assim como os seres vivos, podem mudar o tempo todo. É preciso ter vontade de sempre descobrir novas coisas”, explica ele. “Mas é preciso ter em mente que não existe uma cultura superior à outra, todas elas se equivalem. Todas apresentam características boas e ruins”, acrescenta.

Ele conta ainda que desde criança se interessa por animais e por ecologia. Nascido em Santana de Ipanema, no estado de Alagoas, cresceu cercado de animais de estimação e gostou de ter as suas fazendas de formiga. “A bagagem cultural que adquiri no interior foi importante. Eu passei a querer saber o que a cultura tem a ver com os seres vivos”, comenta. “Eu nem conhecia a etnobiologia, mas de maneira intuitiva eu dava os primeiros passos nesta área.”

Marques já trabalhou com diferentes comunidades, como os praticantes do candomblé e os pescadores artesanais do litoral alagoano. Pesquisou, também, animais ligados a mitos e lendas do catolicismo popular. “Estudamos mais de 100 animais, mas um dos que mais me chamaram a atenção foi o caso de uma pequena ave, a lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta)”, conta. “Ela originalmente era encontrada em áreas abertas do Nordeste, mas hoje também é vista nas cidades”.

Uma explicação para isso, de acordo com o pesquisador, é o fato de a lavadeira ser considerada uma ave sagrada pelos seguidores do catolicismo popular. As pessoas não caçam, aprisionam, matam ou comem a lavadeira, que hoje está longe de ser considerada uma espécie em extinção. “Esse mito persiste até hoje. Os mais velhos ensinam às crianças que se tentarem matar uma lavadeira, ela virá à noite furar seus olhos”.

Mas nem todos os animais têm a sorte da lavadeira. O bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), por exemplo, é tido como uma ave de mau agouro. Essa ave é relacionada à traição. Até hoje, em algumas cidades do interior do Brasil, os adolescentes aprendem pontaria atirando em bem-te-vis (pobres aves!).

Mas muito se engana quem pensa que o conhecimento produzido por essas comunidades vale apenas para elas. Entrevistas com os integrantes podem ajudar o etnobiólogo a perceber mudanças no ecossistema que, em geral, passam despercebidas a pessoas que vêm de fora. É o que conta a etnobióloga Natalia Hanazaki, da Universidade Federal de Santa Catarina. Ela trabalha com comunidades de pescadores, que, muitas vezes, são os primeiros a perceber que algumas espécies de peixes já não são encontradas com tanta facilidade.

“Alguns pescadores mais jovens já não conhecem espécies de peixes, que antes eram encontradas na região. Isso mostra que não apenas a biodiversidade da região está diminuindo, como o conhecimento passado de geração em geração está desaparecendo também”, comenta Hanazaki. “Alguns pescadores mais antigos comentam, ainda, que já não usam mais algumas espécies de plantas que antes eram comuns nas paisagens do litoral de Santa Catarina”.

Hanazaki lembra que não apenas o conhecimento produzido dentro dos institutos de pesquisa e universidades é o verdadeiro. O etnobiólogo precisa estar aberto a outras maneiras de pensar. “Eu sempre tive na minha cabeça que sardinha era uma espécie de peixe, que eu só conhecia das latas que compramos no supermercado. Na verdade, fui aprender com os pescadores que eles chamam várias espécies de peixes pelo nome de sardinha, mesmo algumas que os cientistas batizaram com outro nome”, explica. “Não existe uma forma correta ou errada. São apenas formas diferentes de classificar os animais.”

Bem, se você se interessou em ser um etnobiólogo, existem alguns caminhos que pode seguir. Você poderá optar por um curso na área das ciências biológicas – como a maioria dos etnobiólogos brasileiros – ou se aprofundar na área de humanas, em especial, na antropologia – assim como a maior parte dos etnobiólogos ao redor do mundo. Mas o que importa mesmo é gostar de descobrir, respeitar novas culturas e novas formas de olhar a natureza.

Igor Waltz
Instituto Ciência Hoje/RJ
REVISTA CHC 199 :: MARÇO DE 2009
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/140372

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