E d u c A ç ã o

20/06/2009

Bernard Charlot: ensinar com significado para mobilizar os alunos

Filed under: Bernard Charlot,Sociologia — jspimenta @ 23:47

Bernard Charlot

Tatiana Pinheiro

O pesquisador francês investiga na prática como os alunos se relacionam com o saber.

Há 40 anos, vertentes da Sociologia analisam a relação entre o desempenho escolar de uma criança e a classe social que seus pais ocupam. Boa parte das considerações aponta que alunos de camadas populares têm menos chances de ser bem-sucedidos nos estudos do que os jovens de classe média. Mas como explicar um estudante de família desfavorecida que se sai bem na escola? E o aluno de família abastada que fracassa em sua trajetória escolar?

Pesquisador francês radicado no Brasil, Bernard Charlot se voltou para essas questões na década de 1980, ainda em Paris, e trabalhou em um conceito que explica de maneira mais abrangente e menos preconceituosa histórias de sucesso e de fracasso escolar: a relação com o saber.

Essa é uma condição que se estabelece desde o nascimento, uma vez que “nascer significa ver-se submetido à obrigação de aprender”, escreveu Charlot. A condição humana exige que seja feito um movimento, “longo, complexo e nunca acabado”, no sentido de se apropriar (parcialmente) de um mundo preexistente. Essa apropriação obrigatória desencadeia três processos: de hominização (tornar-se homem), singularização (tornar-se exemplar único) e socialização (tornar-se membro de uma comunidade).

O ato de construir-se e ser construído pelos outros é a própria Educação, entendida de forma ampla, em situações que ocorrem dentro e fora da escola. É por meio de suas experiências que a criança toma contato com as muitas maneiras de aprender. Ela pode adquirir um saber específico, no sentido de compreender um conteúdo intelectual (a gramática, a Matemática, a história da arte etc.), pode dominar um objeto ou uma atividade (como caminhar, amarrar os sapatos, nadar etc.) e pode aprender formas de se relacionar com os outros no mundo (saber como cumprimentar as pessoas, ter boas maneiras à mesa etc.).

Nesse ir-e-vir da relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo, toma forma o desejo de aprender. É esse desejo que propulsiona a criança em direção ao saber. Em pesquisas de campo, Charlot e sua equipe identificaram que esse “direcionar-se para o saber” pressupõe um movimento de mobilização – e não simplesmente de motivação. “O conceito de mobilização se refere à dinâmica interna, traz a ideia de movimento e tem a ver com a trama dos sentidos que o aluno vai dando às suas ações”, explica Jaime Giolo, professor titular da pós-graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF) e estudioso do pensamento de Charlot. “A motivação, por sua vez, tem a ver com uma ação externa, enfatizando o fato de que se é motivado por alguém ou algo.”

Ensinar com significado para mobilizar os estudantes

Como acionar nos alunos mecanismos de interesse pelo saber? Como notar que relação os estudantes estabelecem com o saber escolar? Segundo contou o próprio Charlot em entrevista a NOVA ESCOLA de Aracaju, cidade onde mora atualmente, suas pesquisas ainda devem uma resposta mais completa para essas perguntas, principalmente quando o olhar se volta para alunos de periferias – na França, na Tunísia, na República Tcheca ou no Brasil, países em que ele coordenou estudos. O que se sabe é que, quanto mais significativo for o que está sendo ensinado, mais o aluno se põe em movimento, se mobiliza para se relacionar com aquele conteúdo. Mas essa situação, que seria a ideal, não é a predominante.

Os estudos de Charlot apontam que a maioria dos estudantes – quase 80% deles – só vê sentido em ir à escola para conseguir um diploma, ter um bom emprego e ganhar dinheiro e levar uma vida tranquila. Nesse discurso, não há a menção ao fato de aprender. “Esses jovens que ligam escola e profissão sem referência ao saber estabelecem uma relação mágica com ambos. Além disso, sua relação cotidiana com o estudo é particularmente frágil na medida em que aquilo que se tenta ensinar a eles não faz sentido em si mesmo, mas somente em um futuro distante”, define o pesquisador.

No caso desses estudantes, o professor Jaime Giolo avalia que se estabelece uma relação mecânica, quase de indiferença, com o saber. Recuperar o sentido do aprender e o prazer em estudar está entre os desafios de hoje. A atividade escolar precisa se apresentar de forma significativa, prazerosa, para merecer o esforço intelectual dos alunos no sentido de se apropriar de diversas porções de saberes produzidos pela humanidade.

Não há uma receita pronta para isso. O que não basta para Charlot é dar a situação por resolvida ao justificar o desinteresse ou o fracasso de alunos por causa da classe social da família ou das carências culturais inerentes à origem deles. Segundo o francês, pensar de maneira determinista lança uma leitura negativa sobre a realidade. Em vez disso, ele sugere uma leitura positiva do indivíduo, levando em conta sua história de vida, seus desejos e suas atividades cotidianas.

Biografia

De Paris a Aracaju, atrás de pistas sobre o ensino

Bernard Jean Jacques Charlot nasceu em Paris, em 1944. Formou-se em Filosofia em 1967 e, dois anos depois, foi lecionar Ciências da Educação na Universidade de Túnis, na Tunísia. De volta à França, em 1973, trabalhou por 14 anos na Ecole Normale, um instituto de formação de docentes. No período de 1987 a 2003, atuou como professor catedrático da Universidade de Paris 8, onde fundou a equipe de pesquisa Escol (Educação, Socialização e Comunidades Locais), voltada para a elaboração dos elementos básicos da teoria da relação com o saber. Após se aposentar, veio para o Brasil. Como professor-visitante da Universidade Federal de Mato Grosso, seguiu fazendo pesquisas até ser convidado para ser visitante na Universidade Federal de Sergipe, em Aracaju. Desde 2006, é lá que coordena o grupo de pesquisas Educação e Contemporaneidade, engajado em delinear as relações com os saberes e explicitar de que forma os alunos se apropriam deles.

Os caminhos de Charlot

Um passo adiante na Sociologia da reprodução

O estudo da relação do homem com o saber não é novidade. Com outras denominações, Bernard Charlot vê o assunto atravessar a história da Filosofia clássica, desde Sócrates (469-399 a.c), que disse “conhece-te a ti mesmo”, passando por René Descartes (1596-1650) e a formulação da dúvida metódica, até chegar em Hegel (1770-1831) e sua visão de que novos conhecimentos se constroem com base em antigos.

Porém é nas décadas de 1960 e 70 que a expressão “relação com o saber” e outras derivadas podem ser encontradas em maior quantidade nas produções de psicanalistas e sociólogos. Em 1970, por exemplo, Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean Claude Passeron usaram no livro A Reprodução termos como “relação com a linguagem” e “relação com a cultura”.

Mas é Charlot que faz um novo recorte e se volta para o saber nas classes populares. Ele sai do discurso mais teórico para encontrar elementos de compreensão da trajetória escolar de crianças de periferia. Nessa proposta, o sujeito, com seus desejos, ganha importância. Charlot assume para si o pressuposto de que os indivíduos não são simples objetos de pesquisa, mas agentes capazes de subverter a lógica dominante, mesmo que o façam localmente e com o simples intuito de melhorar um pouco o modo de vida.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

A Mistificação Pedagógica – Realidades Sociais e Processos Ideológicos na Teoria da Educação, Bernard Charlot, 314 págs., Ed. Zahar, tel. (21) 2108-0808 (edição esgotada).
Da Relação com o Saber – Elementos para uma Teoria, Bernard Charlot, 96 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 38 reais.
Os Jovens e o Saber – Perspectivas Mundiais, Bernard Charlot, 152 págs., Ed. Artmed, 38 reais .
Relação com o Saber, Formação dos Professores e Globalização – Questões para a Educação Hoje, Bernard Charlot, 160 págs., Ed. Artmed, 40 reais.

Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-inicial/bernard-charlot-ensinar-significado-mobilizar-alunos-476454.shtml

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