E d u c A ç ã o

13/11/2009

Mídia brasileira continua a tratar negros como invisíveis

Filed under: Cultura,Estudos Culturais,Igualdade Racial — jspimenta @ 19:09

igualdade racial
Por: Redação – Fonte: Afropress – 26/6/2009.

Brasília – Embora o tema da igualdade racial já faça parte da agenda do Governo há pelo menos 8 anos, e ocupe cada vez mais espaço na agenda das organizações da sociedade civil, o segundo dia da II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial mostrou que a mídia brasileira, continua indiferente ao tema.

Jornais como O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, e mesmo os jornais de Brasília como o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília, não estão cobrindo a Conferência e seus repórteres só aparecem no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, quando procuram autoridades para entrevistas sobre outros temas.

Também as três principais redes de TV como a Globo, Record e Bandeirantes, simplesmente, não notaram a presença de mais de 300 delegados de todo o país e mais dos 300 convidados de todos os 26 Estados da Federação e mais do Distrito Federal, reunidos na Conferência que – embora com a ausência do presidente da República – teve a presença de seis ministros de Estado e de delegações e autoridades estrangeiras de vários países.

Em 2004, quando o Estado convocou a I Conferência, a cobertura da mídia também foi pífia. Os repórteres dos grandes veículos – inclusive dos dois jornais de Brasília -, estiveram presentes apenas na abertura porque teve a presença do Presidente Luis Inácio Lula da Silva.
Segundo o cientista social e coordenador da Igualdade Racial do Rio, Carlos Alberto Medeiros, a postura da mídia brasileira em relação as questões raciais, é “antes de qualquer coisa uma desonestidade do ponto de vista jornalístico”.

“É uma desonestidade do ponto de vista jornalístico. A direção do Jornal pode ser a favor ou contra, mas não pode deixar de informar ao leitor ou telespectador sobre esse tipo de acontecimento. É, portanto, uma desonestidade para com o próprio leitor.”

Para Medeiros não mostrando a mídia priva o leitor/expectador “da compreensão de um processo, abrindo terreno para as teorias conspiratórias, que vem sendo usadas no debate das cotas e ações afirmativas. É desonesto e algo que a agente deve encontrar caminhos para enfrentar”, acrescentou.

Medeiros lamentou que a Comunicação não tenha sido incluída nos temas propostos para debates na Conferência. “Ficou faltando uma área muito importante, que é a comunicação. A gente vê a importância de criarmos ações estratégicas em busca de ganhar a opinião pública que tem sido manipulada por uma imprensa que não registra um evento como esse”, concluiu.
Disponível em: http://www.afropress.com/noticiasLer.asp?id=1910

08/08/2009

Um giro pela astronomia moderna: o céu de diversas culturas

Filed under: Cultura,Etnoastronomia — jspimenta @ 23:07

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Sabia que astrônomos estudam os conhecimentos de povos antigos e atuais sobre os astros?

Não só o futuro nos reserva descobertas; o passado, também!

Há milênios, o ser humano observa o céu. Hoje, alguns astrônomos se dedicam a pesquisar o que restou daquilo que os povos que viveram há muito tempo construíram e escreveram a respeito dessas observações.

Em algumas das antigas cidades em que esses povos moravam, resistem construções e monumentos que indicam certas posições onde os astros (Sol, Lua, planetas e estrelas muito brilhantes) nascem ou se põem no horizonte. Muitos destes monumentos apontam, por exemplo, a posição onde o Sol se põe em datas especiais que marcam o início das estações do ano. Esta era uma forma de se organizar um calendário para as épocas de plantio dos alimentos ou para as festas religiosas.

O estudo sobre o que os povos, ao longo da história e da pré-história, apreenderam dos fenômenos celestes, como utilizaram esses fenômenos e que papel tiveram em suas culturas se chama Arqueoastronomia. O termo Etnoastronomia (ou Astronomia Cultural) se aplica ao estudo dos saberes celestes relacionados aos povos existentes atualmente, como é o caso dos povos indígenas brasileiros.

02/08/2009

Você consome cultura?

Filed under: Cultura,Educação — jspimenta @ 22:31

Gasto com produtos culturais em regiões metropolitanas do Brasil é baixo, avalia estudo.

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Apenas 40% dos moradores de regiões metropolitanas brasileiras gastam dinheiro com cultura. Foi o que constatou um estudo que levou em conta as despesas da população com diversas atividades culturais, da compra de CDs a ingressos de peças de teatro. Além do baixo consumo, a pesquisa também confirmou a tendência elitista desses produtos, que são pouco adquiridos pela parcela da população com menor renda e escolaridade.

O estudo baseou-se nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar, realizada entre 2002 e 2003 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A economista Sibelle Diniz, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), identificou e comparou os gastos com produtos e atividades culturais dos lares de nove regiões metropolitanas – Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém – e do Distrito Federal. Características como idade, escolaridade e renda dos indivíduos também foram relacionadas aos seus hábitos de consumo.

Entre os produtos culturais considerados no trabalho estão artigos de áudio, vídeo, leitura e arte, além de ingressos de teatro, shows, cinema, museus e estádios. Instrumentos musicais, aparelhos de televisão, máquinas fotográficas e gastos com internet e TV por assinatura também foram incluídos.

A avaliação, realizada durante o mestrado de Diniz na UFMG, mostra que quem tem maior renda e escolaridade consome mais produtos culturais. Mas alguns dados surpreenderam a pesquisadora. Por exemplo: Rio de Janeiro e São Paulo, apesar de apresentarem as maiores ofertas de infra-estrutura cultural (casas de shows, teatros, museus e centros culturais) não lideram a lista de gastos, encabeçada pelas regiões metropolitanas de Salvador e Recife.

“Uma hipótese para esse cenário no Sudeste seria a maior oferta de eventos gratuitos”, sugere Diniz. “Mas alguns problemas relacionados à urbanização dessas áreas também podem estar afastando o público, como o custo do transporte e a criminalidade.”

A análise também aponta particularidades do consumo de cada região. No Norte e Nordeste do país prevalecem gastos com CDs e apresentações musicais. Já no Sul e Sudeste, embora o consumo de CDs esteja no topo da lista, há um gasto acima da média com cinema e teatro. “A oferta em cada região expressa o envolvimento de sua população com a arte”, avalia a economista. “No Nordeste, por exemplo, a música popular é muito forte na composição da identidade cultural.”

Ausência de hábitos culturais

Quanto aos 60% da população que não reservam qualquer fração da sua renda a produtos culturais, a economista não tem dúvidas: mais do que o custo, é a falta de hábito que os afasta da cultura. “A pessoa consome aquilo a que está exposta; ela não tem interesse por algo que não conhece”, justifica.

Para a pesquisadora, é preocupante o fato de mais da metade da população ter acesso somente aos produtos culturais divulgados pela grande mídia, como o rádio e a televisão. Mas a culpa não é somente do consumidor: Diniz acusa as próprias entidades culturais de serem excludentes. “As atividades culturais oferecidas muitas vezes são voltadas às classes mais abastadas. Logo, as pessoas de baixa renda não se sentem parte desse universo.”

A solução apontada pela economista para aumentar o consumo cultural dessa parcela da população inclui os produtores de cultura. “É preciso aproximar demanda e oferta, com uma política voltada para o consumidor”, sugere. Por outro lado, também seria necessário que os consumidores ampliassem os seus interesses. “Nesse aspecto, a educação faz toda a diferença”, destaca Diniz. “Se essa população recebesse uma educação artística de qualidade, talvez valorizasse um pouco mais a cultura.”

Barbara Marcolini
Ciência Hoje On-line
28/07/2009.
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/149934

09/06/2009

Astronomia indígena prevê ocorrência da pororoca

Filed under: Índios,Cultura,Cultura Brasileira,Etnoastronomia — jspimenta @ 20:13

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JC e-mail 3779, de 09 de Junho de 2009.

Índios brasileiros sabiam da influência da lua sobre as marés muito antes de Galileu e Newton. Assunto será abordado na 61ª Reunião Anual da SBPC, em Manaus, no próximo mês de julho.

Ao observarem atentamente o céu quando as águas dos mares e rios se agitavam, os indígenas brasileiros fizeram uma descoberta que Galileu Galilei ignorou e Isaac Newton chegou à mesma conclusão somente quase um século depois: que a lua é a principal causadora das marés.

E que a pororoca, o fenômeno provocado por elas, em que as águas bravias do mar se chocam violentamente contra as de rios, como do Amazonas, dando origem a grandes ondas, ocorre próxima às fases da lua nova e cheia, conforme hoje se sabe e eles já descreviam em seus antigos mitos.

Em 1632, Galileu Galilei publicou o livro “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo: ptolomaico e copernicano”, em que afirma que a principal causa das marés seriam os dois movimentos circulares da Terra: o de rotação em torno de seu eixo, que ocorre todos os dias, e o de translação em torno do sol, que acontece anualmente, desconsiderando a influência da Lua. Somente em 1687, Isaac Newton demonstrou que a causa das marés é a atração gravitacional do sol e, principalmente, da lua sobre a superfície da Terra.

Mas, antes da publicação da obra de Newton, em 1614, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville publicou em Paris o livro ““Histoire de la mission de pères capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines”. Na publicação, d’Abbeville narra suas observações do convívio por quatro meses com índios tupinambás, da família dos tupi-guarani, no Maranhão, localizados perto da Linha do Equador.

Uma das anotações do missionário francês diz que “os tupinambás atribuem à lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. O que confirma o conhecimento por esses povos da relação entre as marés e as fases da lua muito antes das teorias de Galileu e de Newton.

“Todas as civilizações antigas, antes de terem escrituras e se tornarem de nômades a sedentários, liam os astros para construírem calendário e buscarem orientações para regular suas vidas”, aponta o autor da descoberta, o astrônomo Germano Bruno Afonso, professor visitante do CNPq na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 61ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 12 a 17 de julho, em Manaus (AM).

Descobertas – No final da década de 70, Afonso fez seu doutorado na França, onde teve acesso ao livro de d’Abbeville, em que o capuchinho francês menciona alguns nomes de constelações em tupi, tais como, “curuçá” (cruzeiro do sul), “seichu” (plêiades), “tuibaé” (velho) e “nhandutim” (ema). Ao analisá-los mais detidamente, constatou que as constelações tinham correspondentes em guarani, hoje, embora estejam separadas pela distância – em mais de três mil quilômetros – e pelo tempo, em cerca de quatrocentos anos. Baseado nessa descoberta, começou a estudá-las em todas as regiões do Brasil.

“Em outros países, essa disciplina, a etnoastronomia, é muito estudada. Já se sabe muito sobre os incas, maias e navajos, por exemplo. Mas sobre os índios brasileiros, não se conhece nada. Só é possível ampliar o conhecimento sobre eles em trabalhos de campo, porque não existe nada nas bibliotecas”, avalia o especialista, que fez outra grande descoberta ao justamente se embrenhar em um desses trabalhos de campo.

Em 1991, arqueólogos acharam às margens do Rio Iguaçu, no Paraná, onde estava sendo construída uma hidrelétrica, um material arqueológico que não conseguiram entender seu significado. Ao estudar a rocha vertical, o pesquisador identificou que se tratava de um instrumento de observação solar, conhecido como “gnômon”. “Ele tinha quatro faces talhadas para os pontos cardeais. Fui falar com os guaranis daquela região, para ver se aquilo tinha sentido para eles, e percebi que havia. Depois, encontrei instrumentos semelhantes a ele em diversos outros locais do Brasil”, conta.

De acordo com o pesquisador, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Por meio da observação da lua, eles sabiam, por exemplo, que há uma maior incidência de mosquitos na lua cheia do que na lua nova. O que poderia ser útil para os órgãos de saúde no Brasil combaterem hoje o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, determinando qual o melhor período para promover ações de dedetização.

A palestra do astrônomo Germano Bruno Afonso será realizada no dia 17 de julho, às 10h30, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A Reunião Anual, cujo tema é “Amazônia: Ciência e Cultura”, contará com 175 atividades, entre conferências, simpósios, mesas-redondas, grupos de trabalho, encontros e sessões especiais, além de apresentação de trabalhos científicos e minicursos.

Veja a programação em http://www.sbpcnet.org.br/manaus
(Assessoria de Imprensa da SBPC).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63966

17/04/2009

Como vivem os índios hoje?

Filed under: Índios,Cultura,Educação — jspimenta @ 23:03

Descubra como é o dia-a-dia dos grupos indígenas no século 21
 

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Em 19 de abril, celebra-se o Dia do Índio. Ótima oportunidade para que você se pergunte: como vivem hoje os primeiros habitantes do Brasil? Muito tempo se passou desde que os portugueses chegaram aqui e conheceram esses povos cheios de tradições. Mais de 500 anos depois, qual é o resultado desse encontro de culturas? Pegue seu cocar e embarque nessa viagem ao mundo indígena moderno!

Por toda a parte…
 
Você, que está acostumado a pensar que os índios vivem na floresta, já os imaginou morando no meio do sertão? Ou na beira da praia? Pois saiba que isso é comum, especialmente na região Nordeste! Apesar disso, a maioria dos 740 mil indígenas encontrados hoje no Brasil habita regiões de floresta, em terras destinadas pelo governo a eles. Muitas dessas terras ficam no estado do Amazonas, mas também existem grupos indígenas nos outros estados da região Norte e na região Centro-Oeste, além do Nordeste e do Sudeste.

Nessas terras, os índios vivem em aldeias, em que geralmente eles mesmos produzem seu próprio alimento. As famílias se ajudam e as crianças são criadas livremente. Até aí, nada diferente dos indígenas que viviam por aqui há 500 anos. Mas saiba que, nesse tempo, muita coisa mudou. “Os índios não poderiam ter vivido em contato com o homem branco por cinco séculos e continuarem exatamente da mesma forma”, explica o antropólogo João Pacheco de Oliveira, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quer um exemplo? “É muito difícil encontrar hoje índios sem roupa em uma aldeia”, conta.

Mistureba!

Os índios atuais absorveram diversas práticas que não pertencem à sua cultura. Muitas crianças indígenas frequentam escolas, mantidas nas aldeias pela Fundação Nacional do Índio, e aprendem o português. Mas isso não quer dizer que os indígenas tenham abandonado suas tradições, como os rituais religiosos e as danças.

“A troca cultural não destrói necessariamente uma cultura”, explica João Pacheco. “É natural que a primeira reação do ser humano ao ver as tradições de outro povo seja a curiosidade e não a hostilidade. Os indígenas têm a possibilidade de praticar as duas culturas, sem se tornarem menos índios por causa disso.”

Quer ver como é possível? Quando alguém fica doente em uma aldeia, a pessoa é tratada ali mesmo. Isso porque os índios têm muitos conhecimentos para utilizar ervas e plantas no tratamento de moléstias. Além disso, existe o pajé, um curandeiro responsável por cuidar dos doentes. Mas, quando o caso é grave e não pode ser resolvido dentro da aldeia, o jeito é levar o doente a um hospital.

Nas cidades

Agora que você já conhece essa mistura cultural, não vai se surpreender tanto ao descobrir que os índios chegaram às grandes cidades. “Em lugares como Manaus e São Paulo, eles têm movimentos organizados”, conta João Pacheco de Oliveira. “Assim, conseguem manter uma vida coletiva de cooperação e promover encontros em que mantém suas atividades rituais.”

Depois de saber de tudo isso, dá para ver que pessoas de diferentes culturas podem conviver em harmonia e aprender uns com os outros. “Conviver com índios seria uma experiência maravilhosa para qualquer criança. Eles têm muito a contar e a ensinar”, garante João Pacheco de Oliveira. De fato, quem aí não gostaria de ter um amigo indígena? 

Tatiane Leal
Ciência Hoje das Crianças
17/04/2009

Disponível em:  http://cienciahoje.uol.com.br/143036

05/04/2009

Quando crescer, vou ser… etnobiólogo!

Filed under: Cultura,Etnobiologia,Meio Ambiente — jspimenta @ 16:16

Esse profissional estuda como cada cultura lida com os bichos e as plantas

Em diferentes lugares do mundo, animais são venerados, outros são temidos, ervas são usadas para curar doenças e assim por diante. Na verdade, cada cultura tem a sua maneira de lidar com bichos e plantas a sua volta e, de alguma forma, acaba influenciando e sendo influenciada por eles. Compreender como acontece cada uma dessas relações é o desafio de um ramo da ciência conhecido como etnobiologia.

O etnobiólogo, portanto, é aquele que estuda o conhecimento produzido por cada comunidade a respeito dos seres vivos e como eles interferem nas crenças e na cultura dessa comunidade. Por isso, é um profissional que precisa conhecer diferentes áreas da ciência, como biologia e antropologia (ciência que estuda o comportamento humano), além de saber valorizar a riqueza cultural e a biodiversidade. Quem quiser, então, ser etnobiólogo precisa deixar qualquer preconceito de lado e respeitar outras formas de ver o mundo.

Segundo o etnobiólogo José Geraldo Wanderley Marques, da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, é necessário ser bastante curioso e tolerante. “As culturas, assim como os seres vivos, podem mudar o tempo todo. É preciso ter vontade de sempre descobrir novas coisas”, explica ele. “Mas é preciso ter em mente que não existe uma cultura superior à outra, todas elas se equivalem. Todas apresentam características boas e ruins”, acrescenta.

Ele conta ainda que desde criança se interessa por animais e por ecologia. Nascido em Santana de Ipanema, no estado de Alagoas, cresceu cercado de animais de estimação e gostou de ter as suas fazendas de formiga. “A bagagem cultural que adquiri no interior foi importante. Eu passei a querer saber o que a cultura tem a ver com os seres vivos”, comenta. “Eu nem conhecia a etnobiologia, mas de maneira intuitiva eu dava os primeiros passos nesta área.”

Marques já trabalhou com diferentes comunidades, como os praticantes do candomblé e os pescadores artesanais do litoral alagoano. Pesquisou, também, animais ligados a mitos e lendas do catolicismo popular. “Estudamos mais de 100 animais, mas um dos que mais me chamaram a atenção foi o caso de uma pequena ave, a lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta)”, conta. “Ela originalmente era encontrada em áreas abertas do Nordeste, mas hoje também é vista nas cidades”.

Uma explicação para isso, de acordo com o pesquisador, é o fato de a lavadeira ser considerada uma ave sagrada pelos seguidores do catolicismo popular. As pessoas não caçam, aprisionam, matam ou comem a lavadeira, que hoje está longe de ser considerada uma espécie em extinção. “Esse mito persiste até hoje. Os mais velhos ensinam às crianças que se tentarem matar uma lavadeira, ela virá à noite furar seus olhos”.

Mas nem todos os animais têm a sorte da lavadeira. O bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), por exemplo, é tido como uma ave de mau agouro. Essa ave é relacionada à traição. Até hoje, em algumas cidades do interior do Brasil, os adolescentes aprendem pontaria atirando em bem-te-vis (pobres aves!).

Mas muito se engana quem pensa que o conhecimento produzido por essas comunidades vale apenas para elas. Entrevistas com os integrantes podem ajudar o etnobiólogo a perceber mudanças no ecossistema que, em geral, passam despercebidas a pessoas que vêm de fora. É o que conta a etnobióloga Natalia Hanazaki, da Universidade Federal de Santa Catarina. Ela trabalha com comunidades de pescadores, que, muitas vezes, são os primeiros a perceber que algumas espécies de peixes já não são encontradas com tanta facilidade.

“Alguns pescadores mais jovens já não conhecem espécies de peixes, que antes eram encontradas na região. Isso mostra que não apenas a biodiversidade da região está diminuindo, como o conhecimento passado de geração em geração está desaparecendo também”, comenta Hanazaki. “Alguns pescadores mais antigos comentam, ainda, que já não usam mais algumas espécies de plantas que antes eram comuns nas paisagens do litoral de Santa Catarina”.

Hanazaki lembra que não apenas o conhecimento produzido dentro dos institutos de pesquisa e universidades é o verdadeiro. O etnobiólogo precisa estar aberto a outras maneiras de pensar. “Eu sempre tive na minha cabeça que sardinha era uma espécie de peixe, que eu só conhecia das latas que compramos no supermercado. Na verdade, fui aprender com os pescadores que eles chamam várias espécies de peixes pelo nome de sardinha, mesmo algumas que os cientistas batizaram com outro nome”, explica. “Não existe uma forma correta ou errada. São apenas formas diferentes de classificar os animais.”

Bem, se você se interessou em ser um etnobiólogo, existem alguns caminhos que pode seguir. Você poderá optar por um curso na área das ciências biológicas – como a maioria dos etnobiólogos brasileiros – ou se aprofundar na área de humanas, em especial, na antropologia – assim como a maior parte dos etnobiólogos ao redor do mundo. Mas o que importa mesmo é gostar de descobrir, respeitar novas culturas e novas formas de olhar a natureza.

Igor Waltz
Instituto Ciência Hoje/RJ
REVISTA CHC 199 :: MARÇO DE 2009
Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/140372

27/03/2009

Pesquisa faz mapeamento dos quilombolas no país

Filed under: Cultura,Educação,Estudos Culturais,História,Quilombolas — jspimenta @ 0:42

 

Mais de 2.300 quilombos contemporâneos já fazem parte do mais recente cadastro dos territórios étnicos, mas apenas 5% possuem registro no Incra

Pesquisadores estão fazendo a mais completa caracterização geográfica e cartográfica das comunidades quilombolas do Brasil para conhecer as situações no território de cada uma delas e levantar subsídios que possam acelerar o processo de reconhecimento, demarcação e titulação. Um desses estudos está sendo coordenado pelo geógrafo Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, da Universidade de Brasília (UnB), com o apoio do CNPq/MCT.

Segundo o pesquisador, é necessário realizar um grande censo nacional para que todas as comunidades quilombolas tenham seu perfil social, econômico e territorial devidamente configurado, pois o desconhecimento das matrizes africanas e da própria geografia africana no Brasil torna a população mais susceptível ao preconceito racial, gerando uma visão estereotipada do afrobrasileiro, que é visto muito mais como um coadjuvante do que protagonista da formação do povo brasileiro.

Ainda de acordo com o pesquisador, a terra e a territorialidade assumem grandeimportância no contexto da temática da pluralidade cultural brasileira. “Tratar a diversidade cultural do Brasil, num contexto geográfico e cartográfico, é ter uma atuação sobre um dos mecanismos estruturais da exclusão social e reconhecer a cultura africana na formação do povo brasileiro, para valorizar e superar a discriminação existente em nosso país”, afirma o geógrafo Rafael Sanzio.

Localização

Mais de 2.300 quilombos contemporâneos já fazem parte do mais recente cadastro dos territórios étnicos, mas apenas 5% possuem registro junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Por não estarem devidamente registrados, os quilombos são territórios de risco que, se não forem legalizados pelo sistema oficial, correm o risco de desaparecerem ou se descaracterizarem rapidamente”, diz o geógrafo.

O estudo apontou que as maiores ocorrências de quilombolas estão nos estados do Nordeste e do Norte do país. O Nordeste apresenta 60% dos registros, com os quilombolas concentrados na Bahia e no Maranhão. Já a Região Norte detém 25% das comunidades Quilombolas do Brasil, localizados no Pará.

O levantamento cartográfico das comunidades quilombolas é uma das ações do Projeto Geografia Afrobrasileira, desenvolvido pelo Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica da UnB (CIGA). A pesquisa pretende contribuir para o conhecimento, a preservação e proteção dos territórios quilombolas, para a ampliação da visibilidade da população de matriz africana. “Com este trabalho, buscamos fortalecer a identidade da África junto à sociedade civil, nas ações consequentes junto ao setor decisório e na inserção do continente africano na educação brasileira”, afirma Rafael Sanzio.

Divulgação

O resultado do trabalho tem sido divulgado por meio de oficinas, exposições e livros. A pesquisa já resultou numa primeira exposição cartográfica itinerante – Territórios das Comunidades Remanescentes de Antigos Quilombos no Brasil -, e uma segunda versão – África, o Brasil e os Territórios dos quilombos-, que está sendo apresentada em todo o país , depois de percorrer França e Bélgica. “A meta é levar este conhecimento aos professores, líderes comunitários e representantes de entidades afrobrasileiras, pois este conhecimento fica muitas vezes restrito aos laboratórios de pesquisa”, declara o professor.

O projeto também gerou bibliografia própria. O livro Quilombos: Geografia Africana-Cartografia Étnica-Territórios Tradicionais, a mais recente obra do pesquisador, sintetiza as pesquisas realizadas no Brasil, Portugal, França e no Congo, e será lançado no dia Internacional contra a Discriminação Racial, 21 de março. Além disso, para o segundo semestre deste ano está prevista a publicação do Atlas Geográfico África Brasil.
(Informações da Assessoria de Comunicação do CNPq)

 

JC e-mail 3729, de 26 de Março de 2009.

 

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62481

23/03/2009

Manifesto pelos Direitos Quilombolas – Assine e repasse…

Filed under: Cultura,Educação,Manifesto,Quilombolas — jspimenta @ 11:51

Entrem no link abaixo e assinem o Manifesto pelos Direitos
Quilombolas. Há aproximadamente cerca de 5.000 Comunidades
Quilombolas no Brasil, dessas aproximadamente 1.500 estão com
processo de titulação aberto no INCRA, mas, a política para
quilombos, sobretudo a de regularização fundiária, está ameaçado por
uma série de investidas, representada por partidos políticos, pela
bancada ruralista, pelo setor do agronegócio e a grande mídia.
Precisamos que essa matéria ganhe vulto nacional e
internacionalmente, favor assinar o nosso manifesto como pessoa
física ou jurídica e encaminhar essa mensagem para seus contatos.
Junte-se a nós nessa luta por justiça social. Por favor encaminhe
este e-mail também para a sua lista de amigos. Desde já agradecemos.
http://www.petitiononline.com/conaq123/petition.html
Secretaria Executiva da CONAQ
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades

16/03/2009

Assim não é, ainda que pareça!

Filed under: Cultura,Educação,História — jspimenta @ 23:45

Eduardo Galeano

Quando foram expulsos do paraíso, Adão e Eva se mudaram para a África, não para Paris. Algum tempo depois, quando seus filhos já tinham começado a correr o mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas. Também a álgebra foi inventada no Iraque. Por Mohamed al-Jwarizm, há quase 1.200 anos, e as palavras algoritmo e algarismo são derivadas de seu nome.

Os nomes só não coincidem com o que nomeiam. Peguemos um exemplo por acaso: no British Museum, as esculturas do Partenon se chamam Mármores de Elgin, mas são mármores de Fidias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu – a bússola, a pólvora e a imprensa – tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo que a Europa reinventou.

Antes de qualquer um, os hindus sabiam que a terra é redonda e os maias tinham criado o calendário mais exato de todos os tempos.

Em 1493, o Vaticano deu de presente a América para a Espanha e obsequiou a África negra para Portugal, “para que as nações bárbaras sejam convertidas à fé católica”. Na época, a América tinha 15 vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra 100 vezes mais que Portugal.

Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas (transformadas em reduções). E muito.

Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade, pedra por pedra, e com os escombros tapou os canais por onde navegavam 200 mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán se chama México D.F. Por onde corria a água correm os automóveis.

O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia. A avenida mais larga do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charrúas.

John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos. Enquanto nascia o século XVIII, o primeiro dos Bourbons, Felipe V, estreou em seu trono firmando um contrato com seu primo, o rei da França, para que a Companhia de Guiné vendesse negros na América. Cada monarca levava 25% de lucro.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade. Dois dos pais fundadores dos Estados Unidos desvaneceram na névoa da história oficial. Ninguém se lembra de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou seus atos. Carter foi o único prócer da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da constituição, se opôs à clausula que estabelecia que um escravo equivalia a três quintos de uma pessoa.

“O nascimento de uma nação”, a primeira superprodução de Hollywood, estreou em 1915, na Casa Branca. O presidente Woodrow Wilson aplaudiu de pé. Ele era o autor dos textos da película, um hino racista de louvor à Ku Klux Klan.

Desde o ano de 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. Suas vozes eram impuras, por causa de Eva e do pecado original. No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, chamados de “vis ofícios”, que até então implicavam a perda da fidalguia. Até o ano de 1968 o castigo com correias, varas e porretes para as crianças, nas escolas da Inglaterra, era legal.

Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, a Revolução Francesa proclamou, em 1793, a Declaração dos Direito do Homem e do Cidadão. Então, a militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou sua cabeça. Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.

A imperatriz Cristina Teodora nunca disse ser revolucionária nem coisa parecida. Entretanto, por 1.500 anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio eram direitos da mulheres.

O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do norte industrial contra o sul escravagista, foi rapidamente presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, afirmou: “Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo que nos pode oferecer, também adotaremos a liberdade de comércio”. Assim, no ano de 2075 a nação mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.

Lootie Botincito foi o primeiro pequinês que chegou à Europa. Viajou a Londres em 1860. Os ingleses o batizaram com esse nome porque era parte do butim arrancado da China, ao fim das duas longas guerras do ópio. Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a canhoadas. A China foi convertida em uma nação de drogados em nome da liberdade, da liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, da liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, esse pais, o único país da América Latina que não devia um centavo a ninguém, inaugurou sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização a Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que haviam tido assassinando-o.

O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde de que, em 1804, conquistou sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado de sua liberdade.

As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte da Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim é até agora. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos de suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo. Na época, Mark Twain, dirigente da Liga Antiimperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas, e outro escritor, Ambrose Bierce, comprovou: “A guerra é o caminho que Deus escolheu para nos ensinar geografia”.

Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento e os alemães o desenvolveram. Depois Hermann Göring aplicou, na Alemanha, o modelo que seu papai lhe havia ensinado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele haviam estudado o campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negros.

O Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, país natal do führer. O Comitê Olímpico anulou a partida. Não faltaram amigos a Hitler. A Fundação Rockefeller financiou pesquisas raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.

Em 1953 explodiu o protesto da classe trabalhadora na Alemanha socialista. Os trabalhadores se lançaram às ruas e os tanques soviéticos se ocuparam de calar suas bocas. Então Bertolt Brecht propôs: “Não seria mais fácil o governo dissolver o povo e eleger outro?”.

Operações de marketing. A opinião pública é o cartão. As guerras se vendem mentindo, como se vendem os carros. Em 1965, os Estados Unidos invadiram o Vietnã porque o Vietnã havia atacado dois navios dos Estados Unidos no golfo de Tonkin. Quando a guerra havia massacrado uma multidão de vietnamitas, o ministro da defesa Robert McNamara reconheceu que o ataque de Tonkin não havia acontecido.

Quarenta anos depois, a história se repetiu no Iraque. Milhares de anos antes que a invasão estadunidense levasse a civilização para o Iraque, nessa terra bárbara havia nascido o primeiro poema de amor da história universal. Em língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa com um pastor. Inanna, a deusa, amou essa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana. O livro de viagens de Marco Pólo, Aventura de liberdade foi escrito em um cárcere de Genova. Don Quixote de La Mancha, outra aventura da liberdade, nasceu no cárcere de Sevilha.

Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas. Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, tinha não mais que dois dedos em sua mão esquerda. Não tinha mãos Grimod de la Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com ganchos escrevia, cozinhava e comia.

Enviado de Berlim por Hugo Moreno Peralta, diretor de Cesal Ev Berlin, Alemanha.

Versão em espanhol no blog Nuevas Páginas Libres: http://nuevaspaginaslibres.blogspot.com/2008/03/clase-magistral-de-eduardo-galeano.html

Publicado em 25 de novembro de 2008

As primeiras eleitoras do Brasil

Filed under: Cultura,Educação,Feminismo — jspimenta @ 19:07

Pioneiras no exercício do direito de voto surgiram bem antes da Constituição de 1934, conta colunista

Na semana em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher, ganha um doce quem acertar quais foram as primeiras mulheres no Brasil a conquistar o direito de voto. O que quer que você tenha pensado… errou! Pode acreditar: foram as mulheres africanas do Rio de Janeiro.

A história das primeiras eleitoras do Brasil foi resgatada no livro “Devotos da cor”, da antropóloga e historiadora Mariza de Carvalho Soares.

Mas essa história precisa ser mais bem explicada, claro: não estou me referindo ao voto feminino, da maneira como foi definido pelo Código Eleitoral de 1932 e depois ratificado pela Constituição de 1934. Refiro-me às irmandades de “pretos” do século 18, onde as mulheres conquistaram, após muita discussão, o direito de participar do processo interno de tomada de decisões da irmandade, organizado por meio do voto.

Parece pouca coisa, mas não é: na sociedade colonial, onde não havia cidadãos, mas súditos do rei, e sequer se pensava em lutar por direitos políticos, é um bocado importante pensar que um grupo de mulheres reivindicou – e conseguiu – participar das práticas eleitorais de uma associação.

Quem chamou a atenção para esse aspecto da história das irmandades no Brasil colonial foi a antropóloga e historiadora Mariza de Carvalho Soares, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), no livro Devotos da cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século 18 (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000). Nessa obra, Mariza analisa a incrível história da Irmandade de Santo Elesbão e Santa Ifigênia, cuja igreja, construída na rua da Alfândega, em pleno centro do Rio de Janeiro, está lá até hoje.

Associações de escravos

Naquela época, as irmandades eram uma das poucas formas de associação permitidas a escravos africanos. As irmandades eram associações de leigos, que realizavam cerimônias religiosas em espaços privados ou em igrejas construídas por eles. As regras de cada irmandade eram escritas, e as atas de reunião também. Geralmente, os assuntos discutidos eram a administração da morte, bem como o gerenciamento e aplicação de recursos em funerais, festas e auxílio aos membros necessitados.

Os membros da irmandade decidiam questões comuns e disputavam recursos, como em qualquer associação. A diferença era que, em geral, as mulheres só participavam dessas associações como esposas. Em Portugal, era assim com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Mosteiro de São Domingos: só as mulheres casadas com membros da irmandade podiam se filiar. No Brasil, não; nas chamadas irmandades de “homens pretos”, as mulheres se filiavam independentemente de seu vínculo com os homens.

Elas se filiavam e pagavam mas, no início, não votavam nem podiam ser eleitas para a diretoria. (Como em qualquer agremiação, nessas também havia diretoria.) A diretoria – ou Mesa da Irmandade – era formada por 12 homens em 1740, eleita pelo conjunto dos membros.

Inicialmente, as mulheres, mesmo filiadas e contribuindo financeiramente, não tinham participação nas decisões. Com o tempo, porém, elas não só passaram a votar como a ser elegíveis, podendo ser “juízas” e “irmãs de mesa”, cargos de diretoria, que tinham altas esmolas (pagamentos) como condição para seu exercício. Em meados do século 18, a diretoria passou a ser formada por 12 homens e 12 mulheres, em igualdade de condições.

Dinheiro e prestígio

A questão interessante aqui é que provavelmente as mulheres conquistaram o direito de voto e de representação porque tinham meios de pagar esmolas na mesma proporção que os homens. O que nos leva a mais um aspecto interessante da vida de muitas dessas mulheres africanas que vieram parar no Brasil no período colonial: várias conseguiam acumular algum dinheiro, que usavam para se alforriar e para ocupar posições de prestígio no meio onde viviam.

Passeata de sufragettes – ativistas em defesa do voto feminino – em Nova York em 1912. O direito ao foto só seria conquistado em definitivo pelas mulheres dos Estados Unidos em 1920 (foto: Library of Congress).

Votar e ser votado na irmandade era um de seus privilégios. Porém, como esta era uma prerrogativa exclusiva das mulheres “pretas”, africanas, aqui está: na prática, elas foram as primeiras a conquistar e a exercer o direito de voto no Brasil, dentro daquilo que podemos chamar de “direitos de voto” nesse período.

Em tempo: O Brasil se orgulha de ter sacramentado o voto feminino muito antes de vários países, como a vizinha Argentina (1947) ou mesmo a França (1944), e é coisa para se orgulhar mesmo. O que pouca gente sabe é que perdemos a chance de sermos o primeiro país do mundo a estender o direito de voto às mulheres. Quem ostenta o título é a Nova Zelândia, onde as mulheres votam desde 1893.

No Brasil, a questão foi intensamente discutida em 1891, logo após a proclamação da República. Na ocasião, apesar da defesa veemente de vários deputados, houve quem dissesse, como o fez o deputado Coelho Campos, que era “assunto de que não cogito; o que afirmo é que minha mulher não irá votar”. Ele provavelmente não sabia, mas estava mais desatualizado do que podia imaginar!

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
13/03/2009

Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/140323

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