E d u c A ç ã o

11/05/2009

“Escola só olha o próprio umbigo”

JC e-mail 3758, de 11 de Maio de 2009.

aulasInstituições se preocupam demais com o programa e de menos com o aluno real na sala de aula

Flávia Tavares escreve para “O Estado de SP”:

Quando as deficiências do ensino médio são apresentadas à sociedade pelos fracos resultados do Enem, uma sensação de que há um imenso descompasso entre alunos, professores, governos e pais parece inevitável. São os jovens que estão desinteressados, é o mestre que está desmotivado, o governo que investe pouco ou os pais que estão alheios à vida escolar dos filhos?

A resposta da equação é uma mistura desses fatores. Mas para o pedagogo Lino de Macedo, professor titular de Psicologia do Desenvolvimento da USP e membro da Academia Paulista de Psicologia, o desencontro acontece mesmo entre as instituições de ensino e o aluno no ambiente escolar. “A escola está voltada para o próprio umbigo, não olha para o aluno real, que está na sala de aula, e não tenta compreendê-lo”, explica.

Para promover esse encontro – desejado por todos, mas alcançado por poucos -, Macedo, que foi um dos cinco formuladores do Enem, acredita que aproximar o conteúdo programático do cotidiano do jovem é uma das soluções possíveis.

“Os adolescentes nunca escreveram tanto, na internet principalmente, mas nunca escreveram tão mal”, sublinha o educador, que é autor de Ensaios Pedagógicos – Como Construir uma Escola para Todos? (Artmed), entre outros. Essa disposição em entender garotos e garotas parte de professores preparados e integrados à ideia da interdisciplinaridade, que, infelizmente, são minoria. “Nesse sentido, iniciativas como a de divisão das disciplinas em grandes áreas e a de oferecer uma escola para professores talvez não sejam suficientes. Mas são um caminho.”

O entroncamento

“O ensino médio é o primo pobre da educação no Brasil. Pensemos na divisão do ensino: temos a escola básica, que é formada pela infantil, pela fundamental e pelo ensino médio, e temos a graduação e a pós. De todas, a que mais se malha é o ensino médio, que é um entroncamento de três funções importantes. Uma delas é a de abrir as portas do mundo do trabalho para o aluno. O jovem tem consciência de que ter o diploma e dominar o conteúdo é condição mínima para ele ter um emprego. A outra função é preparar para a faculdade. E a terceira é completar a educação básica e, nesse sentido, o ensino médio é uma escola terminal, porque conclui um ciclo. Para a maioria dos jovens, essa vai ser a última etapa da escolaridade. Quando analisamos como eles estão se despedindo da vida escolar, os resultados são muito negativos.

Cobranças mútuas

“Invertendo a lógica, pensando do ponto de vista do ensino médio, pode-se perguntar às escolas que o antecederam: por que vocês não ofereceram um aluno mais preparado? Pode-se perguntar às universidades: o que vocês fazem com o aluno real que chega aí? A universidade tem um perfil de aluno ideal fora da realidade – seja da escola pública ou privada. Elas não trabalham com o aluno concreto que está na sala de aula, mas com uma representação do aluno.

Aula de decepção

“Os pais levam a criança para a educação infantil cheios de esperança, de expectativas da vida que ela vai ter. Na escola fundamental, já aparecem problemas, mas ainda existe um caráter de preparação, de aspiração. Quem sabe o aluno do ensino médio não está apenas denunciando a decepção com um sistema de ensino em que ele depositou suas maiores esperanças? Todo mundo só vê o que o aluno não tem, não faz, não dá conta e o que ele consegue fazer é pouco valorizado. Sempre foi e está cada vez mais difícil ser adolescente. Dele são exigidas coisas de adulto, para as quais ele não tem interesse nem repertório – ele está preocupado com sua inclusão em grupos, sua iniciação sexual, seus sonhos. Então, os adolescentes têm muitas decepções com essa escola que não olha para ele, que não é feita para ele, não é pensada com ele.

Continuar ou não?

“A opção de continuar estudando não é simples. O jovem tem de escolher uma carreira que ele deseja e seja possível. É comum ver um fisioterapeuta que queria ser médico, por exemplo, mas não teve condições. Agora, um taxista não precisa de universidade. Talvez ele precise de um bom curso de línguas, saber ler jornal com entendimento, e ele tem de ter recebido uma boa educação básica. Mas a maior parte das profissões não pede faculdade, porque a graduação é feita para certas ocupações cuja complexidade exige uma formação que a educação básica não dá. Posso ser um bom caixa de supermercado, que é uma ocupação útil na sociedade, sem ser graduado. As pessoas gastam um dinheiro enorme, que muitas vezes nem têm, para fazer um curso fraco. Essa decisão vai desembocar em mais uma decepção.

Competências e habilidades

“A educação básica tem de desenvolver competências e habilidades nos alunos. Os conteúdos disciplinares são esquecidos meses depois do vestibular. O que sobra da educação básica é o que o sujeito aprendeu como disciplina no sentido de habilidade e competência para fazer o melhor possível em determinada situação, saber tomar decisões. É importante que o jovem saiba demonstrar um teorema, argumentar, ler uma fórmula, fazer um cálculo mais sofisticado, ler e interpretar um texto, trabalhar com escalas, grandezas, etc. De certa forma, pensar por áreas de conhecimento – exatas, humanas, biológicas – como na proposta do MEC é sair do conteúdo disciplinar e entrar nos raciocínios, nos modos de pensar. Só que os professores não estão preparados para essa complexidade.

Vida de professor

“De todos os professores, os do ensino médio são os mais sacrificados. Para ter um salário razoável, ele precisa dar muitas aulas e chega a ensinar 600 alunos, não consegue nem como saber o nome deles. Ele não dá aula, dá palestras. Por isso, as áreas de conhecimento podem facilitar seu trabalho, para que eles tenham menos alunos. Mas, se o conteúdo disciplinar já é mal dominado por muitos, imagine as áreas… É necessária uma visão de interdisciplinar. Esse raciocínio já existe em algumas escolas, quando se trabalha com projetos. Quando uma turma elabora um jornalzinho, por exemplo, tem de pensar em texto, economia, biologia, etc.

Divergência de interesses

“Os protagonistas da educação têm interesses diversos. O adolescente vive uma problemática psicológica de atravessar um período turbulento, que é ao mesmo tempo a época em que mais se sonha e mais se quebra a cara. Do ponto de vista cognitivo, ser adolescente é ter uma estrutura mental que permite compreender coisas mais complexas do que o da criança. Do ponto de vista físico, a pessoa se torna adulta, com todas as implicações disso. Já o interesse da escola é ensinar conteúdos, disciplinas, e formar alunos que se saiam bem no Enem. O governo foca em preocupações econômicas e políticas. Por fim, a família cria muita expectativa sobre esse jovem, muitas exigências. A questão é como coordenar esses diferentes interesses.

O custo da educação

“Muitos professores são realmente fracos de conteúdo. Nesse sentido, acho positiva a iniciativa do governo de criar uma escola de professores. Não que isso seja suficiente, mas é um caminho. Diz-se que o Brasil gasta muito com educação, mas não é assim. O Chile gasta bem mais. Mas o problema econômico da educação é o seguinte: o Estado gasta muito e os professores ganham pouco. Isso acontece porque são muitos funcionários, contratados e temporários. Na escola particular, 5% dos professores faltam às aulas. Na pública, são 40%. Então, o governo precisa contratar três professores para ter um na sala de aula. Eles faltam por mil motivos, alguns razoáveis. Mas o sistema não aguenta sustentar isso.

Encontros e desencontros

“A sociedade de hoje é a sociedade do conhecimento e da tecnologia. Há coisas que o jovem quer aprender e para as quais não precisa de professor, pode recorrer ao computador. Mas há coisas que ele só aprende na escola. Veja, o jovem nunca escreveu tanto como hoje, no MSN, no Orkut, no Twitter, mas nunca escreveu tão mal. A escrita dos jovens na internet é completamente desvinculada daquela que a escola valoriza. Esse é um dos desencontros. Outro exemplo: o adolescente se interessa imensamente pela biologia do corpo humano, claro, mas não aquela dada pelo professor na aula da manhã. Os jovens querem aprender temas que dialoguem com seu cotidiano. A escola está muito voltada para o próprio umbigo. Ela só se preocupa com aquilo que precisa ser ensinado, com o conteúdo programático, fica centrada nas exigências que ela mesma faz e está pouco articulada com os recursos cognitivos e socioafetivos do aluno.

O aluno é exigente

“Para falar a língua do aluno, a escola não precisa baixar o nível. Aliás, os jovens não gostam que o nível caia, não gostam de professor fraco. Eles sonham com uma profissão melhor ou tão boa quanto a dos pais – e isso é aflitivo para eles, inclusive. Então, um professor que manje bem da matéria, tenha autoridade, saiba falar, estabeleça contato e sintonia com o adolescente é respeitado e reconhecido. O professor fraco e pouco motivado é tripudiado. O aluno fraco gosta e precisa de um professor forte e sabe reconhecê-lo. A não ser aquele aluno que já entrou malandro no sistema, querendo só o diploma. Mas isso é uma ilusão, diploma não basta a ninguém. Outra figura que é menosprezada, mas é fundamental, é o diretor. Escolas que têm um diretor motivado têm desempenho muito superior àquelas em que o diretor é fraco e ausente.

Resistência às mudanças

“Uma boa parte dos professores são mulheres. E elas são pessoas sérias, comprometidas, mas estão sobrecarregadas, porque têm a tal dupla jornada: dão aula e cuidam da casa. Isso quando a jornada não é tripla, porque muitas dão aula em escolas diferentes. Pois bem, com uma carga dessas, se vier uma reforma que exija mais dedicação, mais tempo na escola, certamente haverá resistência.

Os valores no tempo

“O currículo precisa ter um olho nas disciplinas e outro na vida. E responder ao aluno a pergunta: o que vale a pena aprender na escola? Vale aprender coisas que têm valor passado e futuro. Por exemplo, ler e escrever, argumentar, ordenar, categorizar, relacionar, cuidar da saúde, tudo isso tem valor há milhares de anos. E continuará sendo bom por mais tantos milênios, mesmo que a forma de fazer isso mude. A escola está comprometida com o passado e o futuro da sociedade, mas num presente que faça sentido para o aluno. O problema está aí. A escola se preocupa com o passado e o futuro e esquece o presente. Olha e não enxerga o aluno.

Concorrência saudável

“Os críticos dizem que o Enem é um sistema de avaliação externa, que põe todos no mesmo saco. De fato, realidades diferentes são avaliadas pela mesma prova. Mas a prova é externa à escola, mas é interna ao sistema educacional do Brasil. A vantagem da avaliação externa é que ela apresenta indicadores do sucesso ou do fracasso do sistema. Graças a essas avaliações, os Estados têm investido mais, porque ninguém gosta de aparecer mal na fita. Uma cidade rica cujas escolas vão mal no Enem tende a se mexer para melhorar as notas. Cria-se uma concorrência saudável.

A tríade fundamental

“Na sala de aula, há um triângulo fundamental. Num vértice, estão os processos de ensino; no outro, os processos de aprendizagem; no último, os processos de conhecimento, que têm a ver com o domínio das disciplinas, dos métodos. Se eu penso na relação entre ensino e conhecimento, tenho o professor dando aula e seu processo didático. Aqui, a pergunta é como incluir a aprendizagem do aluno. Na relação entre ensino e aprendizagem, há a problemática do relacionamento entre professor e aluno. A pergunta é como incluir aqui o conhecimento. Entre a aprendizagem e o conhecimento, está o aluno se tornando emancipado, aprendendo o conteúdo. Como incluir o professor nesse processo é a questão nessa aresta. O que tem acontecido nesse triângulo? O conteúdo tornou-se pesado e complexo; o ensino é precário, pela falta de condições dos professores; e o aluno é mal preparado. Equilibrar essa tríade é a saída.

Violência intramuros

“Não é que os alunos, os professores, os diretores sejam violentos. A sociedade é violenta. E na escola isso também se apresenta. A escola, seja pública ou privada, é um grande centro de relações humanas, com tudo que isso tem de lindo e de feio. Ela é um grande espaço sociocultural. A sala de aula pode não ser interessante, mas a escola é quase como um clube. É onde eu faço amigos, arrumo namorada, bato papo, mostro minha barriga sarada. Rola de tudo na escola, mais do que em qualquer shopping center. Os casos de violência que devem ser vistos com atenção são aqueles em que o aluno só é violento na escola. Agora, o professor tem de incorporar o tema violência ao currículo. O tempo que ele gasta falando de respeito, de cidadania, de disciplina tem de ser considerado ensino. Não pode ser visto como perda de tempo. Tem de ser validado.
(O Estado de SP, 10/5).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63341

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