E d u c A ç ã o

13/08/2009

Cultura popular é a nossa!

Filed under: Cultura Brasileira,Cultura popular — jspimenta @ 14:39

O educador Tião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, tem uma forma de se apresentar que já virou bordão: “antropólogo por formação, educador popular por opção política, folclorista por necessidade e mineiro por sorte.” É, então, sobre a sua “necessidade” que nos interessamos na entrevista a seguir. Nela, discutimos o que pode ser entendido por folclore e a relação desse conjunto de saberes e expressões com o dia-a-dia da escola. Para ele, ainda há um salto a ser dado nessa área. “A escola não tem coragem de colocar o folclore na sua atividade básica”, diz. “E com isso não se propõe a aprender a cultura das pessoas.”

Como surgiram os estudos do folclore e com que viés foram produzidos os primeiros trabalhos na área no Brasil?

TIÃO ROCHA – O termo folclore nasceu na Inglaterra praticamente junto com a Antropologia, na segunda metade do século 19 – época em que o Império Inglês vivia em plena expansão. Ao contrário do que fizeram os dominadores do século 16, que usaram seus mitos, por meio da cultura e da religião, para justificar a dominação das colônias, no século 19 recorreu-se à ciência para promover a aculturação. A antropologia surgiu para estudar os povos chamados “primitivos” de fora da Europa. Mas os “primitivos” da Europa – camponeses e artesãos – também precisavam ser conhecidos, apreendidos e dominados. A palavra folclore surgiu, assim, para estudar os costumes e os valores dos povos que, dentro da lógica antropológica, eram cidadãos de segunda categoria. O sentido era tirar deles o que tinham e usá-los como instrumento de apropriação e dominação. Então, essa palavra traz consigo a característica de tomar o outro como desigual. No Brasil, os estudos de folclore começaram a ser realizados no início do século 20, e nossos intelectuais da época usaram isso como instrumento para estudar “os outros” – o estranho, o de longe, o da roça, o negro, o do meio do mato, o analfabeto. Todo esse ranço de discriminação infelizmente está aí até hoje. O que ocorreu um pouco na contramão disso foi o movimento modernista de 1922. Ele propunha romper com a cultura européia e pensar na brasileira, partindo dos brasileiros, sem depender do controle externo. Além do desenvolvimento da pintura, da gravura e da música, a Semana de Arte Moderna também mostrou esse mergulho de procurar nas raízes da cultura brasileira o seu valor. Não mais no sentido do olhar sobre os desqualificados, mas buscando valores que pudessem se afirmar como uma nacionalidade brasileira. Esse movimento abriu perspectivas de estudos mais sistemáticos sobre cultura popular, que redundou em trabalhos como o de [Luis da] Câmara Cascudo [autor, entre outras obras, do Dicionário do Folclore Brasileiro, 1954, Global Editora, 774 págs., 98 reais, tel. (11) 3277-7999], que já tem um sentido muito mais ligado à aprendizagem. A ideia desses folcloristas não era dominar, mas ainda trabalhavam sob a perspectiva do exótico, do diferente. Hoje já se pode dizer que há menos preconceito, mas infelizmente ele ainda existe. E as escolas continuam repetindo esse padrão.

Como podemos definir hoje o que é folclore?

TIÃO – O que chamamos de folclore é a cultura popular tradicional, que se mantém pela tradição. As pessoas aprendem no fazer, dando resposta às suas necessidades. Imagine que um indivíduo teve uma necessidade de qualquer natureza: ele estava com fome, pegou uma fruta e comeu. Ele pôs na boca, porque achou que aquilo ia matar a sua fome. Com isso, descobriu muitas coisas: que tinha sabor, que era prazeroso, etc. Ou então que matava a fome, mas que dava dor de barriga. É ação e reação imediata. A partir de uma necessidade, ele precisa de uma resposta. Se essa resposta funcionou uma, duas, três vezes, você passa a usá-la. Isso chama-se uso. ‘Eu uso isso quando tenho tal dor’, por exemplo. Esse uso individual e rotineiro vai se constituir em um hábito. Quando isso sai do âmbito individual e vai para a coletividade da família, do grupo, esse hábito vira costume, porque deixou de ser uma resposta individual para ser do coletivo. As pessoas sabem que comer tal coisa funciona ou não, e repassam isso. Com o tempo, essas coisas vão sendo passadas e incorporadas e assim viram tradição. E a tradição não é algo do passado, é contemporânea, é o que você vê hoje, o que chegou aos dias atuais.

De que forma a escola pode trabalhar as culturas populares?

TIÃO – Todos os meninos brasileiros poderiam encontrar na escola um espaço para levar, discutir e trocar a cultura apreendida em casa, na rua e no bairro. Trabalhar com as tradições que ainda se mantêm. Pode ser na avenida Paulista, na favela, no Morumbi ou no campo, no centro ou na periferia. O que as pessoas daquela rua, daquele prédio têm de tradições? Veríamos muitas coisas: regras, cantigas de ninar, provérbios, pensamentos, linguagem oral. E é isso que os meninos carregam consigo quando chegam à escola, essa cultura caseira – em qualquer família, não importa o nível econômico. Isso deveria ser usado para facilitar a entrada na escolaridade. As histórias que ouviram da avó, da mãe, as cantigas de ninar, os ritos de passagem – como a família comemora aniversários, casamentos, batizados -, os brinquedos, as brincadeiras. Conhecer tudo isso é melhor do que aprender sobre Saci – algo que para a maioria é um negócio quase extra-terrestre.

O trabalho estereotipado com mitos e lendas (como a do Saci, da Iara e do Curupira) tornou-se praticamente o único a ser realizado nas escolas. De onde vem essa tradição e por que ela é prejudicial?

TIÃO – O modelo seletivo e discriminatório do início do século sobre a cultura popular continua a vigorar e se relaciona com as várias formas de preconceito existentes. Isso entra na escola porque nós vivemos numa sociedade bipolar, dicotômica: são os superiores e os inferiores, o branco e o negro, o homem da cidade e o da roça, o do centro e o da periferia. Essa dicotomia se reproduz na vida e também nos padrões de ensino. Mitos como o do Saci e do Curupira passaram pela “folclorização” da cultura popular, o que em si já é uma grande discussão. Transformaram-se, nessa abordagem, em uma coisa descontextualizada, que ficou presa num passado remoto e, em geral, acaba nem tendo sentido na atualidade. O problema é a cultura popular se resumir a emblemas que estarão presentes e serão comemorados apenas eventualmente na escola. É a mesma coisa que se fez com o índio, com o meio ambiente, com o dia da árvore: durante todo o resto do ano, esses temas não interessam. Isso transforma a cultura popular em um produto, algo sem sentido, desconectado de qualquer lógica que sobreviva por si. Infelizmente, o que a nossa escola vem fazendo com a cultura popular é um desperdício. Ela não tem coragem de colocar isso na sua atividade básica, não se propõe a aprender a cultura das pessoas.

É importante a escola trabalhar outras culturas populares, que não a da comunidade em que está inserida?

TIÃO – Eu acho que é importante, desde que ela comece pela cultura de seu aluno. Se ela começa com aquilo que o aluno traz, fica mais fácil para ele entender todas as outras, do ponto de vista da diversidade cultural. A criança só pode entender a diversidade se ela se sente parte disso. Caso contrário, será sempre o outro, o diverso, que cai na perspectiva do exótico. O que é diferente costuma ser complicado, porque não figura como igual. Se as crianças perceberem que elas jogam amarelinha de um jeito em seus contextos, e que a brincadeira se faz de outra forma no bairro vizinho, elas passam a encarar as duas formas de brincar como semelhantes.

Qual a relação das culturas populares com a formação da identidade da criança e com a constituição de uma identidade nacional?

TIÃO – As crianças precisam passar por um processo de apropriação coerente com a sua idade, o seu ritmo e seu contexto. Não faz muito sentido nem acelerar esse processo nem pular etapas. A criança não vai se sentir brasileira antes de reconhecer a sua família. Não adianta falar de outro mundo se ela não conseguir perceber a sua rua, o seu bairro, a sua pequena comunidade – aquilo que é visível, palpável, o que ela toca. Depois disso é que ela começa a perceber que consegue participar de outras coisas e vai se sentir brasileiro. A meu ver, esse é o processo para que ela se sinta cidadã do mundo. A escola tem que conversar com o mundo, mas não adianta querer falar da China só porque está na onda, é o país do futuro. Falar da China vem depois de se falar da gente.

Quando se pensa em folclore, é comum associar suas expressões à cultura oral. Isso dá margem a pensar que cultura popular e escrita são incompatíveis. Essa ideia tem fundamento?

TIÃO – Isso tem a ver com as origens da cultura popular tradicional. Se o povo que era detentor da cultura não tinha acesso à escrita – código que era próprio das classes abastadas – ele era ágrafo. A oralidade tem sido o maior instrumento de manutenção, de manifestação e de preservação da cultura popular. Portanto, ela é muito mais vulnerável e a tendência é ela se perder porque não se cristaliza no registro, no documento escrito, sistematizado. Mas o fato de as pessoas passarem a dominar esses códigos e produzir registros escritos não significa que elas foram perdendo a sua tradição.

As produções contemporâneas podem virar folclore?

TIÃO – Sim. Vamos pensar na questão dos ritmos musicais do Brasil. Qual é a possibilidade de os axés um dia se transformarem e virarem cultura popular? Esse processo é resultado da apropriação e da incorporação como valor pelo povo. Isso já ocorreu com outros elementos que vieram de uma produção de elite – a valsa, por exemplo, que se transformou nos xotes populares, na dança. O mesmo aconteceu com outros tipos de música como o xaxado, as modas de viola. Há um processo de apropriação do popular e, se fizer sentido, cria-se um valor nisso para aquela gente. Ao mesmo tempo há o artesanato tradicional, por exemplo, que atende a determinada função, mas que vai mudando. Em função do tempo que passa, da modernidade, certos elementos vão sofrendo alterações. Alguns se mantêm, outros não, e surgem novos. Por isso, as produções contemporâneas podem virar folclore um dia. Trata-se de um processo que fica cada vez mais complexo, ainda mais se consideramos a atual velocidade e facilidade das conexões imediatas da internet e as informações vindas de toda parte do mundo.

Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/folclore/entrevista-folclore.shtml

Anúncios

10/08/2009

Paradoxos da democracia…

Filed under: Cidadania,Cultura Brasileira,História — jspimenta @ 17:18

ENTREVISTA -JOSÉ MURILO DE CARVALHO, HISTORIADOR

JOSÉ MURILO de Carvalho: “A democracia no Brasil ainda é muito precária” (Foto: Chico Silva)

O historiador José Murilo de Carvalho é um incansável pesquisador sobre a construção da cidadania no Brasil. Nesta entrevista, ele expõe problemas relacionados ao Brasil do oitocentos, os difíceis primeiros anos da República e explica os diversos dilemas da democracia brasileira

A passagem da Monarquia para a República se deu, como sabemos, através de um golpe militar. O jornalista Aristides Lobo, inclusive, cunhou a expressão “bestializados” . Ele referia-se ao povo que nada sabia do golpe. O senhor utilizou a expressão de Aristides para o título de um livro sobre o assunto. Quer dizer, o Brasil simplesmente dormiu monarquista e acordou republicano. ..

Esse é um tema muito complexo. Veja que o Manifesto Republicano é de 1870. Desde então, assistiu-se a uma propaganda aberta a favor da República. Jornais e clubes republicanos, tanto na Corte, quanto em São Paulo e alguns Estados do País – Rio Grande do Sul e Minas Gerais, principalmente – pregavam o fim da Monarquia e o advento do regime republicano. A própria Monarquia, abordei isso no meu livro, estava perdendo rapidamente a legitimidade das camadas letradas do País. Após a Abolição, ela perdeu também a legitimidade entre os proprietários rurais, ex-proprietários de escravos. Além disso, existiram conflitos com a Igreja. Outro problema era relativo à sucessão de Pedro II. As elites intelectuais e econômicas do País não viam com bons olhos um terceiro reinado com a princesa Izabel, uma mulher casada com um francês, o conde D`Eu. Havia um certo caldo de cultura contra o Império. Agora, o que ocorreu em si foi o envolvimento militar. Eles acabaram, por proclamar a República em 15 de novembro de 1889, quando um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de Estado e depôs o D. Pedro II. Muitos republicanos não sabiam do movimento militar. Nem um dos maiores republicanos, Silva Jardim.

Por que D. Pedro II não coibiu o movimento republicano?

Ele deixava correr. Em relação a essas coisas era muito “zen”, como diríamos hoje. Para ele, era um movimento de jovens, sem grande importância. Por outro lado, desde 1877 ele se encontrava doente. Realmente, não estava controlando a situação. Até o último momento não acreditou no que estava ocorrendo. Por causa do golpe, Aristides Lobo cunhou a expressão “Bestializados” . Realmente, as pessoas não sabiam do que se tratava. Agora, não devemos interpretar isso como se a Proclamação da República fosse algo que não tivesse base, nenhuma raiz. Isso seria exagero.

A problemática está numa pergunta: como foi programado o golpe, já que deixou de fora civis e políticos republicanos?

Na verdade, nunca ocorrera algo parecido na história brasileira. Em conseqüência, os primeiros dez anos de República foram de uma permanente perturbação da ordem. Guerras civis, revolta armada no Rio de Janeiro, revolução federalista no Sul, Canudos, na Bahia. Foram anos de grande inconstância. Talvez porque o processo tenha sido feito de uma maneira um tanto estranha, quer dizer, alheia à própria movimentação dos republicanos civis. Muitos deles só queriam a República após a morte de D. Pedro II. Aí, sim, fariam a transformação do regime monárquico para o republicano de uma maneira pacífica, menos radical. Por isso, tanta polêmica em torno do 15 de novembro. Alguns interpretam o 15 de novembro como algo que tenha caído do céu. É preciso analisar todo o contexto. Tínhamos partidos republicanos já organizados.

Para alguns, o grande paradoxo é que D. Pedro II centralizou muito o poder na Corte…

Eu não diria que ele centralizou o poder. Quando assumiu o poder, o processo de centralização tinha sido realizado pelos grupos da elite política, desde 1837, com o chamado regresso conservador. Pedro II só assume realmente o poder a partir dos anos 50 dos oitocentos. Não que ele desejasse, mas de certo modo foi obrigado. Havia um certo vácuo. Na minha interpretação, conservadores e liberais viviam às turras. Foram muitas revoltas envolvendo os dois partidos. D. Pedro II foi uma espécie de juiz entre essas duas facções. Tinha o Poder Moderador, cujo sentido era muito concreto: permitia que essas duas facções assumissem o poder em turnos e uma não excluísse a outra.

A República herdou muita coisa do Império. O sistema patrimonialista brasileiro, por exemplo…

Vamos por etapas: a abolição da escravidão foi uma revolução social. Com a Proclamação da República, não tivemos revolução nenhuma. Foi apenas uma mudança política. Tirou-se do poder um monarca, hereditário, e se colocou um presidente com período marcado para exercer o poder. Os presidentes ficavam apenas quatro anos no poder. Mesmo assim, muita coisa não mudou. Exceto a distribuição do poder entre os Estados. Quer dizer, a grande transformação foi a implantação do federalismo. Criou-se, a partir de Campos Sales, a famosa aliança política entre os Estados e o que muitos chamam da política café com leite. Os principais Estados, como Minas e São Paulo, comandavam o processo político.

E nos demais Estados?

O Sérgio Buarque de Holanda tem uma frase curiosa: o Império dos senhores de terra no Brasil adquiriu maior poder com o fim do Império. Nesta quadra se formaram as oligarquias regionais. Muitas delas condicionavam o comportamento do presidente da República.

Vivenciamos duas fortes ditaduras – a de Vargas (Estado Novo) e a militar a partir de 64. O Brasil começou a desenvolver um processo democrático nos meados dos anos 80 do século passado…

Democracia é algo que nunca se completa. É um caminho que vamos trilhando com idas e vindas, progressos e retrocessos. Se entendermos democracia como um sistema comandado pela lei, com ampla participação popular, mesmo fora dos períodos eleitorais, liberdade de imprensa, é uma coisa… Se analisarmos a democracia de um ponto de vista mais amplo, é outra. Significa não apenas a participação política das pessoas, mas o que chamaria de cidadania e igualdade civil, passando por uma melhor distribuição de renda e acesso à Justiça. Ora, isso não temos no Brasil. Pessoas com recursos escapam facilmente das malhas da justiça. Assistimos a milhões de escândalos nos últimos anos. Pergunto: quem está na cadeia? Ninguém. A desigualdade econômica é terrível. Temos distâncias quilométricas entre o topo e a base da pirâmide. Então, a democracia no Brasil ainda é algo muito precário. Nossas câmaras legislativas estão envolvidas há muito em um rosário de escândalos. Ainda temos que avançar muito no nosso processo democrático.

Numa análise mais macro tudo indica que esse processo tem raízes no passado.

Fomos submetidos a golpes militares. Depois de 1945, vivenciamos uma expansão democrática. Assistimos ao golpe de 64. Foram 21 anos. Depois, a democracia foi restabelecida. O impeachement de Collor foi absolutamente dentro da lei. Até hoje, felizmente, não passamos por novo golpes.

O senhor escreveu uma biografia sobre Pedro II que, logo, transformou- se num best-seller. Por que os historiadores têm tanto medo das biografias?

A biografia é de modo geral algo que interessa muito às pessoas. Os historiadores brasileiros não se aventuram muito a escrever biografias. Olham de uma maneira meio atravessada. Como se o gênero não estivesse à altura deles. Sempre foram os jornalistas que exploraram o gênero biográfico. E com muito sucesso. As pessoas, afinal, gostam de saber da vida dos outros. A Companhia das Letras me encomendou a biografia sobre D. Pedro II. Fiquei com receio, pois não tinha experiência nesse campo. Agora, os jornalistas escrevem bem, com clareza, elegância, atributos que faltam aos historiadores. Parte dos historiadores são muito rigorosos na pesquisa, mais do que os jornalistas. Principalmente, com relação às fontes. Aliás, muitos deles chegam a interpretar e criticar suas fontes de pesquisa. Não colocamos nada em nossos livros sem uma ampla pesquisa e uma documentação precisa. Quando se trabalha assim, o historiador termina por colocar uma multidão de notas de rodapés na páginas. A leitura é muitas vezes cansativa. Atualmente, existe uma maior preocupação dos historiadores com relação à escrita, ao estilo. Isso é que atrai o leitor. Na França e na Inglaterra muitos escritores escrevem biografias com grande êxito. Conscientemente, faço um esforço nessa direção. Discuto muito esse problema com meus alunos e colegas. A história é algo que afeta todo o mundo. E existe também uma grande demanda pela História. Não só no Brasil, mas em todo o mundo. Quando você escreve para uma revista especializada pode até utilizar uma linguagem mais acadêmica. Mas, no suporte livro, você deve escrever de maneira clara e objetiva. Só assim atingirá o grande público.

FIQUE POR DENTRO:
Interpretação sobre o Brasil dos oitocentos.

O historiador José Murilo de Carvalho organizou o livro “Repensando o Brasil do Oitocentos – Cidadania, Política e Liberdade” (Civilização Brasileira, R$ 49,49). O livro resultado de um grupo de estudos formados por historiadores de diversas universidades do País – Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, principalmente. Para José Murilo, a palavra cidadania é termo recorrente em “ambientes diferenciados da discussão pública”, principalmente hoje, quando se consolida o direito do cidadão em suas práticas políticas, civis e sociais. Os direitos políticos teriam se desenvolvido no século XIX, e os civis e sociais no século XX. José Murilo de Carvalho é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

JOSÉ ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3 DIÁRIO DO NORDESTE.

13/07/2009

O patrimônio da diferença!

Filed under: Índios,Cultura Brasileira,Estudos Culturais — jspimenta @ 17:19

JC e-mail 3803, de 13 de Julho de 2009.

Artigo de Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga e professora da Universidade de Chicago. Artigo publicado na “Folha de SP”: para antropóloga, história do país revela sucessivas tentativas de negação da existência física e cultural dos índios.

Há um grande divisor de águas na maneira de se perceberem os índios. Até muito recentemente – e ainda existem resquícios felizmente cada vez mais isolados dessa visão – entendia-se que os índios estavam aí como resquício do passado e destinados a desaparecer física e culturalmente.

A partir sobretudo do final da década de 1980, percebeu-se que os índios estavam aqui para ficar, e que faziam parte do futuro do Brasil.

As variações sobre esses temas são muitas: na colônia, procurava-se evangelizar os índios, escravizá-los ou pelo menos transformá-los em trabalhadores braçais, em suma incorporá-los por baixo à sociedade colonial. Morreram nos aldeamentos aos milhares, em poucos anos, de causas então desconhecidas.

Uma explicação teórica a essa mortandade chegou no final do século 18: biologicamente, afirmou-se com De Pauw, o Novo Mundo era um local de senescência precoce, em que não havia grandes mamíferos como na África e onde a civilização não podia prosperar porque a humanidade era acometida de prematura velhice antes de poder atingir a plena maturidade.

O desaparecimento dos índios se tornava assim, pela primeira vez, um destino biológico. Quase um século mais tarde, o darwinismo social explicava pela seleção natural o declínio populacional dos índios sem aparentemente atentar para as guerras movidas nesse período aos índios em todas as Américas para controle das terras.

Outra vertente de programas de desaparecimento biológico dos índios eram as políticas de miscigenação, das quais a mais famosa foi a do marquês de Pombal em 1755, mas que José Bonifácio endossou na tentativa de criar uma nação homogênea correspondendo ao novo Estado do Brasil.

O século 19 agregou a noção de civilização à de catequização e em larga parte a substituiu. O “progresso” -para o qual os índios estavam “atrasados”- sucedeu à “civilização”, da República até o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois do “progresso”, veio o “desenvolvimento”. Em muitos sentidos, catequização, civilização, progresso e desenvolvimento são avatares uns dos outros na medida em que preconizam mudança cultural. Mas há diferenças significativas.

Etapas da cobiça

O historiador José Oscar Beozzo distingue com razão dois grandes períodos da política indigenista no Brasil: até cerca de 1850, os índios eram sobretudo cobiçados como mão de obra; a partir de 1850, cobiçavam-se sobretudo as terras deles.

“Desinfestar os sertões” do país dos seus índios passou a ser entendido como condição de progresso. Aldeá-los fora de seus territórios tradicionais era um modo de dar acesso às terras deles. O mapa das terras indígenas no Brasil de hoje é o mapa das terras que até recentemente não interessavam a ninguém.

Foi com a cobiça de suas terras que os índios passaram a ser considerados como entraves, empecilhos ao desenvolvimento. Agora um programa de assimilação passava a ser estratégico para tentar descaracterizar legalmente os índios enquanto sujeitos de direitos territoriais, reconhecidos pelo menos desde 1680 e inscritos em todas as Constituições brasileiras desde a de 1934.

As tentativas de “emancipação” dos índios das décadas de 1970 e 1980 repetiram estratégias do último quartel do século 19 que dissolviam aldeamentos a pretexto de que os índios estivessem misturados com o resto da população. “Desenvolvimento” foi o mantra do pós-guerra e em nome dele fez-se por exemplo a Revolução Verde [que disseminou novas técnicas agrícolas].

Outra ideia mestra, provocada pelos horrores do racismo nazista, foi a do direito à igualdade, inscrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, de 1948, e também na Convenção 107 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1957, essa respondendo ao racismo do apartheid. O direito à igualdade, essencial sem dúvida, de certa forma obnubilou outro direito fundamental, o direito à diferença.

Sartre já dizia que a forma de racismo liberal era aceitar a igualdade dos homens desde que despidos de qualquer especificidade cultural.

A grande inovação do final dos anos 1980 e que ganhou corpo nos anos 90 foi o reconhecimento desse direito à diferença. A grande introdutora desse direito no âmbito internacional foi a Convenção 169 da OIT, adotada em 1989, que revisava em grande parte a convenção de cunho assimilacionista de 1957.

Uniformidade nacional

No domínio da diferença, a questão da língua sempre foi sensível: é provavelmente o traço mais reconhecível de todo grupo étnico. Há pouco tempo ainda se proibia falar ou publicar em catalão na Espanha, com a consequência -curiosa, aliás- de que há toda uma geração catalã que não sabe escrever sua língua porque apenas a falava em casa, clandestinamente.

A ideia de que cada país deva falar uma única língua faz parte de uma concepção de Estado do século 18, assente em uma única comunidade homogênea em todos os seus aspectos: religiosos, linguísticos, culturais em geral. Ora, países como esses são a exceção, e não a regra.

Mas, durante pelo menos dois séculos, tentou-se no Ocidente dar realidade a essa utopia. No Brasil não foi diferente. Em 1755, o marquês de Pombal exigiu o uso do português e proibiu o do nheengatu, um tupi gramaticalizado pelos jesuítas e introduzido pelos missionários na Amazônia.

Nos últimos 20 anos, a situação mudou consideravelmente: na Constituição de 1988 se assegura às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas no ensino fundamental e agora abundam cartilhas em línguas indígenas. Há alguns anos, o município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, reconheceu quatro línguas oficiais, das quais três são indígenas. E, agora, o IBGE anuncia que incluirá as línguas indígenas nas perguntas do próximo Censo.

Todas essas iniciativas marcam uma distância clara da ideologia assimilacionista de algumas décadas atrás. A diferença linguística -e o Brasil tem pelo menos 190 línguas indígenas- passou a ser vista como patrimônio. Dessas 190 línguas e dialetos, a grande maioria é falada por menos de 400 pessoas. Ora, a estrutura e a gramática das línguas encerram toda uma visão de mundo: Benveniste mostrou, por exemplo, que as categorias da filosofia de Aristóteles eram as próprias categorias gramaticais do grego. Calculem os riscos que corremos.
(Folha de SP, 12/7).

09/06/2009

Astronomia indígena prevê ocorrência da pororoca

Filed under: Índios,Cultura,Cultura Brasileira,Etnoastronomia — jspimenta @ 20:13

248
JC e-mail 3779, de 09 de Junho de 2009.

Índios brasileiros sabiam da influência da lua sobre as marés muito antes de Galileu e Newton. Assunto será abordado na 61ª Reunião Anual da SBPC, em Manaus, no próximo mês de julho.

Ao observarem atentamente o céu quando as águas dos mares e rios se agitavam, os indígenas brasileiros fizeram uma descoberta que Galileu Galilei ignorou e Isaac Newton chegou à mesma conclusão somente quase um século depois: que a lua é a principal causadora das marés.

E que a pororoca, o fenômeno provocado por elas, em que as águas bravias do mar se chocam violentamente contra as de rios, como do Amazonas, dando origem a grandes ondas, ocorre próxima às fases da lua nova e cheia, conforme hoje se sabe e eles já descreviam em seus antigos mitos.

Em 1632, Galileu Galilei publicou o livro “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo: ptolomaico e copernicano”, em que afirma que a principal causa das marés seriam os dois movimentos circulares da Terra: o de rotação em torno de seu eixo, que ocorre todos os dias, e o de translação em torno do sol, que acontece anualmente, desconsiderando a influência da Lua. Somente em 1687, Isaac Newton demonstrou que a causa das marés é a atração gravitacional do sol e, principalmente, da lua sobre a superfície da Terra.

Mas, antes da publicação da obra de Newton, em 1614, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville publicou em Paris o livro ““Histoire de la mission de pères capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines”. Na publicação, d’Abbeville narra suas observações do convívio por quatro meses com índios tupinambás, da família dos tupi-guarani, no Maranhão, localizados perto da Linha do Equador.

Uma das anotações do missionário francês diz que “os tupinambás atribuem à lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. O que confirma o conhecimento por esses povos da relação entre as marés e as fases da lua muito antes das teorias de Galileu e de Newton.

“Todas as civilizações antigas, antes de terem escrituras e se tornarem de nômades a sedentários, liam os astros para construírem calendário e buscarem orientações para regular suas vidas”, aponta o autor da descoberta, o astrônomo Germano Bruno Afonso, professor visitante do CNPq na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 61ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 12 a 17 de julho, em Manaus (AM).

Descobertas – No final da década de 70, Afonso fez seu doutorado na França, onde teve acesso ao livro de d’Abbeville, em que o capuchinho francês menciona alguns nomes de constelações em tupi, tais como, “curuçá” (cruzeiro do sul), “seichu” (plêiades), “tuibaé” (velho) e “nhandutim” (ema). Ao analisá-los mais detidamente, constatou que as constelações tinham correspondentes em guarani, hoje, embora estejam separadas pela distância – em mais de três mil quilômetros – e pelo tempo, em cerca de quatrocentos anos. Baseado nessa descoberta, começou a estudá-las em todas as regiões do Brasil.

“Em outros países, essa disciplina, a etnoastronomia, é muito estudada. Já se sabe muito sobre os incas, maias e navajos, por exemplo. Mas sobre os índios brasileiros, não se conhece nada. Só é possível ampliar o conhecimento sobre eles em trabalhos de campo, porque não existe nada nas bibliotecas”, avalia o especialista, que fez outra grande descoberta ao justamente se embrenhar em um desses trabalhos de campo.

Em 1991, arqueólogos acharam às margens do Rio Iguaçu, no Paraná, onde estava sendo construída uma hidrelétrica, um material arqueológico que não conseguiram entender seu significado. Ao estudar a rocha vertical, o pesquisador identificou que se tratava de um instrumento de observação solar, conhecido como “gnômon”. “Ele tinha quatro faces talhadas para os pontos cardeais. Fui falar com os guaranis daquela região, para ver se aquilo tinha sentido para eles, e percebi que havia. Depois, encontrei instrumentos semelhantes a ele em diversos outros locais do Brasil”, conta.

De acordo com o pesquisador, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Por meio da observação da lua, eles sabiam, por exemplo, que há uma maior incidência de mosquitos na lua cheia do que na lua nova. O que poderia ser útil para os órgãos de saúde no Brasil combaterem hoje o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, determinando qual o melhor período para promover ações de dedetização.

A palestra do astrônomo Germano Bruno Afonso será realizada no dia 17 de julho, às 10h30, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A Reunião Anual, cujo tema é “Amazônia: Ciência e Cultura”, contará com 175 atividades, entre conferências, simpósios, mesas-redondas, grupos de trabalho, encontros e sessões especiais, além de apresentação de trabalhos científicos e minicursos.

Veja a programação em http://www.sbpcnet.org.br/manaus
(Assessoria de Imprensa da SBPC).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63966

16/05/2009

Padrão linguístico uniforme é pura ilusão!

Filed under: Cultura Brasileira,Linguística — jspimenta @ 8:07

Suelen Érica Costa da Silva*

Pretendo estabelecer aqui um diálogo com os profissionais da educação, procurando compreender como se criou a ilusão de que é possível existir um padrão linguístico uniforme e o que essa concepção ocasiona para o ensino de Língua Portuguesa nas escolas.

palavra_img1

Posso começar a dizer que a ilusão da existência de um padrão linguístico uniforme nasce e é difundida através da ideologia das gramáticas normativas brasileiras e por seus escritores que ainda se apegam à ilusão da “língua única”, considerando que os modelos gramaticais são infalíveis, apresentando a língua padrão como sendo, na verdade, a Língua Portuguesa.

Tal equívoco entre língua e gramática preocupa-me, pois dá origem ao preconceito linguístico, criando o rótulo de que toda e qualquer variedade da língua associada à diferença ética, regional, de classe social que se afasta do padrão linguístico imposto pelas gramáticas normativas é “feia”, “errada”, “corrompida”.

Corrompida e incorreta é, na verdade, a escola que se fundamenta na ideologia de um padrão linguístico uniforme, supondo que ensina língua, mas comete, na verdade, um grande equívoco pedagógico, pois língua não são normas e regras gramaticais, um produto pronto e acabado, cristalizado.

Penso que abolir o mito da existência de um padrão linguístico uniforme é propiciar um ensino de língua que mostre aos educando que nossa língua possui variedades, mas ainda existem profissionais que querem contribuir para a proliferação do preconceito linguístico, adotando uma pedagogia que considera a língua como um sistema de regras, reforçando concepções que o aluno possui a respeito do português: “é difícil”, “não sou capaz de aprender”.

Ao ensinar somente gramática normativa, a escola tenta destruir a essência de toda e qualquer língua: a sua capacidade de mudança, variação, modificação no tempo, no espaço e de acordo com a situação comunicativa.

Abolir a existência de um padrão linguístico uniforme no ensino de Língua Portuguesa é libertar a escola e seus profissionais, principalmente os professores de Língua Portuguesa, do mito da língua única, reconhecendo que a língua é viva, portanto dinâmica, variável, um elástico.

*Professora substituta de Redação e Língua Portuguesa do Centro de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET / Unidade Araxá. Aluna do curso de Especialização em Língua Portuguesa: Leitura e Produção de Textos da Universidade Federal de Minas Gerais.

Disponível em: http://www.jornal.editoradimensao.com.br/11a_ed/palavra.html

10/05/2009

Textos de Cultura Brasileira – Pedagogia

Filed under: Cultura Brasileira — jspimenta @ 18:37

Cultura – Déa Fenelon

O que é Cultura  (Apresentação de Power Point)

 

 

Blog no WordPress.com.