E d u c A ç ã o

31/03/2009

O último navio negreiro

Filed under: História — jspimenta @ 0:09

 

 

Destroços do brigue americano Camargo, que trouxe 500 escravos, são localizados em Angra

Roberta Jansen escreve para “O Globo”:

No fundo do mar de Angra dos Reis repousa um dos mais importantes — e incômodos — tesouros arqueológicos do país: os destroços do brigue americano Camargo, o último navio negreiro a desembarcar escravos em solo brasileiro. Ele trouxe 500 africanos para o trabalho forçado.

O ano era 1852 e o tráfico já estava proibido. Por isso, para não deixar provas da operação criminosa, o capitão do navio ateou fogo à embarcação, que foi a pique.

Agora, um grupo de pesquisadores acredita ter localizado a área do naufrágio na localidade de Porto Bracuí e espera por um novo financiamento para voltar a mergulhar e escavar em busca desse triste passado, como revela reportagem de Carlos Haag publicada na última edição da revista “Pesquisa Fapesp”, da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, que financiou a parte inicial da busca. Resgatar os destroços de um navio negreiro é importante porque se sabe pouco sobre essas embarcações, das quais há poucos esboços esquemáticos.

— Fala-se muito mas a verdade é que ninguém sabe ao certo como era um navio negreiro — afirmou o historiador Gilson Rambelli, coordenador do projeto “Arqueologia subaquática de um navio negreiro. A história que não está nos livros”, da Unicamp.

— Sobretudo porque diferentes barcos trabalhavam nesse que era o pior comércio possível, o comércio de seres humanos. Mas a história se cala, não quer ir a fundo nessa questão.

Na baía de Angra dos Reis, onde há vários navios afundados, é relativamente comum que mergulhadores conheçam as áreas onde há remanescentes e façam, inclusive, mergulhos recreativos nos locais.

Curiosamente, no entanto, um dos mais importantes de todos eles, o do último navio negreiro a aportar no país, era pouco conhecido. Havia apenas um relato, do mergulhador local José Galindo, indicando sua possível localização.

Pedaços de madeira semi-enterrados parecem confirmar o local onde o navio teria desaparecido com o passar dos anos, tragado pelos sedimentos do fundo marinho. Os vestígios foram encontrados num mergulho feito pelo grupo de Rambelli.

— Não tínhamos como fazer a escavação, tivemos que parar — contou o historiador. — Mas foi bem interessante constatar que, dentre a enorme variedade de navios afundados, visitados sempre por mergulhadores, esse ficou esquecido justamente porque envolvia a temática do navio negreiro. É como se, num acordo tácito, todos dissessem, ‘vamos deixar isso quieto, não vamos mexer nessa história, deixa cair no esquecimento’.

Escravo custava US$ 40 na África

De fato, não é agradável imaginar que, há menos de 200 anos, era considerado normal arrancar pessoas de sua terra natal, amontoá-las em navios sem nenhuma condição de higiene e desembarcá-las como escravas do outro lado do mundo.

O tráfico de escravos era um negócio tão lucrativo (um homem comprado na África por US$ 40 podia ser vendido no Brasil por US$ 400 e até por US$ 1.200, em valores atuais) que, na lógica mercantilista cruel, a perda de alguns homens durante a viagem não fazia diferença. Por isso, as condições do transporte eram as mais insalubres (e baratas) possíveis.

Tão lucrativo era o tráfico que valia mesmo a pena afundar um navio para não deixar provas do crime, como aconteceu com o Camargo. O boato de que um brigue americano havia desembarcado escravos africanos no porto de Bracui em dezembro de 1852 correu rapidamente, chegando aos ouvidos do imperador.

Uma investigação foi aberta e um contingente de 400 policiais chegou a ser enviado a Angra dos Reis.

Para eliminar as provas de seu crime, o capitão do navio, Nathaniel Gordon, não teve dúvidas: pôs fogo na embarcação e, em seguida, fugiu para os Estados Unidos vestido de mulher para despistar as autoridades.

Mas Gordon não foi tão hábil em escapar da Justiça americana. Em 21 de fevereiro de 1862 ele foi enforcado nos EUA, tornando-se o único cidadão daquele país a ser condenado à morte por participação no tráfico negreiro.

Na outra ponta da história, recebendo os escravos trazidos por Gordon, estaria um dos mais cruéis senhores de terra e donos de escravos no Brasil, o comendador Joaquim José de Souza Breves, também conhecido como “o rei do café” dada a sua produção recorde.

Comprador foi inocentado

Breves não acreditava na extinção do tráfico nem na abolição e continuou comprando escravos mesmo após a promulgação da Lei Eusébio de Queiróz, em 1850. Em janeiro de 1852 foi confirmado o desembarque ilegal de africanos em terras pertencentes a sua família — justamente os escravos trazidos pelo Camargo. Um processo chegou a ser aberto, mas Breves foi inocentado.

Para recuperar a história, Rambelli espera agora um novo financiamento para dar continuidade às buscas.

— Precisamos agora usar equipamento geofísico para localizar a estrutura principal, que está totalmente enterrada, coberta de sedimentos.

Um Brasil submerso e desconhecido

Uma parte considerável da história do Brasil está submersa e não é estudada regularmente, lamenta o historiador Gilson Rambelli, coordenador do projeto “Arqueologia subaquática de um navio negreiro”, da Unicamp, que busca resgatar os destroços do brigue americano Camargo.

A arqueologia subaquática é ainda pouquíssimo explorada em comparação à terrestre. Isso se deve, em parte, ao fato de as leis para exploração subaquática serem mais pautadas pelas atividades de caça ao tesouro do que de estudos, o que cria uma série de dificuldades para os arqueólogos.

Foi essa realidade que fez com que Rambelli acabasse escolhendo o Camargo para sua pesquisa.

— Queria um tema que servisse de exemplo de grande importância histórica, que não abrisse espaço para especulações de que estávamos procurando tesouro — afirmou o historiador. — Acho que deveríamos estudar os sítios arqueológicos submersos com a mesma seriedade com a qual se estuda os sítios da superfície. Não tem cabimento termos uma lei para sítio terrestre e outra para os submersos.

Atualmente na Universidade Federal da Bahia, Rambelli prepara um audacioso inventário sobre o patrimônio subaquático da Baía de Todos os Santos, onde se acredita haja mais de 150 naufrágios.

— O Brasil não conhece o Brasil, sobretudo debaixo da água — disse.
(O Globo, 15/3)

 

 

JC e-mail 3722, de 17 de Março de 2009.

Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62276

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2 Comentários »

  1. eu acho isto muito triste a historia do brasi e chocate toca a agente !

    Comentário por gabryelle — 18/05/2009 @ 16:57 | Responder

    • Amigo blogueiro, minha avó me disse que o pai dela veio no último navio negreiro que veio para o brasil.

      Comentário por marcelo s. — 10/04/2012 @ 13:48 | Responder


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