E d u c A ç ã o

09/03/2009

8 de Março – Dia Internacional da Mulher II

Filed under: Educação,História — jspimenta @ 6:10

Em busca da memória perdida (SOF )*
A referência histórica principal das origens do Dia Internacional da
Mulher é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910,
em Copenhague, na Dinamarca, quando Clara Zetkin propôs uma resolução de instaurar oficialmente um dia internacional das mulheres. Nessa resolução, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março. Clara apenas menciona seguir o exemplo das socialistas americanas. É certo que a partir daí, as comemorações começaram a ter um caráter internacional, expandindo-se pela Europa, a partir da organização e iniciativa das mulheres socialistas.

Essa e outras fontes históricas intrigaram a pesquisadora Renée Coté, que
publicou em 1984, no Canadá, sua instigante pesquisa em busca do elo ou
dos elos perdidos da história do dia internacional das mulheres.

Renée, em sua trajetória de pesquisa, se deparou com a história das
feministas socialistas americanas que tentavam resgatar do turbilhão da
história de lutas dos trabalhadores no final do século XIX e início do
século XX, a intensa participação das mulheres trabalhadoras, mostrar suas
manifestações, suas greves, sua capacidade de organização autônoma de
lutas, destacando-se a batalha pelo direito ao voto para as mulheres, ou
seja, pelo sufrágio universal. A partir daí, levanta hipóteses sobre o por
quê de tal registro histórico ter sido negligenciado ou se perdido no
tempo.

O que nos fica claro, a partir de sua pesquisa das fontes históricas é que
a referência de um 8 de março ou uma greve de trabalhadoras americanas,
manifestações de mulheres ou um dia da mulher, não aparece registrada nas
diversas fontes pesquisadas no período, principalmente nos jornais e na
imprensa socialista.

Houve greves e repressões de trabalhadores e trabalhadoras no período que
vai do final do século XIX até 1908, mas nenhum desses eventos até então
dizem respeito à morte de mulheres em Nova York, que teria dado origem ao dia de luta das mulheres. Tais buscas revelam, para Coté, que não houve
uma greve heróica, seja em 1857 ou em 1908, mas um feminismo heróico que lutava por se firmar entre as trabalhadoras americanas. Em busca do 8 de março retraçou a luta pela existência autônoma das mulheres socialistas
americanas.

– As fontes encontradas revelam o seguinte:

Em 03 de maio de 1908 em Chicago, se comemorou o primeiro “Woman’s day”, presidido por Lorine S. Brown, documentado pelo jornal mensal The
Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de 1500 mulheres que “aplaudiram as reivindicações por igualdade econômica e política das mulheres; no dia consagrado à causa das trabalhadoras”.

Enfim, foi dedicado à causa das operárias, denunciando a exploração e a
opressão das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino.
Defendeu-se a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres, portanto, o
voto das mulheres, dentro e fora do partido.

Já em 1909, o Woman’s day, foi atividade oficial do partido socialista e
organizado pelo comitê nacional de mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909, a publicidade da época convocava o “woman suffrage meeting”, ou seja, em defesa do voto das mulheres, em Nova York.

Coté apura que as socialistas americanas sugerem um dia de comemorações no último domingo de fevereiro, portanto, o woman’s day teve, no início,
várias datas, mas foi ganhando a adesão das mulheres trabalhadoras,
inclusive grevistas e teve participação crescente.

Os jornais noticiaram o woman’s day em Nova York, em 27 de fevereiro de
1910, no Carnegie Hall, com 3000 mulheres, onde se reuniram as principais
associações em favor do sufrágio, convocado pelas socialistas, mas com
participação de mulheres não socialistas.

Consta que houve uma greve longa dos operários têxteis de Nova York
(shirtwaist makers) que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910, 80% dos grevistas eram mulheres e que terminou 12 dias antes do woman’s day.

Essa foi à primeira greve de mulheres de grande amplitude denunciando as
condições de vida e trabalho e demonstrou a coragem das mulheres
costureiras, recebendo apoio massivo. Muitas dessas operárias participaram do woman’s day e engrossaram a luta pelo direito ao voto das mulheres  (conquistado em 1920 em todo o EUA).

Clara Zetkin, socialista alemã, propõe que o woman’s day ou women’s day se
torne “uma jornada especial, uma comemoração anual de mulheres, seguindo o exemplo das companheiras americanas”. Sugere ainda, num artigo do jornal alemão Diegleichheit, de 28/08/1910, que o tema principal seja a conquista do sufrágio feminino.

Em 1911, o dia internacional das mulheres, foi comemorado pelas alemãs, em 19 de março e pelas suecas, junto com o primeiro de maio etc. Enfim, foi
celebrado em diferentes datas. Já em 1913, na Rússia, sob o regime
czarista, foi realizada a Primeira Jornada Internacional das Trabalhadoras
pelo sufrágio Feminino.

As operárias russas participaram da jornada internacional das mulheres em
Petrogrado e foram reprimidas. Em 1914, todas as organizadoras da Jornada
ou Dia Internacional das Mulheres na Rússia foram presas, o que tornou
impossível a comemoração. Em 1914, o Dia Internacional das Mulheres, na
Alemanha foi dedicado ao direito ao voto para as mulheres. E foi comemorado pela primeira vez no dia 8 de março, ao que consta porque foi
uma data mais prática naquele ano.

As socialistas européias coordenavam as comemorações em torno do direito ao voto vinculando-o à emancipação política das mulheres, mas a data era decidida em cada país. Em tempos de guerra, o dia internacional das mulheres passou à segundo plano na Europa.

Outra referência instigante, que leva a indicação da origem da fixação do
dia 8 de março, foi a ligação dessa data com a participação ativa das
operárias russas em ações que desencadearam a revolução russa de 1917.
Portanto, uma ação política das operárias russas no dia 8 de março, no
calendário gregoriano, ou 23 de fevereiro, no calendário russo, precipitou
o início das ações revolucionárias que tornaram vitoriosa a revolução
russa.

Alexandra Kolontai, dirigente feminista da revolução socialista escreveu
sobre o fato e sobre o 8 de março, mas, curiosamente, desaparece da
história do evento. Diz ela: “O dia das operárias em 8 de março de 1917
foi uma data memorável na história. A revolução de fevereiro acabara de
começar”.

O fato também é mencionado por Trotski, dirigente da revolução, na
História da Revolução Russa. Nessas narrativas fica claro, que as mulheres
desencadearam a greve geral, saindo corajosamente, às ruas de Petrogrado,
no dia internacional das mulheres, contra a fome, a guerra e o czarismo.

Trotski diz: “23 de fevereiro (8 de março), era o dia internacional das
mulheres estava programado atos, encontros etc. Mas não imaginávamos que este “dia das mulheres” viria a inaugurar a revolução. Estava planejado
ações revolucionárias mas sem data prevista. Mas pela manhã, a despeito
das diretivas, as operárias têxteis deixam o trabalho de várias fábricas e
enviam delegadas para solicitarem sustentação da greve… o que se
transforma em greve de massas…. todas descem às ruas”.

Constata-se que a revolução foi desencadeada por elementos de base que
superaram a oposição das direções e a iniciativa foi das operárias mais
exploradas e oprimidas, as têxteis. O número de grevistas foi em torno de
90.000, a maioria mulheres. Constata-se que o dia das mulheres foi
vencedor, foi pleno e não houve vítimas.

Renée Coté encontra, por fim, documentos de 1921 da Conferência
Internacional das Mulheres Comunistas onde “uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do dia internacional da mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas”. Então. a partir de 1922, o Dia
Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de março.

Essa história se perdeu nos grandes registros históricos seja do movimento
socialista, seja dos historiadores do período. Faz parte do passado
histórico e político das mulheres e do movimento feminista de origem
socialista no começo do século.

Algumas feministas européias na década de 70, por não encontrarem
referência concreta às operárias têxteis mortas em um incêndio em 1857, em Nova York, chegaram a considerá-lo um fato mítico. Mas essa hipótese foi descartada diante de tantos fatos e eventos vinculando as origens do dia
internacional da mulher às mulheres americanas de esquerda.

Quanto aos elos perdidos dos fatos em torno do dia 8 de março, levantam-se
várias hipóteses, em busca de mais aprofundamento. É certo que, nos EUA,
em Nova York, as operárias têxteis já denunciavam as condições de vida e
trabalho, já faziam greves. E esse momento de organização das
trabalhadoras faz parte de todo um processo histórico de transformações
sociais que colocaram as mulheres em condições de lutarem por direitos,
igualdade e autonomia participando do contexto social e político que
motivaram a existência de um dia de comemoração que simbolizasse suas
lutas, conquistas e necessidade de organização. É preciso, pois,
entretecer os fios da história desse período.

Desse contexto, surge um dos relatos a ser precisado em suas fontes
documentais, sintetizado por Gládis Gassen, (em texto para as
trabalhadoras rurais da FETAG), nos indicando que, em março de 1911,
dezoito dias após o woman’s day, não em 1857, ” numa mal ventilada
indústria têxtil, que ocupava os 3 últimos andares de um edifício de 10
andares, na Triangle Schirwaist Company, de New York, estalou um incêndio que envolveu 500 mulheres jovens, judias e italianas imigrantes, que trabalhavam precariamente, com o assoalho coberto de materiais e resíduos inflamáveis, o lixo amontoado por todas as partes, sem saídas em caso de incêndio, nem mangueiras para água… Para ” impedir a interrupção do trabalho”, a empresa trancava à chave a porta de acesso à saída. Quando os bombeiros conseguiram chegar onde estavam as mulheres, 147 já tinham
morrido carbonizadas ou estateladas na calçada da rua, para onde se
jogavam em desespero.

Após essa tragédia, nomeou-se a Comissão Investigadora de Fábricas de New York, que tinha sido solicitada há 50 anos! E iniciaram, assim, as
legislações de proteção à saúde e à vida das trabalhadoras. A líder
sindical Rosa Scneiderman organizou 120.000 trabalhadoras no funeral das
operárias para lamentar a perda e declarar solidariedade a todas as
mulheres trabalhadoras.

Assim, embora, seja necessário continuar a procurar o fio da meada, é
certo que todo um ciclo de lutas, numa era de grandes transformações
sociais, até as primeiras décadas do século XX, tornaram o dia
internacional das mulheres o símbolo da participação ativa das mulheres
para transformarem a sua condição e a transformarem a sociedade.

Estamos nós assim, anualmente, como nossas antecessoras comemorando nossas iniciativas e conquistas, fazendo um balanço de nossas lutas, atualizando nossa agenda de lutas pela igualdade entre homens e mulheres e por um mundo onde todos e todas possam viver com dignidade e plenamente.

Referências Bibliográficas:

– Cote, Renée. (1984) La Journée internationale dês femmes ou les vrais
dates des mystérieuses origines du 8 de mars jusqu’ici embrouillés,
truquées, oubliées : la clef dês énigmes .La vérité historique. Montreal:
Les éditions du remue ménage.
– Gassem, Gladis. (2000) Ato de solidariedade à mulher trabalhadora Ou,
Afrodite surgindo dos mares. 8 de Março de 2000. Organização das
trabalhadoras rurais. FETAG/RS.

* Sempre viva Organização Feminista

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