23/11/2009
02/08/2009
A era das bibliotecas online
JC e-mail 3814, de 28 de Julho de 2009.
Projeto reúne acervo global num único site, disponível nas seis línguas oficiais da ONU e em português
Bruna Tiussu escreve para “O Estado de SP”:
Até o Google deve ter ficado com inveja. Pela primeira vez na história, um projeto pretende reunir num só portal livros, manuscritos, mapas, filmes, fotos e músicas do mundo todo. Como uma Biblioteca de Alexandria – a comparação é inescapável – dos tempos da web, a Biblioteca Digital Mundial (BDM) foi inaugurada em abril, com 5 mil itens. Entre eles estão, por exemplo, raridades como manuscritos científicos árabes, a “Bíblia do Diabo” sueca, do século 13, e a coleção de fotos de d. Pedro II. Tudo original e gratuito.
Coordenada pela Biblioteca do Congresso Americano em parceria com a Unesco e a Federação Internacional das Bibliotecas, a BDM está disponível nas seis línguas oficiais da ONU (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo), mais o português.
O Brasil participou por meio da Fundação Biblioteca Nacional, que forneceu 1.500 mapas e 1.200 imagens. “Recebemos o convite porque já tínhamos feito projetos com a Unesco e a Biblioteca do Congresso”, diz Liana Amadeo, diretora de Processos Técnicos da fundação.
Segundo Abdelaziz Abid, coordenador da BDM, o portal teve mais de 7 milhões de page views e 600 mil visitantes só no dia da inauguração. “Acervo digital é um fenômeno global. As pessoas querem informações diferentes, disponíveis de forma ágil.”
Para Liana, a época das pesquisas nas enciclopédias já passou. “Esta geração começa a utilizar as bibliotecas digitais. A próxima não vai saber como era possível viver sem.”
Leandro Trindade, de 24 anos, aluno do último semestre de Ciências da Computação da UnB, nunca pisou em uma biblioteca para as pesquisas de sua monografia.
“Trabalho principalmente com as bibliotecas digitais internacionais, que na minha área são muitas. Poderia ficar o dia todo falando das vantagens do acervo digital, mas as principais são: ele é portátil, acho o que quero rapidamente e não gasto papel em impressão. A informação tem de ser livre.”
Outro defensor da informação livre, Rafael Silva, de 26, mestrando em Educação na USP, faz download de cinco a dez obras por semana, principalmente do site Domínio Público, criado pelo Ministério da Educação. Ele diz que os sites são vitais, porque a distribuição de livros no País é precária. “Precisei de um livro que estava esgotado desde 1981, tive que ir até Campinas para consultá-lo. E se o exemplar estivesse em Manaus?”
O Domínio Público cadastra cerca de 3 mil obras completas por mês. Segundo José Guilherme Ribeiro, responsável pelo portal, o trabalho é feito em parceria com 12 universidades. “A maioria do material vem digitalizado. A gente faz o trabalho de coletânea e montamos um banco de dados.”
Os projetos de digitalização começaram a surgir no Brasil no início da década, para democratizar o acesso à informação. O acervo digital da Biblioteca do Senado, da Biblioteca Nacional e iniciativas de universidades inspiraram projetos como o da Biblioteca Brasiliana, lançada em junho. Parte do acervo – doado pelo bibliófilo José Mindlin – já está disponível na web. Mas a Brasiliana não se restringe ao virtual. Terá uma sede física na USP, com entrega prevista para 2010.
(Colaborou Ana Bizzotto)
(O Estado de SP, 28/7)
17/04/2009
Os saberes, as bibliotecas universitárias e a edição no ciberespaço
(inédito)
Por ROBERT DARNTON *
O apagamento das Luzes no início do século XIX coincide com a irrupção do profissionalismo. Pode examinar-se este processo comparando a obra L’Encyclopédie (A Enciclopédia) de Denis Diderot, que encarava o saber como um todo orgânico guiado pela razão, com uma outra, L’Encyclopédie méthodique (Enciclopédia Metódica) de Charles-Joseph Panckoucke, que dividia o saber em campos autónomos e bem delimitados, semelhantes aos que hoje conhecemos: química, física, história, matemáticas, etc.
No século XIX, estes campos tornam-se profissões, certificadas por diplomas e enquadradas por academias. Durante o século XX, a reorganização do saber materializa-se através da divisão das universidades em departamentos: a química aqui, a física ali, a história um pouco mais longe e, no meio deste território fragmentado, uma biblioteca, geralmente com o aspecto imponente apropriado a um templo do saber.
A subdivisão de cada domínio em especialidades e subespecialidades, cada vez mais exíguas, gera uma multiplicação das revistas profissionais, produzidas pelos universitários e compradas pelas bibliotecas. Este sistema funciona muito bem durante cerca de um século, até ao dia em que os grandes editores se apercebem de que poderem ganhar muito dinheiro vendendo as assinaturas destas publicações confidenciais. As bibliotecas universitárias voltaram uma vez mais a proporcionar uma clientela de qualidade. Por cada assinatura, professores e estudantes passam a receber um fluxo incessante de exemplares.
Pelo caminho, os editores podem aumentar os preços à vontade, pois quem paga é a administração e não os leitores. Além disso, os colaboradores destas revistas, na maioria professores, trabalham gratuitamente ou quase. Escrevem artigos, recenseiam obras dos colegas e participam na comissão editorial. Por vezes, fazem-no para difundir o seu saber, à semelhança das Luzes; mais frequentemente, fazem-no para assegurar a sua própria carreira.
Qual é o resultado? O orçamento atribuído em cada biblioteca universitária à aquisição destas revistas atinge níveis estrondosos. A assinatura anual do Journal of Comparative Neurology custa agora 25 910 dólares. Para receber a revista Tetrahedron, especializada em química bioorgânica, paga-se 17 969 dólares (ou 39 739 dólares na versão completa, que inclui os números especiais). O preço médio de uma assinatura anual de uma revista de química ascende a 3490 dólares. Estes preços astronómicos têm um efeito desastroso na vida intelectual.
As bibliotecas, que reservavam metade do seu orçamento de compras para as monografias (livros especializados não periódicos), passam, devido ao aumento exponencial dos preços das assinaturas, a destinar apenas 25 por cento do mesmo a essas aquisições. As edições universitárias, cujas vendas dependem quase exclusivamente das bibliotecas, deixam de poder amortizar o custo das suas monografias, razão pela qual as publicam cada vez menos. Os jovens investigadores são os primeiros prejudicados com isso.
Felizmente, este quadro está já a esbater-se. Biólogos, químicos ou físicos, mas também historiadores, antropólogos ou especialistas em literatura, já não vivem em mundos separados. Em muitos locais, os fios da interdisciplinaridade estão a estreitar-se e a formar uma estrutura sólida. A biblioteca continua a estar no centro das coisas, mas agora vai buscar os seus elementos nutritivos fora da universidade, muitas vezes nos confins do ciberespaço, através das redes electrónicas.
* Historiador, professor na Universidade Carl H. Pforzheimer e director da Biblioteca de Harvard.
Disponível em: http://pt.mondediplo.com/spip.php?article481
