E d u c A ç ã o

04/11/2009

Brasil celebra antropólogo, mas esquece lição política

Filed under: Antropologia — jspimenta @ 19:57

JC e-mail 3882, de 04 de Novembro de 2009.

“Orgulho” por laços entre o intelectual e o país não incluiu seus “mestres” locais, os índios

Rafael Cariello escreve para a “Folha de SP”:

Claude Lévi-Strauss é, entre os grandes intelectuais do século 20, talvez um dos nomes mais conhecidos no Brasil, mesmo por pessoas que nunca chegaram a ler um parágrafo que tenha sido escrito pelo “pai do estruturalismo”.

Além de nome familiar, quase todo brasileiro que tenha terminado algum curso universitário sabe que o antropólogo participou do grupo de professores franceses que ajudou a criar, nos anos 30, a Universidade de São Paulo, símbolo de certa modernidade brasileira e ainda hoje a melhor instituição de ensino e pesquisa no país.

Não são essas as únicas razões que fizeram esse intelectual francês, nascido na Bélgica, se tornar, curiosamente, uma espécie de “orgulho nacional” brasileiro.

Como se sabe, o contato de Lévi-Strauss com diferentes populações indígenas do país, em expedições ao então “remoto” oeste brasileiro na segunda metade da década de 1930, forneceram material rico, “bom para pensar”, que contribuiria decisivamente para sua obra futura.

E são também narrativas míticas recolhidas por outros autores em grupos “brasileiros”, entre eles os bororos, que já haviam sido visitados pelo antropólogo em Mato Grosso, que dão o pontapé inicial e perpassam toda a sua obra maior, as “Mitológicas”, quatro volumes sobre a lógica do pensamento ameríndio, em particular, e sobre as próprias condições do pensar, de modo geral.

Cegueira

Como se vê, Lévi-Strauss aprendeu muito com o Brasil, e era razoável que isso terminasse sendo utilizado de forma provinciana, dirão alguns, ou como elemento de uma saudável autoestima, dirão outros. O interessante é que essa lógica narcisista, essa reiterada associação entre o antropólogo e o país depende de um constante esquecimento, uma cegueira mesmo, sobre o que ele de fato escreveu sobre nós, e sobre o que, exatamente, somos esse “nós” (os brasileiros).

Esse “Brasil” com que tanto aprendeu Lévi-Strauss é constituído justamente pelos brasileiros que, ao longo de todo o século 20, o país teimou em esconjurar, em negar – o Brasil das dezenas de grupos indígenas que não desapareceram e que, pesquisas demográficas recentes demostram, voltou a crescer e está aí para ficar.

Enquanto Lévi-Strauss utilizava as preciosas lições que aprendera com grupos indígenas do cerrado e da Amazônia brasileira (sobre outros modos de relacionar natureza e cultura, diferentes concepções metafísicas, lógicas de organização social) para criar um dos pensamentos mais influentes da segunda metade do século 20, a maioria dos brasileiros olhava para os “mestres” do antropólogo como um símbolo de atraso a ser superado ou esquecido, um motivo de vergonha fadado felizmente (eles acreditavam) a desaparecer.

Ao mesmo tempo em que valorizava esse Brasil de que os próprios brasileiros se envergonhavam – Lévi-Strauss pode ser descrito como “carinhoso” ao falar de povos como os nambiquara e os bororo -, o antropólogo foi duro, em alguns momentos implacável, ao apresentar suas impressões sobre a sociedade brasileira urbana, envolta em sua permanente disputa por status.

Para os estudantes da USP recém-montada, escreve Lévi-Strauss em “Tristes Trópicos”, “ideias e doutrinas não ofereciam […] um interesse intrínseco, consideravam-nas como instrumentos de prestígio cujas primícias deviam conseguir”. “Partilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a usar um vestido já visto.”

Se uma teoria europeia “antiga” já não valia nada nesse gosto vulgar pelo “moderno”, utilizado como signo de prestígio, que dizer dos povos indígenas e suas ideias?

Se, em regra, as coisas não são muito diferentes hoje, é justo notar que foi exatamente no ramo da antropologia, fortemente influenciada por Lévi-Strauss mesmo quando esse autor estava “em baixa”, nas últimas décadas, que a academia brasileira conseguiu formar alguns dos seus principais pensadores – nomes como Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro -, reconhecidos hoje entre os principais cientistas sociais em atividade no mundo.

(Folha de SP, 4/11)

Antropólogo Claude Lévi-Strauss morre aos 100 anos

Filed under: Antropologia — jspimenta @ 19:53

JC e-mail 3882, de 04 de Novembro de 2009. 

Fundador da antropologia estruturalista faleceu em Paris no último fim de semana Fábio de Castro escreve para a “Agência Fapesp”: O antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, na madrugada do último domingo, dia 1º. O anúncio foi feito apenas nesta terça-feira, dia 3, pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (França). Conhecido como o fundador da antropologia estruturalista, Lévi-Strauss participou, na década de 1930, da missão francesa que organizou alguns dos cursos da Universidade de São Paulo (USP) pouco após sua fundação, em 1934. De acordo com Fernanda Arêas Peixoto, professora do Departamento de Antropologia da USP, a influência intelectual de Lévi-Strauss – que realizou no Brasil seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas – transcende a antropologia. “Ele foi sem dúvida um dos maiores antropólogos da história e, a partir de seus trabalhos ligados ao âmbito do parentesco e dos mitos, influenciou todos os ramos da antropologia. Mas, especialmente a partir de 1962, com a publicação de Pensamento selvagem, sua obra passou a dialogar com a filosofia. Daí em diante, o estruturalismo adquiriu uma importância enorme, com impacto na filosofia, na psicanálise, na crítica literária e nas ciências humanas de modo geral”, disse à Agência Fapesp. Segundo Fernanda, que em 1991 defendeu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a dissertação de mestrado Estrangeiros no Brasil: a missão francesa na USP, o inegável impacto do pensamento de Lévi-Strauss sobre a antropologia brasileira se deu por meio de sua obra posterior à estadia no país. “Na época da missão francesa, entre 1935 e 1938, ele era um jovem etnógrafo em período de formação. No Brasil, fez suas primeiras pesquisas de campo e trabalhos etnográficos. Publicou aqui seus primeiros trabalhos. Durante a Segunda Guerra Mundial, fixou-se nos Estados Unidos, onde completou sua formação”, contou. A leitura de Lévi-Strauss feita pelo norte-americano David Mabury-Lewis, na década de 1960, exerceu forte influência na antropologia brasileira, reintroduzindo no país a obra do antropólogo nascido em Bruxelas, de acordo com Fernanda. Segundo ela, Mabury-Lewis participou naquele período do projeto Harvard-Brasil Central, realizado pelo Museu Nacional em parceria com a Universidade de Harvard (Estados Unidos). Sob orientação de Fernanda, a mestranda Luiza Valentini está atualmente realizando uma pesquisa sobre a interação entre Lévi-Strauss, Dina Dreyfuss (sua esposa na época da missão francesa) e o escritor Mário de Andrade, que na década de 1930 empreendeu um amplo trabalho de campo sobre manifestações da cultura popular brasileira. O trabalho tem base em documentação inédita da Sociedade de Cultura e Folclore dirigida por Andrade na época. “Mário de Andrade foi muito marcado por essa colaboração”, disse Fernanda. Tristes trópicos “Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso Tristes Trópicos, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês”, divulgou a reitoria da USP em nota oficial. Em 1927, Lévi-Strauss iniciou seus estudos em filosofia. Começou a lecionar em 1932. Em 1935, levado pelo “desejo da experiência vivida das sociedades indígenas”, como contou, aceitou lecionar na USP durante três anos. Nesse período, empreendeu diversas missões de estudo entre os índios Bororo e Nhambiquara, em companhia de sua esposa. O casal se separou em 1939, ao retornar à França. O antropólogo se casou novamente em 1945 e em 1954. Banido do ensino em seu país, em decorrência das leis antissemitas da França ocupada do regime de Vichy (1940-1944), partiu para Nova York, onde teve contato com os surrealistas e se aproximou de Roman Jakobson, linguista que teve influência decisiva na construção de sua obra. O pós-guerra foi um período instável para Lévi-Strauss, que publicou então suas primeiras obras de peso, ainda não reconhecidas. Foi adido cultural em Nova York e participou de missões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na Índia e no Paquistão. Em 1950, foi nomeado professor da Escola Prática de Altos Estudos da França. Em 1955, publicou Tristes trópicos, um relato de suas viagens que se tornou ao mesmo tempo um sucesso literário e uma referência científica. Publicou Antropologia estrutural em 1958 e em 1959 assumiu o Departamento de Antropologia Social do Collège de France, passando a desenvolver atividade intensa como autor e organizador, que lhe valeram crescente reconhecimento internacional. Depois de O Pensamento selvagem (1962) e os quatro volumes de Mitologias, passou a ser reconhecido com um dos grandes autores do século 20. Em 1973, foi eleito para a Academia Francesa. Em 1985, acompanhou o presidente francês François Mitterrand ao Brasil. Suas coleções de objetos foram expostas no Museu do Homem, em Paris, em 1989. Suas fotografias do Brasil foram editadas em 1994. (Agência Fapesp, 4/11)

15/08/2009

Uso tecnológico do fogo tem mais de 70 mil anos

Filed under: Antropologia — jspimenta @ 23:22

JC e-mail 3827, de 14 de Agosto de 2009.

Ferramentas fabricadas há 72 mil anos eram excelentes facas e armas de caça. Alexandre Gonçalves escreve para “O Estado de SP”:

Os primeiros seres humanos modernos já empregavam a tecnologia do fogo para fabricar ferramentas de pedra há 72 mil anos no sul da África, segundo estudo publicado nesta sexta-feira pela revista Science.

“Descobrimos que os primeiros homens modernos, há 72 mil anos, ou até há 164 mil anos, na costa da atual África do Sul, já controlavam minuciosamente o fogo para, depois de um complexo procedimento, esquentar a pedra e alterar suas propriedades”, afirmou Kyle Brown, da Universidade do Cabo, coautor do estudo.

Até agora, os traços mais antigos de utilização do calor para fabricar ferramentas tinham 25 mil anos. Restos de silcreto, um amálgama de sílica capaz de ser modelado quando aquecido, foram encontrados enterrados em um sítio arqueológico de Pinnacle Point, na costa da África do Sul.

Os arqueólogos repetiram a técnica empregada pelos seres humanos pré-históricos. “Os resultados foram surpreendentes”, disse Curtis Marean, paleoantropólogo e professor da Universidade do Arizona. “Depois de aquecido, o silcreto adquiriu uma cor vermelha profunda e tornou-se facilmente fracionável. Além disso, era muito parecido com o que encontramos no sítio arqueológico. Ao utilizar o silcreto, conseguíamos produzir cópias muito convincentes das ferramentas originais.”

As ferramentas fabricadas há 72 mil anos eram excelentes facas e armas de caça. “Nossa descoberta demonstra que esses primeiros homens modernos tinham um conhecimento elaborado do uso do fogo”, acrescentou o pesquisador americano, que considera possível a existência concomitante de uma capacidade intelectual complexa e uma linguagem que tornaria possível o ensino da tecnologia.

“Considero um exagero essa suposição”, pondera o pesquisador brasileiro Walter Alves Neves, da Universidade de São Paulo (USP). “Em tese, seria possível dominar a técnica sem precisar da linguagem.” Mas ele considera a descoberta interessante.

O achado foi visto como mais uma prova de que a África foi o berço de todos os homens modernos, há 100 mil ou 200 mil anos. “Eles deixaram o clima quente há 50 mil anos e foram para o frio da Europa e da Ásia”, diz Marean. (Com AFP e EFE)
(O Estado de SP, 14/8).

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