E d u c A ç ã o

20/04/2009

O novo vestibular

Filed under: Educação,ENEM,Vestibular — jspimenta @ 23:07

Artigo de Azuete Fogaça*

JC e-mail 3745, de 20 de Abril de 2009.

“O ensino médio deve ser generalista, sim, no bom sentido que essa palavra pode ter, quando se trata do direito à educação, do acesso ao conhecimento e do desenvolvimento de competências e habilidades mentais”.

vestibular

Azuete Fogaça é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Artigo publicado em “O Globo”:

A proposta do MEC de implantação de um exame vestibular nacional, a partir do Enem, pode ser uma excelente estratégia de transformação do ensino médio em algo mais do que um curso preparatório para o ingresso na universidade, coisa que só se torna realidade para cerca de 15% dos nossos jovens concluintes da educação básica.

Como sempre ocorre quando se trata de inovações nessa área, levantam-se as vozes dos defensores das práticas tradicionais, herdeiras de uma visão colonial da educação como privilégio de poucos.

Dentre os argumentos contrários à proposta do MEC, dois merecem destaque, pelos equívocos que contêm.

O primeiro é aquele em que se afirma que não se pode fazer um exame de ingresso nacional porque, por exemplo, a seleção feita pela Federal da Bahia prioriza fatos da história daquele estado, coisa que o Enem não faz. Os que utilizam tal argumento esquecem que, por ser um exame nacional, o Enem acertadamente dá maior ênfase àquilo que é comum a todas as redes de ensino.

Esquecem também que a introdução de conteúdos regionais nos currículos não pode ocorrer em detrimento dos conteúdos nacionais — é bom que o menino que mora na Bahia conheça detalhes da história daquele estado, mas essa história deve estar integrada à história do país.

Esquecem ainda que as universidades públicas não podem ter critérios regionais ou locais na sua seleção. Elas são mantidas com recursos públicos, ou seja, do povo brasileiro; assim, nenhuma universidade pública está a serviço apenas do estado onde está sediada e, por isso, não pode e nem deve transformar as diferenças regionais em entraves ao acesso de candidatos oriundos de outras partes do país.

A segunda alegação é a de que o Enem é um exame “generalista”, o que permitiria que se aprovasse para um curso de medicina alguém que estaria mais apto a ingressar num curso de engenharia.

Para evitar tal risco, recomenda-se que o Enem tenha a mesma “cara” do vestibular. Aí, cabe lembrar que a intenção do MEC é exatamente mudar um sistema de seleção sabidamente antipedagógico e, ao mesmo tempo, contribuir para um redirecionamento do ensino médio, hoje pautado em conteúdos excessivos e na preparação para as pegadinhas do vestibular, em vez de abordar conhecimentos úteis e desenvolver as competências e habilidades mentais necessárias aos alunos tanto para a entrada na universidade quanto para o ingresso na vida adulta e no mercado de trabalho.

Acrescente-se o fato de que, do ponto de vista da estrutura do sistema educacional, o aluno que completar o ensino médio deve estar apto a cursar qualquer curso superior.

A ideia de que um aluno pode estar mais preparado para entrar num curso do que noutro contradiz os objetivos da educação básica e é incompatível com o princípio de que os sistemas de ensino devem oferecer a todos os alunos igual acesso aos conhecimentos previstos para o nível médio, não porque eles preparam para determinado curso superior, mas porque eles são úteis para a vida, seja qual for o destino desses alunos depois da educação básica.

Assim, todos devem saber de biologia o necessário e suficiente para entender esse grande sistema do qual o ser humano faz parte, compreender os processos vitais e, com isso, cuidar melhor do meio ambiente, do seu corpo, de sua saúde etc, independentemente da possibilidade de, num futuro próximo, se profissionalizarem como médicos, engenheiros, policiais ou atendentes de telemarketing. O mesmo se deve considerar nas demais disciplinas e conteúdos.

O ensino médio deve ser generalista, sim, no bom sentido que essa palavra pode ter, quando se trata do direito à educação, do acesso ao conhecimento e do desenvolvimento de competências e habilidades mentais. E é isso que, como exame de conclusão da educação básica ou de ingresso à universidade, o Enem deve medir.

A especialização e o aprofundamento dos conteúdos é tarefa da universidade, atendendo às especificidades dos cursos que oferece. Se não for assim, nada vai mudar de fato; apenas estaremos legitimando o massacre do vestibular, a alta seletividade e a desigualdade no acesso ao conhecimento que imperam ainda hoje. E continuaremos fazendo de conta que a universidade pública brasileira é democrática e igualitária.
(O Globo, 18/4).

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62958

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