E d u c A ç ã o

02/08/2009

Peter Burke resume em conferência sua história da leitura

Filed under: História Cultural — jspimenta @ 23:34

Em sua conferência no Cole, terça-feira, o historiador Peter Burke, professor da Universidade de Cambridge, disse que a memória artificial diminui a necessidade de memorização. Com os novos recursos de armazenamento de informações, a arte da memória, cultuada na Antiguidade Grega e Romana, desaparece a cada dia. “Tenho saudades de quando tínhamos de memorizar as informações, mas nessa época de explosão das informações, seria impossível sobreviver sem a ajuda da memória artificial”, concluiu, depois de explicar a história da leitura a partir do conteúdo de seu Livro da Memória.

Burke salientou que até a primeira parte do século 20, os homens eram incentivados a ler a Bíblia com tanta frequência que chegavam ao ponto de citar parágrafos (versículos) em rodas de conversa. Na Inglaterra, segundo ele, leitores de classe alta citavam clássicos mundiais, enquanto os de classe média declamavam clássicos nacionais, como Shakespeare, Cervantes e Emannuel Kant. “Eu mesmo decorei vários poemas de poetas ingleses e vocês também devem ter recitado muitas passagens de Camões e Carlos Drummond de Andrade. Mas é possível que seus filhos não possam ou não queiram mais fazer assim”, disse, ao comparar a memória pura e a memória artificial, proporcionada por ferramentas como a internet.

Da arte da memória às primeiras impressões de livros de consulta e mais recentemente à consulta eletrônica globalizada, muita coisa mudou: a memória natural deu espaço à memória artificial, a que busca informações prontas. A falta de necessidade de memorizar também muda a prática da leitura, que passa de intensiva (explorar cada dado de um livro) e a extensiva, na qual o leitor lê do começo ao fim, selecionando as informações que lhe interessem.

Burke explicou que a nacionalização do livro de consulta nos séculos 18 e 20 foi responsável pela mudança da forma de ler, pois as pessoas já não precisavam mais ler intensivamente. “Foi uma espécie de rivalidade entre nações. Foram lançados grandes dicionários de biografia nacional alemães, franceses e italianos e enciclopédias quase ou totalmente nacionais. No Brasil e em Portugal também”. Agora, com a internet, surgem novas enciclopédias, mas com compilações internacionais e não mais nacionais. A internet, para ele, faz lembrar meios necessários, ao facilitar a consulta, estimulando a leitura extensiva, tornando a leitura intensiva mais longe da realidade dos jovens leitores. A especialização de livros de consulta era empurrada por necessidades comerciais, e não intelectuais, segundo Burke. “A especialização era uma forma de extensão dos produtos em virtude da concorrência” , explicou.

“É bem provável que no futuro, daqui a cem anos, os historiadores contem uma nova história da revolução da leitura, não pautados no século 18, mas nos anos anteriores e posteriores a 2000”. Com o estímulo aos livros de consulta, os leitores se afastam da leitura intensiva, com preocupação em memorizar cada parte de uma obra. A leitura extensiva, segundo Burke, é aquela em que o leitor lê do início ao fim, selecionando as informações que são de seu interesse.
“Muitas vezes, o que vemos é o que esperamos ler e ver. Então, para fazer espaço de memória e manter a mente ativa, precisamos de vez em quando, neutralizar a memória, talvez esquecer nossa memória.

Curador do acervo da Biblioteca Gilberto Freyre, ele lembra que o escritor tinha o hábito, condenado por especialistas em conservação, de fazer anotações na própria página do livro durante suas leituras. “Freyre não lia com os olhos. Tinha o hábito de manipular o livro sublinhando parágrafos mais complexos. O que não sublinhava com lápis, fazia com a própria unha.

Os comentários eram reveladores. Ele fazia isso para ajudar a memória, desenvolvendo seus pensamentos sobre o texto. Quando fomos organizar a Biblioteca Gilberto Freyre, tivemos de explicar para as bibliotecárias que as anotações eram mais importantes que os volumes”, detalhou.

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