E d u c A ç ã o

16/03/2009

Assim não é, ainda que pareça!

Filed under: Cultura,Educação,História — jspimenta @ 23:45

Eduardo Galeano

Quando foram expulsos do paraíso, Adão e Eva se mudaram para a África, não para Paris. Algum tempo depois, quando seus filhos já tinham começado a correr o mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas. Também a álgebra foi inventada no Iraque. Por Mohamed al-Jwarizm, há quase 1.200 anos, e as palavras algoritmo e algarismo são derivadas de seu nome.

Os nomes só não coincidem com o que nomeiam. Peguemos um exemplo por acaso: no British Museum, as esculturas do Partenon se chamam Mármores de Elgin, mas são mármores de Fidias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu – a bússola, a pólvora e a imprensa – tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo que a Europa reinventou.

Antes de qualquer um, os hindus sabiam que a terra é redonda e os maias tinham criado o calendário mais exato de todos os tempos.

Em 1493, o Vaticano deu de presente a América para a Espanha e obsequiou a África negra para Portugal, “para que as nações bárbaras sejam convertidas à fé católica”. Na época, a América tinha 15 vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra 100 vezes mais que Portugal.

Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas (transformadas em reduções). E muito.

Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade, pedra por pedra, e com os escombros tapou os canais por onde navegavam 200 mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán se chama México D.F. Por onde corria a água correm os automóveis.

O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia. A avenida mais larga do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charrúas.

John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos. Enquanto nascia o século XVIII, o primeiro dos Bourbons, Felipe V, estreou em seu trono firmando um contrato com seu primo, o rei da França, para que a Companhia de Guiné vendesse negros na América. Cada monarca levava 25% de lucro.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade. Dois dos pais fundadores dos Estados Unidos desvaneceram na névoa da história oficial. Ninguém se lembra de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou seus atos. Carter foi o único prócer da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da constituição, se opôs à clausula que estabelecia que um escravo equivalia a três quintos de uma pessoa.

“O nascimento de uma nação”, a primeira superprodução de Hollywood, estreou em 1915, na Casa Branca. O presidente Woodrow Wilson aplaudiu de pé. Ele era o autor dos textos da película, um hino racista de louvor à Ku Klux Klan.

Desde o ano de 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. Suas vozes eram impuras, por causa de Eva e do pecado original. No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, chamados de “vis ofícios”, que até então implicavam a perda da fidalguia. Até o ano de 1968 o castigo com correias, varas e porretes para as crianças, nas escolas da Inglaterra, era legal.

Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, a Revolução Francesa proclamou, em 1793, a Declaração dos Direito do Homem e do Cidadão. Então, a militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou sua cabeça. Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.

A imperatriz Cristina Teodora nunca disse ser revolucionária nem coisa parecida. Entretanto, por 1.500 anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio eram direitos da mulheres.

O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do norte industrial contra o sul escravagista, foi rapidamente presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, afirmou: “Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo que nos pode oferecer, também adotaremos a liberdade de comércio”. Assim, no ano de 2075 a nação mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.

Lootie Botincito foi o primeiro pequinês que chegou à Europa. Viajou a Londres em 1860. Os ingleses o batizaram com esse nome porque era parte do butim arrancado da China, ao fim das duas longas guerras do ópio. Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a canhoadas. A China foi convertida em uma nação de drogados em nome da liberdade, da liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, da liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, esse pais, o único país da América Latina que não devia um centavo a ninguém, inaugurou sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização a Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que haviam tido assassinando-o.

O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde de que, em 1804, conquistou sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado de sua liberdade.

As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte da Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim é até agora. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos de suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo. Na época, Mark Twain, dirigente da Liga Antiimperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas, e outro escritor, Ambrose Bierce, comprovou: “A guerra é o caminho que Deus escolheu para nos ensinar geografia”.

Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento e os alemães o desenvolveram. Depois Hermann Göring aplicou, na Alemanha, o modelo que seu papai lhe havia ensinado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele haviam estudado o campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negros.

O Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, país natal do führer. O Comitê Olímpico anulou a partida. Não faltaram amigos a Hitler. A Fundação Rockefeller financiou pesquisas raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.

Em 1953 explodiu o protesto da classe trabalhadora na Alemanha socialista. Os trabalhadores se lançaram às ruas e os tanques soviéticos se ocuparam de calar suas bocas. Então Bertolt Brecht propôs: “Não seria mais fácil o governo dissolver o povo e eleger outro?”.

Operações de marketing. A opinião pública é o cartão. As guerras se vendem mentindo, como se vendem os carros. Em 1965, os Estados Unidos invadiram o Vietnã porque o Vietnã havia atacado dois navios dos Estados Unidos no golfo de Tonkin. Quando a guerra havia massacrado uma multidão de vietnamitas, o ministro da defesa Robert McNamara reconheceu que o ataque de Tonkin não havia acontecido.

Quarenta anos depois, a história se repetiu no Iraque. Milhares de anos antes que a invasão estadunidense levasse a civilização para o Iraque, nessa terra bárbara havia nascido o primeiro poema de amor da história universal. Em língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa com um pastor. Inanna, a deusa, amou essa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana. O livro de viagens de Marco Pólo, Aventura de liberdade foi escrito em um cárcere de Genova. Don Quixote de La Mancha, outra aventura da liberdade, nasceu no cárcere de Sevilha.

Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas. Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, tinha não mais que dois dedos em sua mão esquerda. Não tinha mãos Grimod de la Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com ganchos escrevia, cozinhava e comia.

Enviado de Berlim por Hugo Moreno Peralta, diretor de Cesal Ev Berlin, Alemanha.

Versão em espanhol no blog Nuevas Páginas Libres: http://nuevaspaginaslibres.blogspot.com/2008/03/clase-magistral-de-eduardo-galeano.html

Publicado em 25 de novembro de 2008

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