E d u c A ç ã o

02/08/2009

Os lugares da História

Filed under: Educação,História — jspimenta @ 23:58

“Nós nunca tivemos uma república do consenso. Vários projetos políticos foram alvos de grande disputa. E a sociedade brasileira nunca foi pacífica ou do consenso (Foto: Kiko Silva)

A professora Ângela de Castro Gomes, uma das palestrantes do Simpósio Nacional de História, conversou com o Caderno 3 sobre o papel do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro para a formação do pensamento do País

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, por D. Pedro II, é uma das instituições mais importantes do País em termos da constituição de pensamento – com suas várias vertentes e interpretações – do nosso processo civilizatório. Desde o II Império, o IHGB tem contribuído, dentro de cada período histórico, para o estudo da formação do País. A professora Ângela de Castro Gomes, da Universidade Federal Fluminense, pesquisa os avanços e recuos do IHGB. Para ela, muito mais avanços do que recuos. Ela proferiu a palestra “O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a História nos anos 1920” dentro do Simpósio Nacional de História.

O foco nos anos 20, segundo a professora, serviu apenas como um recorte para o início do debate. Na verdade, ela há tempos se debruça sobre as transformações por que passou o IHGB ao longo do século XX. Nos anos 20 do século passado, o IHGB passava por transformações importantes. A professora lembra que antes o Instituto estava relacionado a um projeto político centralizador – “Era uma instituição muito ligada ao Império”, lembra. A monarquia tinha um vínculo direto com o IHGB e com a Igreja Católica. Panorama que mudou com o advento da República, ainda nos anos 90 dos mil e oitocentos.

– O Instituto Histórico e Geógrafico Brasileiro estabeleceu o debate sobre um Estado laico federativo e passou por uma ebulição muito grande, mesmo com alguns sócios defendendo projetos de restauração da monarquia. Mas o que mais me interessa é exatamente como o IHGB sai desse momento e vai se tornando uma instituição ligada a um projeto de construção do Estado nacional. Dessa vez, republicano.

A professora ressalta que o Instituto se lançou à tarefa de pensar a história e a historiografia.

– Muitos debates se desenvolveram dentro da instituição sobre a questão da história. Qual é o papel do historiador? De que forma deve se escrever a história? A história é uma ciência? É uma escrita cujo passado é reconstruído pelos historiadores? O IHGB que discuto é o da República. Nos anos 20, começava-se a debater na instituição questões sobre a identidade brasileira focadas em diálogos com outras disciplinas. Diálogos travados com outros saberes, principalmente com a sociologia. O recorte dos anos 20 se deve menos a questões externas à instituição e mais aos debates que se deram de forma das mais ricas dentro do IHGB.

O IHGB teria influência dos positivistas ou da escola francesa dos Annales? A professora Ângela assinala que a escola dos Annales (movimento que surgiu em torno do periódico acadêmico francês Revue des Annales, tendo destacado-se por incorporar métodos das Ciências Sociais à História) ainda estava se constituindo. A influência maior era da escola metódica francesa. “Os Annales vão demorar um pouco. Não comungo com a tese que as coisas chegam atrasadas no Brasil. Essa idéia não é correta. O movimento da Escola dos Annales só se concretiza no final dos anos 20. Estamos falando de um período pré-Annales”.

Ela recorda que naquela quadra histórica o grande evento foi o Centenário da Independência. Na época, foram levantadas várias questões pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Principalmente problemas relacionados à nossa identidade, à questão da independência e, principalmente, ao Brasil republicano. Foi um grande evento – não só promovido pelo Instituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro, mas sim de todo o País.

Ontem e hoje

Para a professora Ângela de Castro Gomes, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro é um dos mais importantes centros de pesquisas e debates sobre a historiografia, não somente no Rio de Janeiro, mas em todo o País. Lembra que houve um certo obscurecimento da instituição nos anos 50 e 60. Mas desde então, quando os cursos não apenas de História, mas de Sociologia e Antropologia começaram a demandar muitas questões científicas, o Instituto voltou ao primeiro plano.

– Hoje o IHGB tem realizado um trabalho sistemático, em vários Estados, atraindo historiadores e profissionais de outros áreas afins para seus quadros. Vejo hoje as universidades e os institutos de todo o País dialogando muito mais do que já fizeram em períodos anteriores. O IHGB é um espaço, também, de criação do conhecimento, do debate. Quanto mais nós tivermos instituições legítimas, lugares para produzir conhecimento, isso só trará benefícios para a sociedade.

Conservador?

O Instituto Histórico Geográfico Brasileiro sempre foi visto, pelo menos fora da academia, como uma órgão conservador. Para a professora, um erro de percepção. Muitos estudos e pesquisas estão sendo ali produzidos, inclusive com temas muito atuais. Ângela de Castro Gomes, por exemplo, está pesquisando um outro tema muito recorrente entre os brasileiros: a noção de que a sociedade brasileira estaria ligada a um determinado consenso entre as elites – políticas e econômicas, principalmente. Uma espécie de ´república do consenso´.

– “Nós nunca tivemos uma república do consenso. Sempre estivemos envolvidos em disputas, competições entre as elites políticas, econômicas e sociais. Vários projetos políticos foram alvos de grande disputa. E a sociedade brasileira nunca foi pacífica ou do consenso.

Essa imagem, segundo a professora, de que a sociedade brasileira é muito apática, incapaz de ações mais contundentes, foi construída através de uma versão autoritária – defendida até por historiadores. “Alguns historiadores são caudatórios dessas grandes matrizes interpretativas que vêem a sociedade brasileira como incapaz de organização, de ação, de demanda. Não compartilho com essa matriz. Mesmo com Getúlio, houve uma série de direitos adquiridos em consequência a movimentos sociais -como o voto feminino e os direitos trabalhistas.

Já quanto aos momentos de maior repressão, tanto no Estado Novo quanto na Ditadura Militar, Ângela explica que o fato não deve ser entendido como capitulação da sociedade civil. Pelo contrário: tanto no Estado Novo quanto na ditadura militar assistiu-se à mobilização e a ações da sociedade mais organizada contra o arbítrio.

– Isso não deve ser entendido como se você tivesse zerado as possibilidades de as pessoas pensarem, se organizarem e até resistirem. Acontece que as formas de organização e de resistência mudam nesse período. Muitas vezes são muito sutis. Durante o Estado Novo você teve resistência de muitos intelectuais. O mesmo ocorrendo na ditadura militar.

E os partidos políticos? Eles realmente estariam fora desse “consenso” defendido por uma vertente do pensamento autoritário brasileiro? A professora Ângela de Castro Gomes pensa o contrário. Ressalta que partidos como PTB, UDN e PSD foram bastante fortes na cena brasíleira do passado.

– Logicamente que, durante a ditadura militar, com o bipartidarismo – Arena e MDB -, houve perda de espaço com relação aos partidos políticos. Mas esse espaço está sendo reconquistado desde a volta da democracia. Mesmo com todas as denúncias de corrupção, o Congresso Nacional deve ser fortalecido. Acho que isso ainda é um processo. Prova também que a sociedade brasileira está organizada diante de atos aéticos por parte de determinados políticos. Mas as instituições são importantes para a consolidação do processo democrático. E isso está se dando também com forte participação da imprensa e da sociedade do País. Então, nunca existiu nem existirá esse pacto da mediocridade, esse consenso de que a sociedade brasileira sempre agiu de forma pacífica diante dos inúmeros problemas enfrentados pelo País”.

FIQUE POR DENTRO

CIDADANIA E MEMÓRIA SOCIAL

A professora doutora Ângela de Castro Gomes é titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora sênior do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. Possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (1969), mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1978) e doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1987). Atua principalmente nos seguintes temas: história política do Brasil República, pensamento social brasileiro, cidadania e direitos do trabalho, memória social e ensino de história.

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor do Caderno 3.

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